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Domingo, 14 Julho, 2024
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A Lampreia do Rio Minho

Lampreias ainda são poucas mas já começam a aparecer

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A pesca da lampreia no Rio Minho arrancou no passado dia 3 de janeiro e vai prolongar-se até 21 de Abril. O mau tempo que se fez sentir no início da safra fez com que o arranque tenha sido fraco. Do rio, em vez de lampreias os pescadores trazem lixo, muito lixo que obriga a horas acrescidas de trabalho de limpeza das redes. Uma tarefa a que já estão habituados mas que este ano se acentuou devido ao mau tempo. Apesar da pouca quantidade, as lampreias já vão aparecendo e já estão a ser servidas em alguns restaurantes do concelho. Os clientes também já vão aparecendo.

Segundo dados fornecidos pela capitania do porto de caminha, perto de meio milhar de pescadores portugueses e galegos, dedicam-se à pesca artesanal desta e de outras espécies como o sável, o salmão e o meixão, atividade que confere a esta região do Alto Minho uma importante fonte de riqueza.

A lampreia é sem dúvida uma espécie com uma forte implementação cultural, económica e gastronómica da zona ribeirinha do Vale do Minho. Apesar da sazonalidade da pesca de cada uma destas espécies, é importante salientar o movimento que gera na região, permitindo receitas que ascendem a centenas de milhares de euros, receitas essas que revertem a favor tanto de pescadores como de intermediários, restaurantes e agentes turísticos.

Certificação da Lampreia – um projeto da região

A qualidade reconhecida pelos consumidores da lampreia capturada no rio Minho, confere-lhe uma tradição notável que urge preservar e perpetuar. Daí o interesse da certificação desta espécie, um processo que está a decorrer com o apoio da comunidade piscatória, autarquias e Aquamuseu. Carlos Antunes, Biólogo no Aquamuseu do rio Minho, situado em Vila Nova de cerveira, explica que a continuidade do projeto de certificação vai depender dos apoios.

“Nós tivemos uma primeira fase que consistiu na avaliação da ideia e na necessidade de a enquadrar num contexto regional porque só assim é que o projeto faz sentido. Não adianta que uma câmara, seja a de Caminha, La Guardia ou Cerveira, enverede de forma isolada para uma estratégia do género. A região tem que assumir que para ela este projeto é importante, quer pelo seu valor económico, cultural e até gastronómico”.

Depois de apresentado e explicado o projeto a todos os agentes envolvidos, desde Caminha até Melgaço, carlos Antunes refere que ele está pronto para passar à fase seguinte, ou seja, arrancar com um projeto piloto.

“Esse será o passo seguinte porque neste contexto de conservação também é importante implementar medidas que por um lado protejam as espécies e por outro não prejudiquem os pescadores e para isso é importante o envolvimento de todos os agentes, nomeadamente os pescadores de quem já falei, os intermediários, restaurantes e os consumidores”, explica o biólogo.

Mas para que a segunda fase do projeto possa avançar será necessário o devido apoio financeiro, o que, na conjuntura atual, não tem sido fácil de conseguir.

Mau tempo não ajudou no arranque da safra

O mau tempo que se fez sentir no início do mês não permitiu um bom arranque da safra da lampreia. os pescadores foram ao rio mas as redes em vez de lampreias trouxeram quantidades enormes de lixo. Uma situação que os pescadores esperam ver alterada à medida que o tempo for melhorando.

Lampreia já consta nas ementas dos restaurantes locais

Apesar do arranque ter sido fraco, as primeiras lampreias já começam a aparecer nas ementas de alguns restaurantes do concelho. É o caso do restaurante Foz do Minho que nos últimos dias já serviu lampreia aos clientes. António Costinha, proprietário daquele restaurante, diz que a procura da lampreia por parte dos clientes já se tem verificado.

“São pessoas que apreciam e por vezes vende-se melhor agora no início, que está mais cara, do que mais tarde quando já está mais barata. É o efeito da novidade”, explica.

No restaurante Foz do Minho a lampreia é servida com arroz ou à bordalesa mas também se pode fazer assada no formo se o cliente preferir.

“Também fazemos assada mas só por encomenda”.

A dose mantém os preços do ano passado: 19 euros dose individual e 38 para duas pessoas.

“De facto deveríamos ter aumentado mas decidimos manter o preço porque as coisas já estão tão complicadas que, se vamos subir, então é que as pessoas não vêm”.

