Triatlo Longo de Caminha vai realizar-se em plena época balnear e obriga a novo corte de trânsito

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A edição de 2026 do Triatlo Longo de Caminha já tem data definida. A prova, que habitualmente decorria em maio, realiza-se este ano a 19 de julho. A alteração da data volta a obrigar ao corte de trânsito, em plena época balnear, ainda que por menos tempo em comparação com edições anteriores, em ambos os sentidos da Estrada Nacional 13, entre a rotunda de Gondarém e a rotunda de Vila Praia de Âncora.

O evento foi alvo de críticas no passado nomeadamente quanto ao seu impacto junto de comerciantes e moradores, e foi também questionado pela oposição que agora está no poder. Para 2026, já com um novo executivo, a Câmara Municipal de Caminha prevê um investimento de 25 mil euros na iniciativa, valor superior ao atribuído, no conjunto do ano, a qualquer associação desportiva do concelho com escalões de formação e infraestruturas próprias.

Sendo o turismo a grande aposta do município e com tantos problemas que Caminha enfrenta atualmente na sua orla costeira, provocados pelo comboio de tempestades dos últimos meses, soma-se agora mais um corte de trânsito na EN13, no auge do verão.

A data oficial, 19 de Julho, foi avançada há duas semanas pela Câmara Municipal mas a Associação de Triatlo de Caminha (ATC) já tinha divulgado a nova data a 19 de Janeiro. Dois dias depois, a ATC publicava um comunicado na rede social Facebook a explicar que as novas diretrizes da Câmara e as condicionantes naturais do Rio Minho limitariam as datas possíveis para este ano.

Para a associação, tendo em conta estes fatores, 19 de Julho era a única data possível para realizar a prova.

Se já em Maio os comerciantes se queixavam que a prova prejudicava os seus negócios, no pico do verão, na altura em que precisamente mais gente circula no nosso território há quem considere que o impacto vai ser ainda maior. Em Maio já havia queixas porque, apesar de não ser época alta, a prova condicionava acessos, afastava clientes e criava transtornos a quem vive e trabalha aqui. No pico do verão, isso amplifica-se em cadeia. Os comerciantes perdem faturação no momento mais crítico do ano – um dia mau em Julho não se compensa em Novembro; os moradores ficam impossibilitados de fazer a sua vida normal; os turistas, com restrições sem aviso claro, acabam por evitar a zona (alguns não voltam); já os visitantes ocasionais desistem à primeira complicação de acesso ou estacionamento.

O argumento habitual (promoção do território, visibilidade, dinamização) faz sentido no papel mas no terreno há um choque direto entre o evento e a economia local. E no verão, esse choque chega no pior timing possível. A questão que fica é esta: quem é que realmente ganha com o evento e quem paga a fatura?

José leal
José Leal, vereador do desporto na Câmara Municipal de Caminha

O Jornal C – O Caminhense questionou por email a Presidente da Câmara acerca da alteração da data, dos custos da prova para o munícipio, do percurso, entre outros assuntos. Liliana Silva remeteu para o vereador do desporto, José Leal, as respostas às questões colocadas.

Em relação à data escolhida, o vereador esclareceu que “a Federação Portuguesa de Triatlo só dava deferimento positivo para a realização da prova, mantendo a mesma a contar para o calendário nacional, se esta tivesse em consideração alguns critérios de segurança, nomeadamente, não existir trânsito nas duas faixas de rodagem. Como o Município assumiu que não iria cortar a N13 durante os mesmos períodos de tempo dos anos anteriores – 7h às 19h (12h) – e para libertar a N13 o mais cedo possível, foi necessário estudar e analisar a tabela de marés, identificando um mês/dia em que houvesse uma maré no rio Minho que permitisse começar o segmento de natação por volta das 6h30 da manhã, permitindo desta forma abrir a N13 por volta das 10h30, após a conclusão do segmento do ciclismo, não causando os constrangimentos dos anos anteriores, isto porque o segmento da corrida já será efetuado fora da N13. A única data possível foi o dia 19 de julho, um domingo.”
Para o vereador, a data “calha bem, pois ao domingo as pessoas acordam mais tarde e não notam tanto os efeitos da N13 cortada”.

Quanto aos custos para o município, o valor já vai em 25.000€, um valor superior ao que é dado a clubes desportivos históricos do concelho com escalões de formação e sede, como por exemplo o Sporting Clube Caminhense ou o JUCAMINHA. Mas, segundo José Leal, nunca será um valor superior às edições anteriores pois não será necessário cabimentar um efetivo da GNR em números semelhantes às outras edições”, disse.

Sendo o organizador uma associação, o Jornal C perguntou por que razão é que o apoio não foi protocolado através do Regulamento Municipal de Apoio ao Desporto (REMAD) como às restantes associações. Em resposta, o vereador José Leal explicou que o REMAD inclui o RAAD (Regulamento  de Apoio ao Associativismo Desportivo), que é um instrumento que regulamenta o apoio a associações desportivas que apostem na formação. Uma vez que a Associação de Triatlo de Caminha não investe na formação de atletas, apenas promove atividades, nunca poderia estar inscrita no REMAD”, apontou. O vereador do desporto referiu ainda que existem mais associações em Caminha que não estão inscritas no REMAD e que recebem apoios para a organização de eventos desportivos. “Cabe ao município considerar quais são as associações que deverão ser apoiadas, sempre e quando considere que as atividades por estas promovidas ou desenvolvidas, sejam relevantes para o concelho, exemplo: Desnível positivo, Associação Trail do Pote, etc.”.

