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Num território onde a fronteira se dilui no quotidiano e a ponte é mais ligação do que separação, a Eurocidade Cerveira-Tomiño afirma-se como um dos principais motores de cooperação transfronteiriça no Alto Minho. Em entrevista ao Jornal C – O Caminhense, o socialista Rui Teixeira, Presidente da Câmara de Vila Nova de Cerveira, analisa o impacto desta parceria no desenvolvimento económico, social e cultural do concelho, destacando os ganhos já alcançados, mas também os desafios que persistem na mobilidade, na captação de fundos e na eliminação de barreiras administrativas entre Portugal e Espanha.

Jornal C O Caminhense (JC) – Rui Teixeira, como avalia, atualmente, o papel da Eurocidade Cerveira-Tomiño no desenvolvimento estratégico do concelho?
Rui Teixeira (RT) – Na minha opinião, a Eurocidade acaba por ser um reconhecimento e uma forma natural de formalizar aquilo que é o dia a dia nos dois territórios, Vila Nova de Cerveira e Tomiño, que vivem diariamente em conjunto. Temos uma ponte internacional, e essa travessia foi, para mim, no fundo, o princípio da formalização da própria Eurocidade. Na verdade, a ponte acabou por facilitar esta convivência e esta sinergia comum entre um lado e o outro. A criação da Eurocidade veio formalizar essa realidade e, ao mesmo tempo, reconhecer algumas vivências já existentes, proporcionando a ambos os lados a possibilidade de utilizarem infraestruturas de um lado e do outro, de forma natural. Permitiu ainda a elaboração de projetos comuns que, no fundo, sustentam e sensibilizam as pessoas para esse sentimento partilhado de pertencermos a um território único, e não apenas a um somatório de dois concelhos.
JC – De que forma é que esta cooperação transfronteiriça contribuiu para afirmar Vila Nova de Cerveira no contexto regional e europeu?
RT – No caso, de facto, serviu, porque a Eurocidade Cerveira-Tomiño é, efetivamente, um exemplo do bom funcionamento de uma Eurocidade. Desde a primeira hora, conseguiu gerar uma sinergia bastante positiva e um forte sentimento comum entre os territórios. Aliás, foi o próprio concelho de Tomiño que realizou um inquérito no qual cerca de 90% da população considerou a Eurocidade um fator positivo. Ou seja, existe claramente um sentimento nas pessoas de que este é um território comum e de que a união entre ambos é benéfica. Naturalmente, isto também acabou por proporcionar o desenvolvimento de projetos comuns em várias vertentes.
JC – Que tipo de projetos?
RT – Desde logo na vertente cultural, que foi a primeira a ser trabalhada, mas também na utilização comum de infraestruturas e noutros projetos que temos vindo a desenvolver. No ano passado conseguimos, por exemplo, a aprovação de um projeto para a agenda da Eurocidade no valor de 900 mil euros. O sucesso da Eurocidade Cerveira-Tomiño acaba por constituir um exemplo de boa governação para outras localidades, tendo isso mesmo sido discutido em Bruxelas. Naturalmente, isto é muito positivo e representa uma boa promoção do nosso território, bem como do território de Tomiño.

JC – Falava há pouco do reconhecimento por parte da população de Tomiño da importância da Eurocidade. E em Cerveira, também se nota esse sentimento?
RT – Nunca realizámos esse inquérito, mas a verdade é que, a determinado momento, a população de Cerveira percebeu a enorme importância dos espanhóis no território. Esse momento aconteceu durante a pandemia, quando os cerveirenses perceberam que a economia local não funcionava da mesma forma. De facto, a economia do concelho depende bastante da relação com os espanhóis, e não estamos a falar apenas da feira ao sábado, mas sim do quotidiano. Só para se ter uma ideia dessa importância, entre 70% e 80% das empresas instaladas nos polos industriais de Cerveira são empresas espanholas. Portanto, tanto o capital espanhol como a convivência com os espanhóis são fulcrais para a nossa economia. Sem eles, muita coisa não aconteceria e não teríamos o crescimento que temos. Respondendo à sua pergunta e tendo em conta o que referi, penso que a maioria dos cerveirenses acaba por reconhecer essa importância, até porque um dos maiores chavões do turismo atualmente é o Caminho de Santiago, que é espanhol.
