
Um euro, é o preço simbólico para poder voltar a visitar a Torre do Relógio de Caminha, um monumento nacional de inquestionável valor identitário e histórico para caminhenses e visitantes, que reabriu portas recentemente, depois de ter estado fechada desde a pandemia Covid-19, em 2020.
A mais célebre porta de Caminha só voltou a ser visitável há bem pouco tempo, por ordem do novo executivo da Câmara Municipal, empossado no final do ano passado. As condições para essa visita, especialmente em dias de chuva, não são as melhores. Na verdade, chove dentro de um dos monumentos mais importantes da vila raiana de Caminha. “Podem ir, mas cuidado que deve ter água”, disse a funcionária de serviço da Loja Interativa de Turismo de Caminha, aquando da nossa visita à Torre na passada sexta feira, 23 de Janeiro, em plena passagem da depressão Ingrid.


A água era visível logo à entrada do monumento e no chão de madeira. O som das gotas a cair era constante. Veja o vídeo abaixo.
A subida tem de ser feita com cautela, degrau a degrau, pois há poças de água na escadaria um pouco por todos os andares.



A Torre do Relógio, apesar de estar ligada ao antigo edifício da Câmara Municipal, requalificado em 2024 numa obra considerada pelo anterior presidente da Câmara como “a mais emblemática do mandato naquele ano”, nem assim mereceu manutenção e limpeza, permanecendo fechada e em progressiva deterioração exterior e interior.
A Porta Medieval é o espelho vertical da sujidade e abandono a que estão votados praticamente todos os monumentos nacionais do Centro Histórico de Caminha e das suas zonas envolventes, exclusão a que também não escapou a fortaleza da Ínsua, outro monumento nacional que está alugado por pouco mais de 80 euros por mês e na mais profunda destruição.

Antes de subir ao topo da torre para desfrutar das vistas panorâmicas da vila, do rio Minho, arredores e da vizinha Galiza, é possível ver a máquina do relógio que funcionou mais de 100 anos, e os efeitos da humidade no monumento.


Chegados ao topo, a paisagem é extasiante. Impossível resistir a tirar fotografias, mesmo num dia escuro e de temporal.








A reabertura da Torre do Relógio é um sinal positivo, mas insuficiente. Um monumento nacional, símbolo identitário de Caminha e peça central da sua história, não pode limitar-se a estar “aberto” enquanto apresenta infiltrações, água acumulada e riscos evidentes para quem o visita. Cobrar um euro para subir não é o problema. O problema é cobrar entrada para um espaço que revela sinais claros de abandono prolongado e falta de manutenção.
Depois de seis anos encerrada, a Torre merecia regressar com dignidade, segurança e respeito pelo seu valor histórico. Não devia ser preciso subir degrau a degrau, entre poças e infiltrações, para perceber que o tempo passou… e passou tão mal. A condição de ex-libris e a sua classificação como monumento nacional só por si deveriam ser carta branca para a sua preservação, o que não tem acontecido.
Torre do Relógio – A Porta de Viana

A Porta de Viana, como era originalmente chamada, foi construída como torre defensiva da muralha medieval no Século XII. Em 1610 foi fundido o sino e colocado na torre. Após a Guerra da Restauração é colocada a imagem de Nossa Senhora da Conceição por D. João IV. Em 1673 é instalado o relógio público e passa a chamar-se Torre do Relógio. É a única existente das três portas de entrada na vila do Castelo de Caminha.
Em 1951 é classificada como Monumento Nacional e em 2008 é requalificada, pelo executivo liderado por Júlia Paula Costa. Foi feito um restauro estrutural da torre, criou-se um núcleo museológico no interior – com conteúdos sobre a história da vila e das muralhas – uma nova escadaria interna e a abertura de um acesso público através de um túnel na muralha, que ligaria ao “novo” posto de turismo, transformado em Loja Interativa de Turismo em 2015 e inaugurada pelo então Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional, Miguel Poiares Maduro.
Fraca divulgação online, pouca informação na Loja de Turismo e demasiado esquecida para um Monumento Nacional
Na Loja Interativa de Turismo apenas existe uma brochura exclusivamente acerca de Caminha, que contém uma foto da Torre do Relógio na capa. O monumento surge depois nas últimas páginas, num mapa minúsculo, cuja legenda é praticamente ilegível.


Numa outra brochura, esta dedicada a todo o Minho, não há uma única menção à Torre do Relógio, nem esta surge em qualquer mapa, inclusive no “Património Cultural”.



Numa pequena pesquisa sobre o monumento na Internet, é possível que chegue ao portal VisitPortugal, onde não encontra uma única foto da Torre do Relógio, apenas descrita em duas frases, como pode ver-se na imagem abaixo.

Na página do Turismo do Porto e Norte de Portugal, encontramos uma foto ‘pixelizada’ e quatro que já não existem.

A única página de internet onde se encontra alguma informação acerca da Torre do Relógio é a VisitCaminha, com uma foto e dois parágrafos, mas onde pode encontrar-se a seguinte pérola:

A Torre do Relógio continua assim a ser mal promovida e sem o cuidado que um monumento, dos mais importantes do Alto Minho, merece. Apesar de acompanhar Caminha desde o século XII, e de ter sido fundamental na sua defesa, hoje é apenas testemunha dos mais variados eventos que acontecem à sua volta, esses sim apoiados pela autarquia com largos milhares de euros, sem que o investimento na sua preservação seja uma prioridade.