Mais barata do que há uns anos atrás, a lampreia tem vindo a desvalorizar, uma situação que segundo António Costinha pode estar relacionada com a diminuição dos apreciadores do ciclóstomo.

“A gente mais nova não está muito vocacionada para consumir este tipo de pratos”.

Os clientes espanhóis são também grandes apreciadores de lampreia e por estes dias têm aparecido para a degustar. Outro dos restaurantes onde a lampreia já está a ser servida é no Âncora Mar, em Vila Praia de Âncora. Segundo o proprietário deste estabelecimento logo que aparecem as primeiras lampreias aparecem também os primeiros clientes e a procura já se verifica, principalmente ao fins de semana.

António Domingues aconselha um arroz de lampreia ou uma lampreia à bordalesa que é vendida a 18 euros a dose individual.

“Se for uma lampreia inteira andará à volta dos 70 euros”.

Os clientes que apreciam este prato vêm de todos os lados, principalmente ao fim de semana.

“Temos clientes daqui mas também temos clientes do Porto, Braga que normalmente sabem que por esta altura já servimos lampreia”.

Mas se preferir ficar pelo centro da vila de Caminha, pode optar por fazer uma visita ao Restaurante Primavera, situado da Praça Conselheiro Silva Torres, e deliciar-se com esta iguaria que também é servida naquele restaurante.

Fica a sugestão de uma visita ao concelho e a obrigatoriedade de visitar um dos restaurantes que por estes dias já incluem nas suas ementas a famosa lampreia do Rio Minho, confecionada de diversas formas.

 

Já andei por esse mundo fora mas o mar chama a gente

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Nuno Castro, natural de Caminha, é pescador desde os 15 anos. Normalmente pesca no mar mas quando o tempo não o permite é do rio Minho que tira algum sustento. Fomos encontrá-lo de saída para a pesca à lampreia.

“É a segunda vez que vou. Fui ontem e por acaso tive a sorte de pescar uma lampreia mas ainda há poucas porque estamos muito no início”.

As poucas lampreias que vão aparecendo são vendidas ao público entre 25 e 30 euros, conforme o tamanho.

“Ainda está fraco, ao princípio é sempre assim e só lá para o final de Janeiro é que começam a aparecer mais lampreias”, explica.

A quantidade de água devido ao mau tempo também faz com que a lampreia não entre no rio, como revela Nuno Castro.

“Se o mar for muito, o que tem acontecido nos últimos dias, a lampreia tem mais dificuldade em entrar no rio”.

Aos 29 anos, Nuno Castro não conheceu outra profissão. Neto e filho de pescador, não conheceu outra realidade. Uma vida dura a que este jovem pescador diz já estar habituado.

“Nunca pensei mudar de profissão porque sempre gostei da pesca. Desde pequenino que me habituei a ver os homens da casa a ir para o mar e por isso não me imagino a fazer outra coisa”.

Improvisar é o pão nosso de cada dia

Noutro barco ancorado mesmo ao lado, José Castro também se prepara para ir à pesca da lampreia. Ao contrário do irmão Nuno, este jovem de 27 anos já tentou outras profissões mas acabou por regressar. Terá o mar esta influência sobre quem lá vai todos os dias?

“Já andei por esse mundo fora a tentar outro tipo de profissão mas acabei por regressar. Parece que onde quer que estejamos o mar acaba por nos chamar. Tenho o bicho no corpo, nascemos assim e vamos morrer assim”, explica.

Apesar da vida dura do mar, José Castro garante que é no mar que gosta de estar e trabalhar.

“É duro mas a verdade é que nós devemos estar onde gostamos e eu gosto do mar. Como lhe disse tentei outras coisas mas acabei por voltar à pesca”.

Falta de condições para trabalhar

José Castro não se queixa da dureza da profissão, “isso nós aguentamos”, o que lamenta é a falta de condições que os pescadores de Caminha têm para desenvolver a sua atividade.

“Este rio está cheio de problemas. Precisava urgentemente de um desassoreamento, de plataformas para nós acostarmos os barcos e podermos trabalhar. Prometem e voltam a prometer mas a verdade é que estamos sempre na mesma. Se for preciso daqui a 20 anos está tudo na mesma. O rio vai continuar cheio de areia e nós vamos continuar a ter que improvisar para conseguirmos trabalhar”, desabafa.