JC – Desde que assumiu as funções de presidente da Câmara, que prioridade estratégica tem atribuído à Eurocidade? É uma prioridade?
RT – Sem dúvida que estamos perante um vetor importante naquilo que é a nossa atividade. No entanto, não, obviamente, a prioridade, porque a prioridade de crescimento que definimos desde o início foi, efetivamente, a cultura, até porque Vila Nova de Cerveira é reconhecida precisamente como a Vila das Artes e da Cultura. O diagnóstico inicial que fizemos quando chegámos à Câmara foi, precisamente, o de criar condições de crescimento na habitação, na indústria e no turismo, de forma a atrair mais investimento e proporcionar oportunidades para os nossos jovens se fixarem em Vila Nova de Cerveira. E a verdade é que isso já está a dar frutos, uma vez que na próxima semana vai arrancar a construção de um novo hotel e, em Julho, vamos inaugurar o nosso albergue municipal. É, de facto, também importante termos mais camas, porque isso vai contribuir para a nossa economia local. Portanto, criar condições no turismo foi, desde logo, um vetor que considerámos muito importante. Em paralelo, apostámos também na melhoria e valorização do nosso património, dos eventos culturais e da própria Bienal, ou seja, apostámos na nossa atratividade. No fundo, trata-se de criar condições para as pessoas ficarem e gastarem aqui o seu dinheiro. Este é um dos vetores da área do turismo e da cultura. Criámos o Palco das Artes para garantir atividade cultural durante todo o ano e não apenas na época das férias de verão, e conseguimos ter cinema ao longo de todo o ano. A propósito, na última sessão tivemos mais de 300 pessoas a assistir, incluindo espanhóis que também já vêm ao cinema a Cerveira, o que é de realçar. Mas esta dinâmica só é possível com novos projetos e com capacidade de fomentar e atrair investimento privado na economia, algo em que estamos a apostar e a trabalhar.
JC – E está a resultar?
RT – Sim está, e prova disso é que fomos o único concelho que cresceu entre 2021 e 2025. Em termos de população, crescemos de 8.900 para 9.500 residentes, o que é, de facto, significativo. Curiosamente, Vila Nova de Cerveira tem vindo também a crescer em termos empresariais: temos novas empresas e, das que já existiam, nenhuma fechou, pelo menos até ao momento. Apostámos igualmente na criação de um centro de inovação, para trabalhar a inovação em articulação com as empresas. Temos empresas localizadas também no centro de Cerveira, precisamente para criar esta dinâmica local e aumentar a atividade no centro. No fundo, está a ser criado um ecossistema global que se apoia na educação, na iniciativa dos jovens e na criação de oportunidades. Entretanto, iniciámos um protocolo com as empresas e com o centro de inovação, para que os nossos jovens possam perceber a oferta em termos de mercado, conhecer as oportunidades existentes e, assim, escolher melhor as suas áreas de estudo nas universidades. Para os jovens que não querem seguir o ensino superior e preferem ingressar diretamente no mercado de trabalho, também temos vindo a conversar com os empresários sobre a possibilidade de, em conjunto, proporcionarmos formação específica em diversas áreas. Em suma, estamos a trabalhar em várias vertentes e a criar condições não só para quem nos visita, mas também para os residentes em Vila Nova de Cerveira. Queremos que as pessoas gostem e tenham condições para viver em Cerveira.

JC – Isso também passa por ser uma forma de atrair os jovens para Vila Nova de Cerveira.
RT – Claro, e essa foi desde o início a nossa prioridade: criar as condições para que os jovens se sintam bem e tenham oportunidades para permanecer em Vila Nova de Cerveira, se assim o desejarem. Pode parecer um chavão, mas não é algo fácil de alcançar; ainda assim, penso que estamos a conseguir, o que me deixa bastante satisfeito. Os jovens com quem vou falando dizem-me que, atualmente, se sentem mais valorizados, e isso é, de facto, muito positivo. No fundo, o caminho está a ser bem traçado e acredito que Cerveira está a crescer, com dinâmica e com reconhecimento, inclusive pelo próprio desempenho do município em termos económicos e financeiros.
