Em 17 Outubro, 2014 Por Em Podcasts, Rubricas - Artigos, Terra, Rio e Mar

Apanha do “argaço” – Uma cultura com séculos de história

 

A apanha de algas marinhas na costa noroeste de Portugal foi, desde a Idade Média até ao século XIX, uma atividade importantíssima.

apanha sargaço antigamente 1Segundo um estudo elaborado por João Paulo Cabral, entitulado “A apanha das algas na ilha da Ínsua (Caminha) nos séculos XVII-XIX. Singularidades e Conflitos”, esta atividade encontra-se bem documentada para a região entre Viana do Castelo e Porto, no entanto são escassas as informações relativas ao restante litoral.

No arquivo distrital de Braga existem valiosos manuscritos inéditos sobre o mosteiro franciscano da Ínsua, e sobre a apanha das algas na ilha no passado.
Da análise desses documentos, e do estudo da flora de macro algas da ilha no presente, foi possível concluir que a apanha de algas na Ínsua nos séculos XVII-XIX não era livre como no restante litoral, mas estava subordinada a uma autorização expressa do guardião do convento, que em troca recebia esmolas dos apanhadores.
Não podiam ser recolhidas aos domingos e dias santos, não podiam ser apanhadas por mulheres,nem os homens podiam permanecer na ilha durante a noite, devendo regressar a terra ao escurecer. Recolhiam-se as algas deixadas na praia na maré baixa, mas provavelmente também se procedia ao corte das Fucáceias deixadas a descoberto na maré vazia. Estas singularidades da apanha de algas na Ínsua foram explicadas como provavelmente resultantes do direito de posse de todos de todos os recursos naturais da ilha pela comunidade franciscana derivadas da desvalorização da ordinária da Coroa.

 

Tio Zé Veiga: Uma vida inteira dedicada à apanha do sargaço

tio ze veigaLonge vão os tempo em que a apanha do sargaço ou “argaço” na praia de Moledo era uma prática habitual.
A partir de julho, parte do areal cobria-se de um manto castanho que só desaparecia lá para finais de setembro ou meados de outubro, altura em que o “argaço” era recolhido para os “cobertos” as casas do sargaço que existiam junto à praia.
Cultura com séculos de história, a apanha das algas constitui, em tempos, uma importante atividade económica e social naquela freguesia.
Hoje já são poucos os que se dedicam a esta atividade que, em tempos, chegou a juntar mais de 200 pessoas no areal.
Faina dura e perigosa, cabia aos homens entrar no mar e enfrentar as ondas revoltosas.
As mulheres ficavam normalmente em terra e a elas cabia a tarefa de transportar o sargaço para a secagem.
Utilizado como fertilizante na agricultura, ao longo dos anos este adubo natural foi sendo substituído por fertilizantes químicos, mais perigosos para a saúde e que retiram paladar aos alimentos.

O Terra, Rio e Mar desta semana convida-o a conhecer um pouco mais desta cultura ancestral em vias de extinção.
Fomos a Moledo, terra de sargaceiros e sargaceiras, e por lá encontrámos gente que ao longo da sua vida se dedicou a esta atividade, repartindo os dias entre o mar e a terra.
Com 87 anos, José Veiga é um desses moledenses.

Começou cedo, com apenas 11 anos, a ajudar a mãe na apanha do “argaço” e esta foi a sua vida.
“Foram 75 anos a percorrer esta praia de uma ponta a outra. Tinha 11 anos quando comecei a trabalhar, era um garrano pequeno.
Vim sempre enquanto pude. No verão vinha à praia e quando não estava na praia pegava na “caneta” e ia para os campos trabalhar”, recorda.
José Veiga diz que era como a formiga, aproveitava tudo o que podia. “Primeiro ia buscar para os nossos campos e depois vendia para fazer algum dinheiro para o inverno. Vendi muito argacinho, muitos palheiros de “argaço” não só para pessoas aqui da terra, mas também para a Póvoa e outros sítios. Vinham aqui buscar aos camiões de “argaço” e ás vezes num dia ganhava-se a semana”.
Atualmente o Tio Zé Veiga, como é conhecido em Moledo, já não se dedica a esta atividade mas de vez em quando ainda vai matar saudades à praia e, se o mar estiver a dar sargaço, aproveita para encher uns saquinhos.
“Ainda ontem fui com a minha neta encher uns sacos de “argaço” que estava encostado ali na praia de banhos. Ela precisava de argaço verde para fazer umas hortas e eu lá vim com ela. Eu só lhe dizia: No meu tempo alguma vez isto ficava aqui em seco, nem pensar”.