José Castro já não acredita em promessas e diz mesmo que se não forem os pescadores a tentar pelos seus próprios meios soluções de remedeio, “vamos ficar em casa porque ninguém nos resolve nada”.

O improviso é por isso o pão nosso de cada dia desta comunidade piscatória.

“Às vezes temos que deixar o barco ali para cima porque com as marés vivas a água vasa mais e já não nos permite trazer os barcos mais para junto do cais. Temos que andar pelos secos, muitas vezes sujeitos a ficarmos presos no lodo e a sorte é que nós conhecemos mais ou menos bem o rio. É muito complicado, se tivéssemos outras condições, melhores infraestruturas, podíamos trabalhar muito melhor”, atira.

Pescador profissional, José Castro vai às lampreias quando não pode sair para o mar. Hoje é o primeiro dia e o jovem pescador espera ter sorte e apanhar alguma coisa.

“Vamos ver se vou estrear, espero que sim porque o mar tem estado tão bravo que não temos podido sair. A ver se ganhamos alguma coisa”.

Quanto à qualidade da lampreia do rio Minho, José Castro não discute até porque nunca provou de outros locais.

“Dizem que esta é a melhor, não sei, talvez, mas deixo isso para os entendidos”, remata.

 

A lampreia quer água doce para ser boa

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Natural de Esposende mas a residir em Caminha há oito anos, Noé Guimarães começou a pescar com apenas 11 anos de idade. Dividido entre o mar e o rio, desde o início da safra Noé Guimarães já conseguiu apanhar 17 lampreias. “Já não é mau”.

Mais cara do que no ano passado, a lampreia tem registado uma grande procura.

“Vamos ver como é que vai ser daqui para a frente, mas o que lhe posso dizer é que em relação ao ano passado, quer em termos de procura quer de preço, está melhor do que no ano passado”.

Segundo Noé Guimarães as primeiras lampreias que apareceram foram vendidas a 35 e 40 euros, valores muito superiores aos de 2013. Questionado sobre a qualidade da lampreia do rio Minho ser melhor do que aquela que é pescada noutros locais, o pescador diz que, enquanto profissional, acha que não é bem assim.

“Para mim a lampreia é igual em todo o lado, o que acontece é que a de Caminha tem mais fama. A diferença pode estar na quantidade de dias em que ela permanece em água doce, isso pode fazer toda a diferença”, explica Segundo Noé Guimarães quantos mais dias de água doce a lampreia tiver melhor é o seu sabor.

“Até dizem que a lampreia que é pescada mais a montante é melhor do que a que é pescada junto à Foz, na boca da barra. Talvez. É por isso que nós aqui em Caminha as deixamos dois ou três dias fundeadas no rio para ficarem mais durinhas e mais saborosas. Isso é normal”.

Apreciador de lampreia, este pescador garante que já provou a espécie pescada noutros rios e que não notou diferença.

“Mas se dizem que a do rio Minho é melhor eu não me oponho. Acho que devemos aproveitar essa fama e tirar dividendos disso”.

A pouca poluição do rio Minho é outro dos fatores apontados para a qualidade da lampreia que é pescada no rio Minho.

“Todo o peixe que é pescado nos rios sem poluição é sempre melhor e de facto o Minho é um rio muito pouco poluído e acredito que por isso as lampreias sejam boas quando comparadas com outras que são apanhadas em rios mais poluídos. Nesse aspeto julgo que estamos em vantagem”.

A pescar há oito anos em Caminha, Noé Guimarães não se lembra de ter tido uma época má.

“Os anos são todos bons, tem é que se trabalhar muito”.

 

O rio quer teimosos

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Mais a norte, na freguesia de Seixas, fomos encontrar os pescadores na árdua tarefa da limpeza das redes. Em vez de lampreias, as redes trazem para terra grandes quantidades de lixo. Paus, folhas e outros detritos são arrastados rio abaixo que por estes dias apresenta um caudal fora do normal devido à muita chuva que se fez sentir no início do mês, ao que se junta também as descargas provocadas pelas barragens a montante.

Manuel Saraiva prepara-se para ir pela primeira vez este ano às lampreias. As informações que lhe têm chegado é que ainda há muito poucas mas o pescador vai tentar a sorte.

“Segundo sei não tem dado nada de especial. Por um lado ainda estamos no início e depois o tempo também não tem ajudado. Vamos ver se dá alguma coisa”.

