16.4 C
Caminha Municipality
Terça-feira, 25 Junho, 2024
spot_img
InícioRubricas - ArtigosRecordemos José Porto, o arquiteto Vilarmourense

Recordemos José Porto, o arquiteto Vilarmourense

Estamos no ano de 1961. José Porto encontra-se com 78 anos padecendo de graves problemas de saúde que também o vão limitando. Porém, nem por estes motivos tende a se desligar da sua arte que tomaria como paixão, a avaliar pelo seu percurso, quantidade e qualidade de obras produzidas, continuando a aceitar grandes desafios, infelizmente esquecidos no tempo.

CASA
Casa onde José Porto residia em Vilar de Mouros, anteriormente casa dos seus pais. O projeto dos muros, serralharias e reabilitação da habitação é da sua autoria. Imagem do autor.

Vivendo há já alguns anos na sua residência no Lugar de Marinhas em Vilar de Mouros onde passava o seu tempo livre rodeado da sua horta, aceita o desafio de concorrer ao anteprojeto da Igreja do Sagrado Coração de Jesus lançado em Novembro de 1961. Edifício esse que se pretendia construir a escassos 150 metros da Praça do Marquês do Pombal em Lisboa. Este é, segundo os dados encontrados, a sua última participação em projetos de grande dimensão ou concursos públicos, e um dos últimos projetos da sua vida.

PORTAO
Portão principal da casa de José Porto em Vilar de Mouros, desenhado pelo arquiteto e produzido na histórica Oficina Fontes. Imagem do autor

Fá-lo em parceria com o arquiteto David Caravana, seu amigo e visita recorrente na sua residência em Vilar de Mouros, apresentando ao júri a proposta número 13. Porém não saem vencedores, cabendo aos arquitetos Nuno Teotónio Pereira, Nuno Portas e aos engenheiros Rui Júdice Gamito e João Lobo Fialho o lugar de vencedores. A sua versão é edificada, sendo atualmente classificada como Monumento Nacional pelo Ministério da Cultura desde 25 de Setembro de 2009.

IGREJA EXT
Vista exterior da proposta para a Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Desenho de José Porto. Imagem: Revista Arquitetura, nº 76 de Outubro de 1962.

Todos os projetos a concurso foram divulgados no número 76 da Revista Arquitetura, editada em Outubro de 1962, onde surgem os desenhos em perspetiva das fachadas e do interior da proposta 13 elaborados pela mão de José Porto.

Apesar de não ter vencido qualquer prémio pela participação, entende-se a atitude do arquiteto e a sua notoriedade, surgindo entre as 14 propostas de anteprojeto para a igreja, comprovando as sua capacidades e reconhecimento, apesar dos seus quase 80 anos, concorrendo a par de arquitetos com idades de 27 e 39 anos, como o caso dos vencedores.

IGREJA INT
Vista interior da igreja. Desenho de José Porto. Imagem: Revista Arquitetura, nº 76 de Outubro de 1962.

Se seria a proposta de José Porto e David Caravana antiquada ou desadequada à época, não cabe aqui analisar ou responder. Contudo foi de uma total discordância, da parte deles, o resultado do concurso ao ponto de publicarem uma carta no jornal Diário Popular contestando e tecendo duras críticas aos resultados e a alguns prémios atribuídos, puxando, aparentemente, os “galões” dos longos anos da sua experiência como arquiteto em programas díspares, tanto dentro como fora de Portugal.

Encerra aqui o surgimento do nome do arquiteto José Luiz Porto em projetos de relevante dimensão e importância.

Acabaria por falecer no dia 6 de Junho de 1965 em Amarante, onde se encontrava a acompanhar a obra numa quinta na Alto da Lixa, propriedade da Família Pimenta Machado que tinha já sido cliente do arquiteto no ano de 1953, aquando da remodelação da sua residência em Guimarães. Sobre a obra da quinta não foi possível encontrar informações concretas ou projetos. Seria a sua última intervenção e que acabou por não ver o resultado terminado.

Aos dias de hoje, os seus restos descansam, desde 1971, frente à entrada principal do Cemitério de Vilar de Mouros, após transladação do seu corpo do Cemitério de Amarante, onde foi sepultado após o seu falecimento.