JC – Esta cooperação transfronteiriça tem sido eficaz na captação, por exemplo, de fundos comunitários?
RT – Na minha opinião, a captação de fundos comunitários através a Eurocidade é muito limitada. Aliás, essa é até uma crítica frequente das autarquias da fronteira, nomeadamente das que fazem parte do AECT, e que está constantemente em debate. Existe, por exemplo, o INTERREG, que supostamente é um programa para financiar territórios transfronteiriços, mas que depois acaba por tornar elegíveis também projetos de qualquer território dentro de cada país, seja em Portugal ou em Espanha. Assim, muitos fundos acabam por ser desviados da fronteira, e não é fácil obter financiamento através de programas verdadeiramente transfronteiriços, ou seja, direcionados especificamente para a fronteira, como o INTERREG ou o POCTEP. O projeto que realizámos recentemente com Tomiño é, de facto, direcionado e tem essa componente transfronteiriça, mas não tem sido propriamente fácil obter financiamentos para a região de fronteira. Aliás, o AECT já viu chumbado um projeto de grande dimensão para toda a região fronteiriça e, curiosamente, foi aprovado um projeto em Guimarães. E, portanto, isso diz bem da forma como, na distribuição dos fundos, nem sempre é dada a devida importância à fronteira. É curioso.
JC – Vamos agora falar sobre a mobilidade e aqueles que são os serviços partilhados entre os municípios das duas margens. Que avanços foram alcançados ao nível da mobilidade entre os dois territórios, nomeadamente em termos de acessibilidade e transporte, e que importância tem a Ponte da Amizade nesse desenvolvimento?
RT – Como já tive oportunidade de referir no início da entrevista, a ponte foi, de facto, o fator essencial para o crescimento de Vila Nova de Cerveira, e penso que em Tomiño a perceção deverá ser idêntica. No caso de Vila Nova de Cerveira, a ponte foi um fator crucial para o desenvolvimento do concelho, inclusive no que diz respeito à própria feira, que com a ponte adquiriu uma dimensão que dificilmente teria sem ela. Para além disso, no dia a dia, há espanhóis e portugueses que atravessam diariamente de um lado para o outro, o que demonstra que a ponte é, de facto, o elemento que acabou por ligar os dois territórios. O que continua a faltar em termos de mobilidade é, sem dúvida, a questão da ferrovia, que permanece por resolver e que continuamos a abordar em diversos fóruns. Temos aqui o caminho de ferro e uma estação, e os espanhóis poderiam apanhar o comboio para se deslocarem para Vigo ou para o Porto. No entanto, como a frequência de comboios não é elevada, acaba por não ser uma opção viável, o que é uma pena.

JC – Relativamente àqueles que são os serviços públicos partilhados, nomeadamente a saúde, a educação, a cultura, existe essa cooperação entre Vila Nova de Cerveira e Tomiño?
RT – A cooperação existe, mas aquilo que mais se verifica em termos de utilização e de maior ligação é, sem dúvida, a cultura. Existem alguns projetos que acabam por ser comuns e que são apoiados de parte a parte, como é o caso de eventos de escultura ou pintura, bem como iniciativas na área da música, no âmbito da Bienal de Cerveira, que vai ser inaugurada a 18 de julho, entre outros. Em termos de infraestruturas, também existe alguma utilização conjunta, quer através dos nossos espaços públicos, como o Parque do Castelinho ou a piscina municipal, havendo uma utilização efetiva do território de forma partilhada. Na área da educação, essa ligação não é tão simples, uma vez que existem diferenças entre os dois países. Ainda assim, há alunos galegos que frequentam escolas em Vila Nova de Cerveira, muitas vezes com o objetivo de aprender português. Normalmente, isso acontece por serem filhos de empresários estabelecidos em Cerveira ou de trabalhadores espanhóis a atuar no concelho. Na saúde, a ligação é praticamente inexistente, à exceção do facto de termos alguns médicos espanhóis a trabalhar aqui. Há alguns anos foi realizado um estudo sobre a possibilidade de utilização conjunta dos serviços de saúde, através da criação de um cartão europeu de saúde, mas esse modelo só funciona em contexto de turismo ou férias. Este é um debate com vários anos, possivelmente mais de vinte, mas a verdade é que nunca foi possível articular plenamente a utilização dos serviços de um lado e do outro. Existem também barreiras administrativas que dificultam essa articulação, nomeadamente questões como o pagamento e a definição de prioridades. Não é, de facto, um processo simples.