No varal, Manuel Saraiva espana a rede.

“Estou a por o pano da rede lampreeira para cima para ficar pronta a largar”, explica.

No mesmo varal, à espera de espaço para limpar a rede carregada de lixo, está Abrão Correia. Natural de Vilar de Mouros e a residir em Caminha, este jovem viu na pesca uma solução para a falta de emprego.

“Comecei nesta atividade recentemente, é a terceira época que faço. Estava desempregado e para não estar sem fazer nada, decidi tentar a sorte”.

A “nova” atividade tem corrido razoavelmente, “dá para a sopa como dizem os mais velhinhos”.

Segundo este pescador a falta de concorrência por parte de quem compra o peixe, principalmente a lampreia e o meixão, faz com que os preços andem muito por baixo.

“Nós aqui em Seixas até nem sentimos tanto isso porque podemos vender a qualquer pessoa. Em Caminha já não é assim, só podem vender o pescado na lota e normalmente os compradores controlam os preços”.

Entre um cigarro e dois dedos de conversa, Abrão Correia tenta ganhar coragem para começar a limpar a rede. Garante tem para umas duas ou três horas.

“Se aparecer alguém para dar uma ajudinha vai mais rápido”.

Num outro varal mais à frente vamos encontrar o casal Manuel Rocha e Augusta Rocha que já terminaram a limpeza da rede. Uma tarefa diária dura, principalmente quando está frio.

“Eu venho sempre ajudar o meu marido e em tempos cheguei a ir à pesca com ele e adorava. Hoje já não vou porque a saúde não me permite”.

Pintor da construção civil, Manuel Rocha pesca para ajudar nas despesas. A falta de trabalho na construção civil obriga a uma segunda atividade mas Manuel Rocha garante que vai porque também gosta de pescar e há 32 anos que se divide entre as duas profissões.

Para iniciar uma época de pesca no rio Augusta Rocha fala da necessidade de se investir no mínimo 500 euros.

“Entre licenças, papelada, vistorias e outras burocracias, é preciso contar sempre com um mínimo de 500 euros para se poder trabalhar, isto se não tiver que comprar material”, revela.

Há dois anos o casal teve que comprar um motor novo para o barco e redes novas, um investimento que rondou os cinco mil euros.

“É muito dinheiro e para recuperar o investimento é preciso trabalhar muito e fazer uma pescaria muito boa. O que nem sempre acontece”, garante.

Mas como dizem os mais velhos, “o rio quer teimosos” e se hoje não dá quem sabe amanhã…

A pensar nesta velha máxima, José Pita foi largar “uns lanços” na esperança de apanhar alguma lampreia distraída. À sorte foi madrasta e em vez de lampreias, a rede vem carregada de lixo. José Pita pede ajuda ao amigo “Sarapica” para estender a rede no varal.

“Agora vai ficar aqui a secar porque depois é mais fácil de limpar”.

Na barraca já está preparada uma segunda rede para sair por volta das 18.30, hora da nova maré. Uma rede lampreeiera custa em média de 500 euros e cada pescador tem que ter pelo menos duas redes.

“As águas são muito grandes, o rio não vaza em condições e o lixo anda aqui de um lado para o outro e carrega as redes”.

José Pita tem para umas 4 horas até conseguir remover todo o lixo da rede. Nada a que os pescadores já não estejam habituados.

“Por agora vai ficar aqui amanhã logo se vê”.

Sem lampreias na rede mas sem desanimar, José Pita vai fazer uma pequena pausa e por volta das seis da tarde vai voltar a tentar.
“Pode ser que tenha mais sorte”, profetiza.


Lampreia seca – uma sugestão do Talho de Lanhelas

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Na freguesia de Lanhelas, a norte do concelho, para além da pesca da lampreia há também quem se dedique à sua conservação. Habitualmente a lampreia é consumida fresca, mas também pode ser seca, uma outra forma de conservar este ciclóstomo. Fomos até ao Talho de Lanhelas, empresa que se dedica à seca da lampreia, e a única autorizada e certificada para o fazer. José Luís, proprietário daquele estabelecimento, explica que a lampreia seca começou a ser comercializada em 2013 e este ano vai continuar. O objetivo é implementar o produto no mercado e torná-lo mais conhecido.