apanha sargaço antigamente 2José Veiga recorda que no seu tempo tinha que entrar pelo mar dentro com o “redenho” e com a água pelo pescoço para trazer o sargaço para terra. Nunca apanhou nenhum susto mas reconhece que era uma vida um bocado dura.
“Como eu não sabia nadar também não arriscava muito. Aqueles que sabiam era mais afoitos e faziam-se mais ao mar”, conta.
A apanha do sargaço começava por volta das seis da manhã e antes desse horário não era permitido entrar na água.
“Estava um guarda a ter conta em nós e a fila chegava a ter mais de 100 pessoas que ficavam ali com os redenhos à espera que ele apitasse para poderem finalmente entrar na água.
Nós sabíamos que não podíamos ir para além de um determinado limite mas às vezes abusávamos um bocado e ele (o guarda) lá estava com a espingarda apontada a mandar-nos recuar. Nós recuávamos mas à primeira oportunidade lá dávamos mais dois ou três passos, era assim”.
Na retaguarda havia quem tivesse ajudas e quando assim era a quantidade de sargaço recolhida era muito maior. José Veiga às vezes ia com as filhas mas muitas vezes ia sozinho porque elas andavam ao jornal.
“Enquanto uns estavam no mar a recolher o argaço com o redenho, outros já estavam na areia à espera com outro redenho vazio para lhes entregar e receber o que vinha cheio do mar. Não se perdia tempo, era uma luta e quem tinha ajuda safava-se melhor, eu vim muitas vezes sozinho e claro, era mais difícil”.
Tempos difíceis e uma vida dura como recorda o tio Zé Veiga. “Andávamos sempre molhados e às vezes com frio mas tínhamos que andar”.

A apanha do sargaço era feita com o recurso a alguns utensílios ou ferramentas indispensáveis a esta arte tradicional: Um redenho que é uma espécie de rede em saco que apanha o sargaço no mar e o transporta para terra, o despedouro, uma espécie de ancinho com quatro dentes, uma sachola, cestos e a padiola que servia para transportar os sargaço até à zona de secagem.
A atividade começava em junho mas às vezes em maio o mar já dava alguma coisa. “Às vezes em maio já dava a chamada “folha de maio” mas o forte era a partir de junho até setembro. Em outubro ainda se faziam algumas marés mas poucas”.
Depois de retirado do mar o sargaço era posto a secar durante dois ou três dias, sendo depois recolhido para os cobertos.
“Quanto mais depressa secasse melhor porque assim já ficávamos com espaço livre para secar outro”.

crespelho

Das algas que vinham do mar a mais valiosa era o crespelho. José Veiga recorda que era bem paga, rondava os 11 escudos a arroba, e ia toda para o Japão para fazer medicamentos e plásticos.
“Eu cheguei a comprar muito crespelho para o senhor Lopes de Viana. Comprava e pesava por conta dele e depois ele pagava-me. Rendia mais ou menos 11 escudos a arroba não era mau mas nós queríamos sempre mais.”
Enquanto o crespelho era pago a 11 escudos a arroba, o restante valia pouco mais do que 5 tostões o quilo.
“Eu cheguei a vender o crespelho a 90 escudos o quilo mas durou pouco tempo porque chegou uma ordem do governo que proibia a venda desta alga para o estrangeiro. Mas teve graça que conforme se deixou de vender, assim deixou também de se apanhar. Parece que de um momento para o outro o crespelho desapareceu do mar, até parece que foi praga”.
Praticamente desaparecida, ainda hoje há quem ande por Moledo a tentar arranjar o crespelho. José Veiga explica que há pessoas que utilizam esta alga para fazer uma espécie de remédio para os ossos. “Misturam com álcool e depois quando têm dores nas articulações ou nos ossos esfregam com aquilo e parece que dá resultado”.

Antes de terminarmos a conversa com o tio Zé Veiga lançamos-lhe o desafio para um pequeno passeio até à praia de Moledo.
Estamos em outubro e o sargaço continua a invadir o areal. José Veiga parece querer leva-lo consigo para casa e lamenta que hoje em dia as pessoas tenham praticamente abandonado esta atividade.
“É pena porque o sargaço é o melhor adubo que há para as terras, é o mais puro que há e até as batatas têm outro gosto. Mas hoje ninguém aproveita nada”, lamenta.
Finda a conversa com o tio Zé Veiga e depois das fotografias da praxe é hora de recolher a casa. Vive com uma filha com quem foi muitas vezes ao sargaço. Quando chega a casa a primeira coisa que lhe diz é que a praia está cheia de sargaço e que se quiser ainda pode aproveitar.
A filha, que já lhe conhece o entusiasmo, diz-lhe: “talvez amanhã meu pai…”.