Longa e rica a sua vida de 82 anos, repleta de ensinamentos na arte da arquitetura.

NOTA DO AUTOR:

Encerra-se neste mês de Outubro, em que perfazem 140 anos do nascimento de José Porto (10/10/1883), um ciclo de 9 artigos que tentei que fossem espelho do trajeto profissional do arquiteto, demonstrando as várias fases e linguagens da sua vida, tanto em projetos de dimensão nacional ou apenas de reabilitação de uma modesta residência em Vilar de Mouros.

De todas as obras que aqui foram abordadas, fez-se uma leitura sumária, mas com conteúdo, permitindo aos leitores, conhecedores ou não do nome do arquiteto, recordarem ou conhecerem um pouco de um homem da terra e que teve um papel de extrema importância na nova vida arquitetónica portuguesa que surge a partir dos anos 30 e que permite, aos dias de hoje, viver com uma qualidade inexistente há cerca de 100 anos.

Tantas obras mais existem no percurso de José Porto. Muitas que se sabe e outras que se mantêm quase no anonimato e que vão sendo descobertas com o desenrolar de investigações académicas.

Pretendo também que estes artigos sirvam de divulgação do nome do arquiteto junto de um universo de colegas arquitetos que nunca tiveram contato com a sua obra, ou mesmo que sirva também de apoio a alunos para futuras investigações, melhorando e contribuindo para o conhecimento sobre o homem e seu legado.

É um nome obrigatório, a meu ver, a figurar na bibliografia académica, nem que seja pelo simples facto de ter sido, talvez, o primeiro arquiteto ao norte de Portugal a projetar com os novos sistemas de construção à época, que atualmente são vulgares, e com uma linguagem que trouxe da sua estadia na cidade de Paris, berço do modernismo mundial. E referimo-nos logo à sua primeira obra, a Casa Ananias em Caminha. Esta pode até ter sido, eventualmente, a primeira obra em Portugal com estas características parisienses. Não sendo, ou não se conseguindo provar, foi garantidamente uma das primeiras, antecipando gestos idênticos de futuros projetos de outros arquitetos. Arquitetos esses que ficaram gravados na história. Contudo, José Porto não ficou, merecendo notoriedade e não o esquecimento.

Da minha parte, tenho a agradecer a disponibilidade e importância que o Jornal O Caminhense deu aos artigos produzidos, disponibilizando desde logo espaço para que fosse uma coleção de peças realmente informativas e ilustrativas.

Agradeço também a todos os caminhenses, ou outros públicos, pela atenção prestada aos artigos, esperando que a todos tenha despertado interesse e acima de tudo tenha contribuído para o reavivar da memória do arquiteto José Porto.

Caminha é uma vila recheada de grandes mestres da história da arquitetura portuguesa. Já aqui abordei os casos de Miguel Ventura Terra e Miguel Nogueira Júnior. José Porto é mais um desses mestres, mesmo que sejam de diferentes linguagens arquitetónicas.

Caminha, os caminhenses e a história merecem conhecer, valorizar e conviver com toda esta cultura que está à sua volta no seu dia a dia. É importante prestar atenção às nobres casas de Ventura Terra e de Nogueira Júnior, algumas delas, infelizmente, em estado de ruína. É importante, ao caminhar por Caminha, pensar que ela convive com os traços que José Porto definiu no anteplano de urbanização da vila. É importante olhar para a Casa Ananias Torres, no gaveto da Avenida Padre Pinheiro com a Rua Eng.º Luís Agostinho de Pereira Castro, e que hoje se encontra com algumas modificações, parar, observar e pensar que esta pode ter sido mesmo a primeira casa a ser projetada e construída em Portugal com esta nova linguagem arquitetónica modernista e método construtivo, que tinha sido criado meros anos antes em Paris.

Toda a atenção e ode à história da habitação, do espaço público ou mesmo da cidade reflete a cultura do local, da cidade e do país. Por vezes está mesmo ao nosso lado e nem sequer prestamos atenção. E a vila de Caminha reflete tanto dessa cultura que merece receber atenção, seja pelos edifícios ou mesmo pelas personagens.

Bem-haja a todos.

- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Mais Populares