“Decidimos continuar porque é sempre mais um produto que temos para apresentar aos nossos clientes, é uma mais valia. O produto ainda não é muito conhecido mas esperamos que com o tempo as pessoas comecem a conhecer e a consumir mais”.

Os maiores apreciadores da lampreia seca são, segundo José Luís, os clientes dos lados de Monção e Melgaço, “e já temos alguns dessa zona que nos vêm cá comprar”. Preparar uma lampreia para secar não tem nada que saber, segundo José Luís o procedimento é basicamente o mesmo.

“A lampreia é preparada exatamente da mesma maneira como se fosse para consumir fresca, a única diferença é que lhe retiramos as vísceras e depois ela é escalada. Depois é salgada durante umas 4 ou 5 horas e em seguida vai para o fumeiro. Quando começa a querer encaracolar, é sinal que está seca”.

Depois de seca a lampreia pode ser grelhada e comida temperada com azeite e alho, ou então recheada, uma receita que o Talho de Lanhelas não se importou de partilhar.

“A lampreia seca, antes de ser consumida, tem que ser demolhada no mínimo umas 5 horas. Nós temos uma maneira de a preparar que, apesar de ser um pouco cara, fica muito boa. Recheamos a lampreia com ovo cozido, presunto e bacon. Depois enrolamos até fazer uma bola, atamos e levamos a coser. Depois de cosida e arrefecida fatiamos e está pronta a ser consumida. É uma especialidade”, garante.

As lampreias secas comercializadas pelo Talho de Lanhelas são na sua maioria do rio Minho.

“Só quando não conseguimos arranjar é que compramos noutros locais, mas normalmente são daqui”.

Este ano as lampreias ainda não deram entrada no fumeiro do Talho de Lanhelas mas dentro de alguns dias isso deverá acontecer. Assim aconselhamos os apreciadores desta espécie a prová-la também seca porque, diz quem sabe, “é uma maneira diferente e muito boa de a consumir”.

“Lampreia… Valor no passado e no presente”, para ver no Aquamuseu do Rio Minho

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Como que a anunciar os fins de semana gastronómicos, que vão acontecer em fevereiro, o Aquamuseu do Rio Minho destaca, sob a forma de exposição, a lampreia, pela sua importância económica, gastronómica e cultural, a nível regional. Assim, desde este mês e durante a chamada época da lampreia, estará patente a exposição “Lampreia…valor no passado e no presente”, onde se fala da sua distribuição, morfologia e biologia e pesca ao longo dos tempos e períodos e artes de pesca, e histórias e ditos sobre a lampreia. A organização é da Câmara Municipal.

Os fins de semana gastronómicos, sob o lema “Lampreia do Rio Minho – Um Prato de Excelência” começam com o mês de Fevereiro. No solstício do Inverno, nas águas gélidas do Rio Minho, entra a lampreia, num percurso de correntes e obstáculos, que lhe vão enrijecer a carne e conferir o título de exclusividade. Degustar o sublime ciclóstomo, é um capricho do património gustativo. Um deleite é o divinal Arroz de Lampreia.

A organização é da Adriminho em colaboração com as autarquias do Vale do Minho e decorrerá nos restaurantes aderentes.

A coincidir com o arranque do evento gastronómico, o Aquamuseu inaugurará mais uma exposição: “A lampreia e a sua gastronomia”, que destacará as características biológicas e gastronómicas de uma das iguarias mais apreciados do rio Minho. Estará patenteaté ao dia 31 de março, numa organização da Câmara local.


Lampreia é um peixe?

 

lampreia e um peixe

A lampreia é um peixe pertencente ao grupo dos Agnatas, o que significa que não tem verdadeiras maxilas nem barbatanas pares. Tem a boca redonda, com numerosos dentes pequenos e uma ventosa. Em Portugal existem três espécies de lampreias: a marinha, a de rio e a de riacho.

A mais conhecida, muito apreciada na gastronomia, é a lampreia- marinha. É uma espécie migradora anádroma, o que significa que vive no mar mas, na altura da reprodução, durante a Primavera, sobe os rios para desovar. Inicialmente deixam completamente de se alimentar, chegando o seu estômago a atrofiar se. Abandonam então o mar e sobem os rios para desovar. Escavam, com o auxílio da sua ventosa bucal, um pequeno buraco numa zona pedregosa, onde depositam os ovos. As posturas são enormes, podendo pôr até duzentos mil ovos de forma esférica. As larvas nascem duas semanas depois, cegas e sem dentes, com um aspecto de verme, de tal forma diferentes dos adultos que foram classificadas como uma espécie diferente. Até atingir o estado adulto, os juvenis mantêm-se nos rios, enterrando-se na areia ou lodo e alimentando-se se por filtração, de microrganismos. Esta fase pode durar de 2 a 6 anos, até atingirem o estado adulto e iniciarem a sua migração para o mar.

