Entre o mármore da Ciência e da Tradição

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Corpo de Deus em Salzburgo

Um dos motivos pelos quais considero maravilhoso fazer parte do mundo da Medicina é, à semelhança, aliás, de inúmeras outras áreas, a necessidade de permanente atualização e a procura, muitas vezes ditada pela autoestima, de não ficar para trás. Se a isto se juntar uma necessidade pessoal de ler o que de mais interessante e recente surge em revistas ou artigos, estão reunidas as condições ideais — e, na área dos cuidados intensivos neonatais, isso é incontornável e fundamental.

É, no entanto, de inteira justiça dizer que o intensivismo (pediátrico e neonatal), a par da oncologia pediátrica, é uma das subespecialidades que mais analisa dados, estatísticas e resultados e, também por isso, aquela que mais frequentemente revê protocolos.

A questão essencial é saber o que se segue após a análise dos resultados. É bem verdade que há atualizações que, por vezes, mais parecem ditadas pela necessidade de cumprir datas programadas para revisão de documentos do que por uma efetiva desatualização dos mesmos.

Em 2022, aquando do 50.º Congresso de Neonatologia, em Matosinhos, ouvi uma colega, Neena Modi, neonatologista inglesa e professora de Neonatologia no Imperial College London dizer:

“A large amount of what we teach and learn is wrong; a large number of treatments are unproven. Lack of research is a patient safety issue.”

E, para o demonstrar, apresentou, a propósito da revisão de métodos e protocolos na história da Neonatologia, os seguintes exemplos:

1 — No passado, irradiávamos o timo dos recém-nascidos (aumenta em cinco vezes o risco de cancro).
Estávamos errados.


2 — No passado, colocávamos os bebés a dormir de barriga para baixo (aumenta o risco de morte súbita).
Estávamos errados.

3 — No passado, separávamos por rotina os bebés doentes das mães (diminuía o aleitamento materno).
Estávamos errados.

4 — No passado, utilizávamos oxigénio a 100% na reanimação (aumenta em três vezes a mortalidade em comparação com a utilização de ar).
Estávamos errados.

5 — No passado, utilizávamos corticoides, em qualquer idade gestacional (eventuais efeitos a nível cerebral)
Estávamos errados.

Nunca esqueci esta lição de humildade, que é onde começa, na minha opinião, a verdadeira inteligência. Para além disso, esta capacidade de autocrítica e de reconhecimento da necessidade de mudar é um dever da ciência e, neste caso, um direito do bebé.

Isto vem também a propósito do XX Congresso Europeu de Cuidados Intensivos Neonatais e Pediátricos, a que assisti em Salzburgo, em junho de 2019. Durante uma sessão de apresentação de casos clínicos, foi discutida uma situação muito grave de infeção numa criança que, por isso, se encontrava em coma induzido e ventilada, medicada com um extensíssimo arsenal terapêutico. Apesar disso, continuava a apresentar febre e instabilidade clínica após vários dias. A evolução foi demorada, mas o desfecho foi feliz, tanto para a criança como para o serviço em causa (ambos ingleses, creio).

A discussão do caso foi, no entanto, acesa, na medida em que um colega espanhol colocou em causa o uso de antipiréticos, com base num raciocínio que, para ele, era tão simples quanto lógico: “Se, apesar de toda a bateria de fármacos administrados para debelar a situação (antibióticos de largo espectro, anti-inflamatórios, antipiréticos, aminas, etc.), o organismo entendia que isso era insuficiente ou inadequado e acrescentava a hipertermia como forma de ajudar nessa luta, então tentar eliminá-la não seria inteligente.”

A contra-argumentação da mesa e da apresentadora do caso foi a de que, numa situação tão grave, a hipertermia contribuiria para uma maior instabilidade clínica, sempre indesejável. Tal não demoveu o bem preparado, mas irredutível colega espanhol, ficando no ar uma evidente discordância e, mais do que isso, a sua sugestão de observação e eventual revisão do protocolo tradicional nesse ponto.

Por vezes, alterar o que sempre pareceu certo e óbvio pode não depender de dados, estatísticas ou resultados. Pode depender da humildade de reconhecer que estávamos errados — nem que seja uma única voz a dizê-lo.

Nessa mesma altura, celebrava-se o Corpo de Deus em Salzburgo, cuja procissão, tão bela quanto majestosa, partia da Catedral e envolvia todas as confrarias da cidade, vestidas a rigor. Com o absoluto empenho e rigor cerimonial de todos — desde crianças a jovens e adultos — honra-se uma tradição que perdura há séculos, sem que alguém pense sequer em mudar o “protocolo”.

Foi uma experiência maravilhosa em família, só superada pela fantástica audição de música de câmara do Quarteto para piano em Lá menor de Mahler, no Salão de Mármore do Palácio Mirabell, em Salzburgo — um dos mais belos do mundo, o mesmo onde Mozart tocou para o arcebispo da cidade.

E o que têm estes dois últimos temas em comum com a atualização da ciência, da medicina e da neonatologia? Tudo.

Na mesma cidade e quase no mesmo dia, ciência, arte e tradição revelam exigências simultaneamente idênticas e opostas. Se, por um lado, analisar para progredir e melhorar é essencial na ciência — tal como na música, onde grandes compositores quebraram regras outrora consideradas intocáveis —, por outro, preservar e manter a excelência de métodos consolidados pelo tempo pode ser vital.

A criança gravemente doente sobreviveu, com os protocolos estabelecidos. A procissão do Corpo de Deus cumpre-se bela e inalterada há 400 anos. O maravilhoso Salão de Mármore, onde Mozart e a aristocracia se reuniam, continua a proporcionar momentos inesquecíveis a quem o visita.

Nem sempre, mas citando o Príncipe Salina no Leopardo: “Por vezes é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma”. Mas o “mármore” perdurará.

Acrescentaria apenas que, ao analisarmos o passado, não raras vezes a experiência que dele retiramos precisa apenas de interrogações ou de ligeiras afinações. Por isso, hoje, nesta conclusão, consigo ouvir e compreender melhor o colega espanhol. Quantos anos demoraremos nós, Ciência, a voltar a reconhecer: “Estávamos errados!”?

Arnaldo Botao Rego
Arnaldo Botao Rego
Neonatologista

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