Em relação aos escalões de formação, que a referida associação não tem, José Leal diz que o município não interfere na dinâmica interna dos clubes e associações, pelo que reserva-se o direito de não solicitar determinadas informações, “como é o caso do número de sócios e outras”, ao contrário do que acontece com as restantes associações desportivas do concelho, incluídas no REMAD, onde um dos critérios de majoração é precisamente a valorização dos escalões de formação.

Questionado acerca dos pareceres da IP (Infraestruturas de Portugal), que nos anos anteriores não foram respeitados, o vereador do desporto esclarece que caberá à ATC e à Federação Portuguesa de Triatlo solicitar esses pareceres. “O Município irá respeitar todos os pareceres das entidades reguladoras. Está previsto o trânsito estar cortado das 6h40 às 10h30, minimizando os impactos que existiam em edições anteriores”, explicou.

Quanto ao percurso, José Leal refere que será o mesmo das edições anteriores, estando a nacional 13 cortada desde a rotunda da A28 em Gondarém até à rotunda da A28 em Vila Praia de Âncora.

Na vila de Caminha, o eleito esclarece que haverá um maior cuidado ao nível da informação/sinalética a quem circula pelas artérias da vila, com duas cores distintas para quem pretende circular para norte ou sul do Concelho.

Relativamente à informação que o município prestou aos comerciantes, hotéis, restauração e moradores ou ao feedback que colheram dessas pessoas, José Leal garantiu que esta informação acerca do triatlo já foi apresentada aos empresários em reunião nos paços do concelho “com todos os que estiveram presentes”. O Jornal C sabe, no entanto, que não houve nenhuma reunião para discutir este assunto em concreto com os comerciantes.
“No que diz respeito aos moradores, não conseguimos, obviamente, chegar a todos por razões óbvias”, rematou.

Pior a emenda que o soneto

Recorde-se que este evento desportivo sempre se realizou em Maio, ao sábado, e nesse dia muitos comerciantes fechavam as suas portas pois o acesso à vila raiana da foz do Minho tornava-se praticamente “impossível” durante a realização desta prova, tanto para moradores como para visitantes e turistas. Os cortes de trânsito prejudicavam ainda o negócio de comerciantes e proprietários de restaurantes, que viam nesse dia o seu movimento cair quase para zero.

Em 2024, Nuno Valadares, então vereador da coligação O Concelho em Primeiro (OCP), alertava para os prejuízos que causavam alguns eventos em Caminha por não estarem corretamente planeados.

Liliana Silva, então também vereadora, criticava em reunião de Câmara os cortes de várias artérias na vila, bem como das duas vias da EN 13 desde a rotunda da A28 em Gondarém até à rotunda da A28 em Vila Praia de Âncora, durante praticamente um dia.

A autarca falava mesmo em corte (de trânsito) “ilegal” uma vez que no parecer da IP, “só havia autorização para cortar uma das faixas de rodagem da Estrada Nacional 13, naquele troço, ou seja, no acesso litoral a todo o concelho de Caminha. No entanto a Câmara contrariou o parecer e procedeu ao corte total prejudicando desta forma os empresários do concelho de Caminha e os caminhenses que se viram impedidos de aceder à vila.

Nessa mesma reunião, os vereadores da oposição analisaram as contas e custos associados à prova e concluíram que o dinheiro que era gasto era “elevadíssimo” e alertavam para a necessidade da realização de um estudo financeiro credível em relação ao Triatlo. “Como é que um clube que cobra mais de 50 mil euros em inscrições não consegue pagar o evento, tendo a Câmara que pagar somas elevadíssimas para a sua realização?, questionava Liliana Silva.

Na Assembleia Municipal de 28 de Junho de 2024, questionado sobre este mesmo assunto, Rui Lages, então Presidente da Câmara Municipal de Caminha, afirmava terem gasto doze mil euros, para além dos quinze mil euros na assinatura do protocolo. Feitas as contas com a documentação apresentada, as despesas que não estavam quantificadas ascendiam a 13.345,52 €, a somar aos quinze mil quantificados, num total de mais de 28 mil euros.

Agora que está no poder, Liliana Silva mantém o percurso, mantém o corte (não por tanto tempo, diga-se) e gasta praticamente o mesmo. Este ano, em despesas quantificadas, a conta já vai em 25 mil euros, um valor superior ao que o município deu recentemente a associações históricas do concelho – com escalões de formação, sede e outras despesas inerentes, como por exemplo o Sporting Clube Caminhense ou o Âncora Praia Futebol Clube – e a nova data escolhida é em plena época balnear, quando o concelho de Caminha duplica ou triplica a sua população.

Sporting Club Caminhense – 24 mil 778 euros
Lanhelas Futebol Clube – 14 mil 259 euros
Clube de Praticantes de Karaté de Caminha – 7 mil 155 euros
Judo Clube de Caminha – 16 mil 559 euros
Centro Cultural e Desportivo Ancorense  17 mil 217 euros
Clube Andebol de Caminha – 6 mil 825 euros
Atlético Clube de Caminha – 15 mil 925 euros
Associação Cultural e Recreativa de Riba de Âncora – 3 mil 801 euros
Associação Desportiva Juventude Vila Praia – 8 mil 279 euros
Âncora Praia Futebol Clube – 24 mil 294 euros
Associação Social, Cultural e Desportiva de Vile – 1.035 euros
Associação Clube de Combate de Caminha – 2 mil 964 euros
Clube Atlânticos do Âncora – 6 mil 389 euros

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