Quando adultas, as lampreias começam por nutrir se de larvas de peixes e de invertebrados, passando mais tarde a viver à custa do sangue de outros peixes vivos. Com a ajuda da ventosa, fixam se pela boca a outros peixes, fazendo um buraco na sua pele para lhes sugar o sangue e comer a carne. O peixe assim parasitado é obrigado a transportá-la, até que ela mude para outro hospedeiro. A lampreia segrega um líquido que impede a coagulação do sangue do peixe parasitado, que morre muitas vezes devido à perda de sangue e infecção das feridas. Os seus hospedeiros preferidos são os tubarões, arenques e diferentes espécies de Gadídeos (badejo, faneca, bacalhau, etc.).

Muito apreciadas na gastronomia, já eram criadas pelos Romanos em lugares preparados para o efeito. No estado adulto o seu comprimento oscila entre 60 e 75 cm, embora possam chegar a medir 1 metro e pesar 1,5 Kg.

Em Portugal a lampreia é abundante mas as populações existentes encontram-se em regressão devido à pesca excessiva de que tem sido alvo, bem como à destruição dos locais de desova e crescimento e à captura ilegal. É por isso uma espécie ameaçada, com o estatuto internacional de conservação “Vulnerável”, o que significa que é uma espécie protegida, dependendo a sobrevivência da espécie do sucesso da implementação das medidas de protecção e conservação.

As medidas de conservação passam, entre outras, pela protecção rigorosa e manutenção das áreas de desova e crescimento, do aumento do período durante o qual a pesca é proibida, bem como pela intensificação da fiscalização da pesca.

Curiosidades:

As larvas presentes num determinado rio libertam substâncias que funcionam como feromonas, chamando dessa forma a atenção dos adultos para os bons locais de reprodução. Os machos são os primeiros a chegar às zonas de reprodução, onde libertam substâncias semelhantes para atrair as fêmeas. Após a reprodução os progenitores morrem (só se reproduzem uma vez na vida).

Fósseis vivos com 360 milhões de anos

As lampreias são consideradas fósseis vivos, pois representam o grupo vivo mais primitivo de vertebrados (grupo que se caracteriza pela presença de coluna vertebral segmentada e de crânio que lhes protege o cérebro). Especializaram-se como parasitas há cerca de 360 milhões de anos e mantiveram-se praticamente inalteradas desde então.

A ausência de mandíbula, a persistência de notocódio (corda dorsal) e a presença de um poro nasal único são características primitivase únicas à escala animal.

Ameaças que poderão levar à sua extinção

As lampreias são espécies com necessidades particulares de habitat. Atividades como a extração de inertes, a regularização do leito do rio e das margens, diminuem a área disponível para a reprodução e desenvolvimento da fase larvar.

Tem um ciclo de vida complexo, pelo que a interrupção da continuidade dos rios (construção de barragens, açudes, pequenas barreiras) torna muito difícil a mobilidade entre as zonas de crescimento (fase adulta) e as zonas de reprodução e desenvolvimento larvar. A poluição e a pesca excessiva, métodos de pesca ilegais são também fatores de ameaça.
Alguns dados relacionados com a pesca no rio Minho

Número de embarcações licenciadas no rio Minho (Portugal): 177

Comparativamente aos últimos 3 anos, não se verificou uma diminuição acentuada de pedidos de licenciamento, atendendo a que em 2013 foram licenciadas 205 embarcações.

Número de embarcações licenciadas no rio Minho (Espanha): Segundo a Comandância Naval do Minho, até ao dia 08/01//2014, estavam licenciadas 132 embarcações para a pesca de meixão.

Número de Pescadores inscritos: 250 marítimos

Relativamente ao ano anterior, em 31 de dezembro de 2013, existiam 342 marítimos matriculados.

Não existe qualquer número limite para a captura de lampreias por embarcação. Os limites apenas se aplicam no que respeita a meixão. Cada embarcação não poderá pescar mais que 3 kg por dia.

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