O som repetitivo de uma gota a cair pode ser, para alguns, quase meditativo. Para outros, uma pequena tortura quotidiana. Mas na Biblioteca Municipal de Caminha esse som é sobretudo um sintoma grave de um problema estrutural.

Inaugurado em 2016, o edifício da Biblioteca Municipal apresenta sinais evidentes de humidade, infiltrações e degradação prematura, incompatíveis com a idade da construção e com a função pública que desempenha. Isso mesmo lamentou, aquando de uma visita do Caminhense para consultar o arquivo daquela biblioteca, a diretora Celina Lopes, que não compreende como se pode dar um passo tão importante para terra firme – com a concretização desta biblioteca, num investimento de um milhão de euros – e depois “se volte a alto mar”, isto é, deixando o espaço degradar-se desta forma em apenas 10 anos.
A presença constante de humidade não só compromete o conforto de leitores e funcionários, como coloca em risco o espólio documental ali guardado. Livros, arquivos e equipamentos informáticos são particularmente vulneráveis a este tipo de ambiente, o que levanta preocupações quanto à conservação do património cultural e ao normal funcionamento do espaço. O problema torna-se ainda mais inquietante por tratar-se de um edifício relativamente recente, o que pode sugerir falhas ao nível do projeto, da execução da obra ou da sua manutenção subsequente.
Na imagem de destaque desta notícia pode ver-se o musgo e a vegetação que se acumulam no anterior edifício da Biblioteca, agora exclusivamente destinado ao Museu Municipal, antigo Tribunal e Cadeia Comarcã de Caminha. O que não sabíamos ou tínhamos visto era que o musgo também já alastrou ao novo edifício, conforme se pode ver na imagem abaixo, cortesia de uma vista aérea de Caminha publicada na rede social Facebook por David Moreira na passada segunda feira, dia 12 de Janeiro.

“Um livro, uma conversa, e às vezes um filme”… e também uns baldes

Desde Julho de 2025 que a iniciativa da Câmara Municipal de Caminha, “Um Livro, uma conversa e às vezes um filme”, se realiza no 1º andar da Biblioteca, precisamente onde a infiltração é mais visível. Ali, são até colocados baldes nos dias de chuva, como se pode ver na imagem acima.
Na apresentação do livro “Claridade” de João Luís Barreto Guimarães, em Julho do ano passado, pode ver-se a humidade no teto.



Em Setembro de 2025, num outro evento da iniciativa, desta vez para a apresentação do livro “Amazónia” de Manuel Carvalho, a parte danificada do teto já nem é fotografada. O presidente da Câmara de então, Rui Lages, muito próximo do local danificado, parece ignorá-lo, pois até ao final do seu mandato nada foi feito para resolver o problema.


Mas mais do que um incómodo sonoro ou visual, a humidade na Biblioteca Municipal de Caminha é um sinal de alerta que exige resposta célere. Ignorá-la hoje é garantir custos mais elevados amanhã e aceitar a degradação progressiva de um equipamento que deveria ser um polo de conhecimento, conforto e dignidade para a comunidade.


Recorde-se que o projeto da nova biblioteca Municipal de Caminha foi apresentado em Novembro de 2013 pelo executivo caminhense liderado por Miguel Alves, numa candidatura a fundos comunitários, cujo investimento ascendia a cerca de um milhão de euros. Para o presidente da Câmara, “esta obra era estruturante e alavancaria o concelho para o futuro”.

A 8 de Janeiro do ano seguinte, 2014, era proposta em reunião de câmara a ratificação da adjudicação da empreitada, no valor de 917 mil euros + IVA. O projeto, da autoria do arquiteto Nuno Brandão Costa, previa a requalificação da casa existente e a construção de um “acrescento”, que denominava de “dissonante”, construído em granito.
Em Outubro de 2014, arrancava a obra, comparticipada em 85% pelo FEDER, o Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional.
Em Março de 2015, Miguel Alves garantia à comunicação social que a obra deveria estar concluída até ao final do verão.


Mas a inauguração apenas aconteceu em 2016, a 16 de Julho, com a presença do então primeiro ministro António Costa, que evidenciou a natureza da obra, que compreende um edifício novo, mas também a recuperação de um espaço e de um edifício antigo no Centro Histórico. António Costa destacou a importância da reabilitação como “uma forma essencial de valorização do património” do país.



