Paredes de Coura: The Blaze, a labareda que nem fagulha foi

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O regresso ao Festival Vodafone Paredes de Coura foi agridoce. Optei pelo 4º dia, sexta feira 19 de Agosto, apenas com a ideia de ver Boy Harsher no palco secundário e deixar-me surpreender pelo resto do cartaz (coisa que só aconteceu uma vez…). A hora parecia errada desde que soube o horário da atuação da banda. 20h50, música de dança?

Jantámos cedo, na vila, para chegar a tempo. Organização impecável, bilheteira rápida. “Passe geral é lá ao fundo, bilhete diário é aqui”, gritava o responsável, e muito bem, para impedir filas desnecessárias. Quatro checkpoints de segurança bem organizados, céleres e simpáticos. Bastantes bares com amplos balcões, copos e bebidas a preços acessíveis, pouco tempo de espera e um cenário incrivelmente bonito e incrivelmente cheio, como era de esperar.

Chegados ao palco secundário, perto das 20h30, Valter Hugo Mãe, que agora reside em Paredes de Coura, marcava presença juntamente com amigos. À nossa frente, algum público já se amontoava ansiosamente à espera da atuação dos americanos.

Quase no início do concerto, cinco estrangeiros irromperam por nós como se fôssemos folhas de papel, e altos, exibindo sacos de erva como troféus aos amigos, de sorrisos estampados, tapavam o palco e conversavam sem parar desde o primeiro som emitido pela dupla. Este fenómeno aconteceu, perto de nós, praticamente toda a noite e com todas as bandas. Parecia não haver silêncio, não haver qualquer atenção. Como ir ao cinema com um grupo de hooligans. Talvez tenha sido por isso que, depois de nos afastarmos um pouco para respirar e ver alguma coisa de Boy Harsher, Adolfo Luxúria Canibal abandonava o local. Ou foi por isso ou porque Jae Matthews, a vocalista, disse: “We make dance music. So let’s dance.”

Foi um bom concerto. Curto mas conciso. Pena foram as palmas a marcar o ritmo quando desaparecia o kick, como se de um concerto para toda a família se tratasse, e não haver um palmo para dançar. Em brincadeira, disse a um amigo que nem podia mexer os braços e quando os mexi para demonstrar isso mesmo, bati no copo e verti o fino da pessoa que estava ao meu lado.

Acabado o concerto, voltamos ao palco principal, já munidos de novos copos. Mais uma vez ressalvo a excelente organização que criava todas as condições para que não houvesse qualquer preocupação. Pagava-se a dinheiro ou com cartão, havia ATM’s, boas casas de banho e trocavam-se copos com bastante frequência sem precisar de adquirir novos.

Chegados ao palco principal, Kelly Lee Owens surpreendia tudo e todos com um concerto muito efusivo e a correr bastantes riscos, rasgando a monição com beats muito originais e imprimindo a energia que faltava àquela noite. Para nós o melhor concerto do 4º dia, sem dúvida. Ficou o arrependimento de não ter assistido à sua totalidade.

Depois chegou a vez de TySegall & Freedom Band, que pareceu-me bastante confuso e desafinado e que em nada se coadunava com as atuações anteriores.

No fim dos concertos, havia um estranho silêncio no recinto. Um fenómeno que se mantinha durante muito tempo, entre atuações. Outra situação que se verificou, não só por mim, foi a total ausência de encores ou interações com o público. As bandas chegavam, debitavam e “bazavam”.

E eis que finalmente chegam os The Blaze. Um erro de casting, alimentado se calhar pelas belas paisagens de um Cercle fofinho visto no youtube, ou pelos milhões de visualizações em certos vídeos (às tantas comprados/forjados).

Uma dupla de primos franceses que não corriam riscos nenhuns e debitavam melodias evidentes e samples genéricos, com direito a autofills saídos de um teclado Casio que se dá às crianças. Uma espécie de Chainsmokers/Coldplay mas encomendados da Wish. Entediantes, previsíveis, demorados. “Isto não tinha qualidade para Paredes de Coura”, ouvia-se. Aquela atuação derrotou-nos de tal maneira que nos sentámos e não nos levantámos mais.

Não posso falar do festival por inteiro. Já ouvi relatos de bons concertos. Mão Morta no dia 16, Idles no dia 17. No último dia, relatos menos bons, com vídeos de “Barbie Girl” dos Aqua e “We Like To Party” dos VengaBoys e uns Pixies que ficaram aquém.

Por questões pessoais e profissionais apenas podia ir um dia. Pelos vistos escolhi um dos piores. Mas num todo, valeu a experiência pelo espaço e pela companhia.

Para o ano, esperamos que as coisas voltem ao que eram em 1999 (é a minha referência) ou 2015. Boas bandas, um maior cuidado nas escolhas dos horários e um público mais atento e menos “Spotify”.

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