A miserável glória do esquecimento!

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Discurso proferido na XXVVII Reunião do Serviço de Pediatria da Unidade Local de Saúde do Alto Minho em Viana do Castelo, 28 de Novembro de 2025

Caros colegas, Srs. Enfermeiros e enfermeiras, Sras. e Srs. Convidados; Bom dia a todos

Quando abordei como possível para estas Jornadas o tema da migração e seus efeitos na nossa atividade hospitalar, nomeadamente na Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais, com o Diretor de Serviço de Pediatria Dr. Hugo Rodrigues e a Organização, nas pessoas da Dra. Emília Monteiro e Dra. Daniela Moreira, não sabia que o transformariam numa mesa redonda e muito menos me convidariam para a moderar. Sou por isso grato a todos.

Há cerca de 3 semanas estive como membro de Júri em Lisboa, no Hospital de Santa Maria, durante 3 dias a fazer exame a 14 colegas da Especialidade de Pediatria para Consultor e pude aí conversar, perceber e constatar como a Inteligência Artificial (IA), se bem orientada é uma ferramenta absolutamente apaixonante e útil na nossa profissão. Seja na escolha de imagens, na seleção e pesquisa de bibliografia, no tratamento de dados de trabalhos estatísticos, na orientação e organização estética dos Currículos ou no aperfeiçoamento de textos, reflexões e considerações finais. Mas, o que era sentimento era pessoal, interior.

E aí estava o essencial: o que sentimos é só nosso e nenhuma máquina em qualquer era cibernética o poderá expressar por nós. O que vou deixar em mensagem a seguir podia muito bem ter a participação da IA, sem qualquer problema. Mas não tem. É fruto da experiência profissional e de cidadão que vive num país livre e democrático.

E a mensagem que então vos queria deixar é simples. Congratulo-me com um Serviço, uma classe e uns colegas que agem, não moral nem ideologicamente perante os desafios sociais, políticos e geracionais como o que abordamos nesta mesa, mas que, optando antes pela ética e pelo dever profissional, se debruça sobre eles e não perdendo a memória do que representamos e somos, homens e mulheres de ciência e humanismo, se atualiza e adapta, para fazer o melhor possível do ponto de vista médico-científico. É essa a nossa missão.

Há pouco mais de 100 anos, 3 irmãos (meu Avô e dois tios avós com vinte e poucos anos) procuraram os Estados Unidos da América (EUA) para melhorar a sua vida. Foram esforçados no seu trabalho, competentes e inteligentes, já que de simples trabalhadores numa empresa de produtos químicos, fizeram formação, estudaram inglês e foram sendo promovidos e convidados para sócios da mesma. Realizaram as suas economias e foram-se adaptando à vida do país que os recebera. Mas tudo isto em mais de duas décadas. Um deles, meu Avô, por problemas de saúde teve de regressar mais cedo, tendo sido o único de 7 irmãos que casou.

Os outros dois decidiram ainda viajar, e já na Argentina, onde também estiveram, aproveitaram o conhecimento adquirido, e com investimentos bem-sucedidos reforçaram as suas poupanças. O mais aventureiro e mais novo, viajou pelo mundo, principalmente por África, pela qual tinha uma imensa paixão.

Regressaram e permitiram com o fruto da sua seriedade, inteligência, mas essencialmente trabalho, melhorar a vida de toda a família, inclusivamente a minha, duas gerações depois, porque em herança para as únicas sobrinhas, ficou ainda muito do necessário para me educar.

Há cerca de 1 ano, eu saía deste hospital bem ao fim da tarde, quase noite, pelo portão verde junto da Igreja das Ursulinas. Chovia e ventava imenso, e apesar de protegido pelo guarda-chuva ia irritado com tão mau tempo que mesmo assim me atingia, quando, ao atravessar a rua perpendicular, de subida longa e difícil, na minha frente surge, numa figura que me ficou gravada em memória, um jovem adulto asiático, de bicicleta, não elétrica, talvez nos seus 20 e poucos anos, num esforço tão grande como o saco que trazia às costas, tentando lentamente vencer a subida, a chuva, o vento, o frio e o peso do mundo que carregava. E tão corajoso como surgiu, assim foi desaparecendo subida acima.

Já no meu carro fiquei em silêncio, a pensar naquela imagem da realidade brutal, quase de câmara-lenta, de alguém num tal sacrifício a cumprir a tarefa imediata de entregar a refeição a alguém, mas seguramente numa outra missão bem mais difícil, melhorar, afinal, a sua vida e dos seus.

Perdoem-me todos os que possam discordar, mas, apesar de todas as muitas e rápidas mudanças no Mundo, não há, 100 anos depois, diferença alguma entre o sonho e a missão dos meus familiares e as deste ser humano.

Apenas duas dúvidas: não sei se alguma vez o nosso país lhe conseguirá dar o que os EUA deram aos meus. Mas também não sei se os EUA de hoje dariam aos meus, o que deram então. Sei isso sim, que não quero perder a memória do que fomos como povo.

Não esqueço as questões legais, mas não quero concordar com a postura de alguma parte do meu país, que do alto do seu novo riquismo, esquecendo-se da pobreza que em muitos dos seus cantos ainda encerra, julga todos os que vêm como marginais e, tomando o todo pela parte, se acha no direito de não receber quem mais precisa e quer apenas trabalhar e melhorar a vida dos seus.

Não quero perder a memória do que fomos e somos, como vos dizia, homens e mulheres de ciência e humanismo. E explico porquê.

Há cerca de 80 anos, não é assim tanto tempo, em pleno conflito mundial, Médicos, Físicos, Cientistas, Antropólogos, Historiadores, representavam a elite científica e cultural da Alemanha, numa associação chamada Ahnenerbe, e que, aderindo ao partido vigente no país, esqueceram a missão para a qual tinham excelente e diferenciada formação, perderam a memória e a honestidade intelectual de que eram portadores antes, e praticaram atrocidades inenarráveis ditas experimentais e de investigação científica contra seus semelhantes, crianças e adultos prisioneiros.

E isto porque, mentindo, transformaram a teoria do mito de superioridade racial, em ideologia “cientificamente provada”, ajudando assim a que os ditadores que conhecemos justificassem a chamada solução final. Nenhum era oficial, soldado, nem político sequer, de profissão. Eram repito, Antropólogos, Investigadores, Historiadores, Físicos e Médicos de mérito reconhecido e quando nos chamados julgamentos de Nuremberga após o fim do conflito lhes perguntaram um a um, o porquê de tal horror, porque o fizeram afinal, quase todos responderam:

Não fora por medo. Mas também não fora por projeção social, por dinheiro, por reconhecimento intelectual. Tudo isso já tinham antes. A resposta foi unânime: Por Poder! O poder, de facto, muitas vezes, transtorna e desequilibra o ser humano, e a falta de memória, sabemos, é o primeiro passo.

Nós, todos nós nesta sala, fundamo-nos na medicina da evidência, no rigor da ciência e no humanismo, e isso deverá ser-nos absolutamente suficiente. Sempre.

Muito obrigado

P.S. A todos os leitores do Caminhense desejo um Santo Natal e Feliz Ano 2026

Arnaldo Botao Rego
Arnaldo Botao Rego
Neonatologista

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