 

sargaço praia moledo
Apanha do sargaço na praia de Moledo

De 15 de junho a 15 de novembro, as areias da praia de Moledo cobrem-se de tapetes e montículos escuros. Há um forte cheiro a iodo no ar. Trata-se de sargaço ou “argaço” como é chamado pelas populações de Moledo. A sua apanha exige uma licença concedida pela Capitania do Porto de Caminha. Depois, em maio ou nos inícios de junho a praia é dividida em talhões de 10mx50m que são sorteados entre os sargaceiros ficando cada talhão (ou “sorte” demarcado por estacas. Os melhores meses para a apanha são os do verão, particularmente Julho.
O sargaço é composto por várias algas marinhas conhecidas pelos sargaceiros pelos nomes de “verdelho”; pespelho”, “carocha”, “crespelho” ou “musgo”.
Antigamente para o recolher, o sargaceiro utilizava o “redenho” constituído por um cabo de madeira tendo na extremidade um meio arco em ferro do qual se prendia um saco em rede. O sargaceiro colocava o “redenho” à sua ilharga direita e segurava-o pelas duas mãos, estando a esquerda mais perto do arco e ficando o braço direito fletido pelo cotovelo. Entrava na água com o “redenho” em posição oblíqua e manejava-o em movimentos amplos repondo ate ao fundo e levantando-o quando estivesse cheio de sargaço. Depois arrastava-o para a praia sendo, por vezes, ajudado neste penoso trabalho.
Hoje o sargaço é atirado pelo mar para a praia sendo arrastado pelos sargaceiros para ficar na areia húmida fora do alcance das ondas.
Em seguida com o emprego de uma espécie de ancinho com quatro dentes em ferro (o “despedouro”) é carregado em padiola transportada a braço para os talhões onde o sargaço fica amontoado.
Para a sua secagem ser feita nas melhores condições é retirado dos montículos e distribuído em leve camada de areia do talhão. Para este trabalho é usado um ancinho com maior número de dentes dos existentes no “despedouro”. Quando fica seco é levado em trator (antigamente em carro de bois) para as casas dos lavradores.
Antigamente era guardado nas casas do sargaço (os “coberto”) junto à praia de Moledo.

As atuais aplicações do sargaço são o emprego como fertilizante natural dos campos de batata e como matéria prima para as indústrias farmacêuticas e de Cosmética. O Japão é um dos destinos das algas de Moledo.

Ferramentas utilizadas: Redenho; Despedouro; Sachola; Cestos e Padiola

 

maria jose sarmento


O sargaço é ouro para a terra

Maria José Sarmento e o marido cultivam uma pequena horta biológica em casa. Quando decidiram ser eles a produzir os seus próprios legumes, Maria José impôs de imediato uma condição: “adubos químicos nem pensar”.
Ao princípio o marido ainda se mostrou um pouco resistente mas Maria José não cedeu. “Ele estava sempre a dizer que sem um saco de adubo a terra não ia dar nada”.
Conhecedora desde pequena da utilização do sargaço como adubo natural para a terra, Maria José decidiu que seria este o seu fertilizante e mais nenhum.
“Ao principio não foi fácil convencer o meu marido porque ele não acreditava mas depois viu que eu tinha razão. Isto é ouro para a terra”.
Fomos encontrar esta caminhense na praia de Moledo ao final da tarde. O anúncio de que viria a chuva levou-a apressada até lá para recolher o monte de sargaço que durante o verão foi recolhendo e estendendo no talhão que rematou na marinha para o efeito.
“Faço isto todos os anos e adoro porque e em vez de vir para a praia e estar deitada na toalha, prefiro andar a apanhar o sargaço. Olhe pelo menos ando entretida e faço um bocado de ginástica”.
Maria José Sarmento lamenta que hoje em dia as pessoas prefiram os adubos químicos do que os naturais.
“Sabe uma coisa isto é ouro para a terra e nem tem comparação o sabor de uns legumes que são adubados com químicos e os que são adubados com o sargaço. Se você for à minha horta vai reparar que até os bichinhos andam por lá a comer as ramas, mas se fosse uma terra adobada com químicos nem a bicharada lhe pegava”, explica.

sargaco

Quando era criança esta caminhese lembra-se de vir à praia de Moledo e ver os sargaceiros a recolheram o sargaço.