JC – Portanto, um dos desafios futuros será tentar eliminar algumas dessas barreiras administrativas entre Portugal e Espanha para tornar essa partilha mais eficaz e viável.
RT – Sim, claro. Existe um projeto, o B-Solutions, que serve precisamente para combater esses entraves administrativos e legais, mas o único caso que foi submetido foi há cinco anos e ainda não está resolvido. E estamos a falar de algo tão simples como a possibilidade de um menor se deslocar de um lado para o outro numa visita escolar. Neste momento, isso não é possível sem uma série de procedimentos burocráticos. É um assunto que está a ser debatido e já se conseguiu algum avanço do lado espanhol, mas a verdade é que, neste momento, atravessar a ponte para quem é menor, mesmo acompanhado pelos professores, continua a ser um problema.
JC – E relativamente aos trabalhadores?
RT – Isso é diferente. Temos muitos espanhóis a trabalhar aqui porque também temos muitas empresas espanholas a laborar nas nossas áreas empresariais. Cerca de 30% dos trabalhadores são espanhóis que vêm diariamente de Vigo, Porriño e outras localidades.

JC – Mas também existem trabalhadores portugueses que optam por morar do outro lado do rio.
RT – Sim, mas isso tem a ver com questões fiscais que são mais vantajosas do lado de lá. Para se ter uma ideia, em Espanha, até cerca de 60 mil euros não se paga IRS e, por isso, muitas pessoas optam por residir do outro lado para usufruírem dessa vantagem fiscal, que pode significar entre 12 a 15 mil euros por ano. Estamos a falar de um valor que pode, por exemplo, dar para comprar uma casa. É pena que não exista um pensamento mais global e estruturado sobre esta realidade, porque o que acontece, na prática, é que estamos a empurrar as pessoas para Espanha.
JC – Considera que existe já um verdadeiro sentimento de comunidade transfronteiriça aqui nesta
zona?
RT – Eu penso que sim, que existe um sentimento bastante relevante em relação à Eurocidade e a perceção de que todos vivemos no mesmo território. No entanto, apesar de todos se sentirem parte da Eurocidade, Espanha é Espanha e Portugal é Portugal, e isso faz parte do bairrismo natural de cada território. Ainda assim, é verdade que as pessoas gostam de pertencer à Eurocidade e sentem que isso representa uma mais-valia, de certa forma semelhante ao sentimento de pertença à União Europeia (UE). Muitas vezes, as pessoas esquecem-se do contributo que a União Europeia teve para o desenvolvimento dos territórios e do significado de todo o financiamento associado. Provavelmente só se dará o devido valor quando isso já não existir. De facto, a União Europeia teve um papel muito importante em tudo o que são infraestruturas, bem como em projetos nas áreas social e cultural, entre outras. Esse é um sentimento que, provavelmente, as pessoas percebem, mas nem sempre valorizam na devida medida. Na Eurocidade acaba por acontecer algo semelhante: as pessoas percebem que existe uma economia em conjunto e que é melhor do que estar isolado, mas, no final, cada um acaba sempre por defender o seu lado, o que também faz parte da realidade.
JC – Mas esse sentimento de comunidade não é recente, se calhar, sempre existiu, não concorda?
RT – Sim, é verdade, e a ponte acabou por cimentar essa ligação que sempre existiu e que é histórica. Repare: a nossa juventude foi muito direcionada para Espanha. Quando éramos jovens, víamos televisão espanhola, não é? Quem cresce neste território sabe que, efetivamente, para nós, Espanha faz parte da nossa convivência diária. Já quem cresce noutros territórios, mesmo relativamente próximos como Viana do Castelo, não tem essa perceção. Nem mesmo os governos têm, muitas vezes, a perceção da pujança das zonas de fronteira e da importância dos financiamentos dirigidos a estas regiões. Deviam apostar mais, até porque existe, de facto, uma forma de estar diferente em quem vive em zona de fronteira. Não é algo fácil de compreender para quem não vive essa realidade.
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