“Era impressionante a quantidade de gente que andava por aqui. Você pensa que o sargaço dava à praia como agora? Nem pensar, não havia nada. Os sargaceiros tinham que entrar pelo mar a dentro e puxá-lo para terra com o “redenho”. Não era fácil porque aquilo vinha pesado e eles tinham que arrastar até à praia. Depois era carregado nos carros de vacas e transportado pelos agricultores de Cristelo, Vilarelho da Portela e de Venade. Parece que ainda estou a ouvir o chiar dos carros e as cantigas que eles cantavam pelo caminho. Eram às dúzias, um espetáculo”, recorda.
“Hoje Deus dá de graça e ninguém quer. Habituaram-se aos adubos para poderem produzir mais rápido e depois quem sofre são as pessoas que compram esses legumes”, desabafa.
Enquanto vai explicando os benefícios do sargaço a filha e o neto vão enchendo a carrinha. O monte está praticamente desfeito mas depois há que apanhar os restinhos que ficam na areia. “Não se pode desperdiçar nada, aproveita-se tudo”.

Quando fizer um dia de sol o sargaço volta a ser estendido para que fique bem seco. “O sol vai fazer muito bem porque lhe vai tirar o resto da humidade que ainda tem. Se for guardado húmido acaba por apodrecer e isso nem pensar. Tem que ficar assim sequinho como a palha”.

A preparação do sargaço começa em junho, altura em que a maré o começa a atirar para o areal. “Depois estende-se pelos meses de julho, agosto e setembro. Em finais de setembro começa-se a recolher para guardar”.
Este ano houve muito menos sargaço do que no ano passado, garante Maria José Sarmento. “Sabe porquê? Porque o mar desfez a praia e fez aqui uma poça muito funda. O mar atirou com o sargaço para a Póvoa e Esposende. Lá houve muito. Aqui menos mas mesmo assim conseguiu-se apanhar muito sargaço”.
A licença é tirada na Capitania do Porto de Caminha e até nem é cara. “Estamos a falar em pouco mais de vinte euro e podemos tirar a quantidade de sargaço que quisermos, desde que caiba no nosso talhão. Há pessoas que tiram mais do que uma licença e têm direito a vários talhões mas isso é para aquelas pessoas que depois vendem o sargaço durante o inverno”, explica.
Daqui a umas semanas Maria José Sarmento e o marido já vão plantar as batatas do cedo para comer na Páscoa.
“Isto é um adubo maravilhoso em todos os sentidos. Primeiro porque não faz mal à saúde, depois porque nos obriga a fazer ginástica quando o andamos a apanhar. E tem outra coisa: apanhar as algas no mar faz muito bem às mãos porque a água salgada tem muito iodo e faz muito bem aos ossos. E mais, não se gasta dinheiro porque isto Deus dá de graça”.
Ao principio não foi fácil convencer o marido a utilizar o sargaço como adubo mas agora já é ele que se preocupa se estiver a acabar.
“Foi uma batalha mas eu disse logo: se comprares um único quilo que seja de adubo eu não te ajudo nem como os legumes. Agora já está convencido de que é verdade e até ele o primeiro a preocupar-se quando o sargaço está a acabar. Quando isso acontece venho aqui a Moledo e compro um ou dois sacos às pessoas que vendem”.

Na horta de Maria José Sarmento plantam-se batatas, pimentos, cenouras, tomates, e toda a qualidade de legumes e até as urtigas se aproveitam. “Sabe que as urtigas fazem uma sopa e uma tortilha maravilhosa? São muitos boas para a saúde”.
O sabor e o cheiro dos legumes não têm comparação garante Maria José. “Olhe eu tenho aprendido muita coisa. Até os bichinhos e os passarinhos sabem que podem comer as minhas hortaliças porque elas não levam uma ponta de químicos. Eu estou sempre atenta às caracolas e ás lesmas porque elas comem tudo, nem as urtigas escapam”.
Voltando ao sargaço esta caminhense explica que para além de ser um excelente fertizante, o sargaço tem muitas outras utilidades. Desde a cosmética aos medicamentos, passando pela culinária.
“Aqui há uns anos atrás andava aqui muita gente a apanhar uma alga castanha franzida que era vendida a um preço muito alto. Chamava-se o “crespelho” e era uma alga caríssima que era vendida ao quilo e depois ia para a China e para o Japão para medicamentos”.

Maria José Sarmento quis fazer a experiência e há uns tempos também secou alguns quilos daquelas algas.
“Sabe o que fiz? Sequei-o bem sequinho, depois peguei numas ramas e misturei-as com álcool puro e deixei ficar a repousar. Uso quando tenho dores nos ossos e dá um resultadão”, garante.
Para além do “crespelho”, na praia de Moledo também se apanha o “verdelho”, o “pespelho”, a “carocha” e o “musgo”.
Saber que aquilo que serve à família é da melhor qualidade é um dos grandes prazeres de Maria José Sarmento.
“É um prazer enorme servir uns grelos com uma posta de peixe ou fazer uma bela sopa de legumes com umas boas cenouras, alho francês e uma batatinhas. Eu adoro e enquanto tiver saúde venho todos os anos apanhar o meu sargacinho”.

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