Exposição coletiva reúne 46 artistas convidados, oriundos de 16 países. Mostra recebe sete obras inéditas e pode ser vista até 30 de dezembro
É sob o mote “Territórios Sem Fronteira” que a Bienal Internacional de Arte de Cerveira abre as portas, já a partir do dia 18 de julho, a uma programação que se estende até ao final de dezembro. Entre as propostas centrais da iniciativa, destaca-se “¿De qué casa eres?”, uma exposição coletiva que, a partir das obras de 46 artistas de 16 países, desafia os visitantes a refletir sobre as dinâmicas de deslocação, migração e interculturalidade que marcam o presente. Inspirada na obra homónima da artista Ana Pérez-Quiroga, a exposição recebe obras inéditas de Alisa Heil, André Sousa, Carlos Noronha Feio, João Penalva, RIGO 23, Vhils e Yonamine.

Refletir sobre o que é “Casa” num tempo “sem fronteiras”
“A pergunta que dá título a esta exposição não procura uma resposta definitiva nem um lugar fixo no mapa. É, na realidade, uma interpelação íntima, política e sensível que atravessa questões de identidade, pertença, memória e deslocação”, explica Mafalda Santos, curadora desta exposição juntamente com Manuel Santos Maia. A também diretora artística da BIAC refere ainda que “no contexto atual, perguntar a alguém de que casa é sugere uma profunda reflexão sobre o significado de pertencer. “A casa deixa de ser apenas uma arquitetura de paredes firmes, para se transformar num território móvel: passa a ser uma geografia sentimental, uma língua na bagagem ou um arquivo que carregamos ao longo do tempo”.
Alinhando-se com o tema da BIAC, e partindo da proposta da obra de Ana Pérez-Quiroga – que reflete sobre o significado de pertencer a um lugar num tempo marcado pela volatilidade das fronteiras –, a exposição reúne artistas de nacionalidade portuguesa que vivem fora do país, criadores com dupla nacionalidade e autores estrangeiros da Europa, África, Américas, Ásia e Médio Oriente que escolheram Portugal como centro de criação. O dispositivo expositivo convida também ao “livre trânsito”, permitindo que os visitantes circulem e experimentem o espaço, tanto a partir da perspetiva do mezanino como através do contacto com as peças.

Exposição integra obras inéditas, desenvolvidas no contexto da BIAC
Entre as obras de Eugénia Mussa (Moçambique/Portugal), Keong-A Song (Coreia do Sul), Rebecca Moradalizadeh (Portugal/Irão) ou Susanne S.D Themlitz (Alemanha/Portugal), a exposição recebe também sete propostas desenvolvidas especificamente para o contexto da Bienal.
Alexandre Farto, também conhecido como Vhils apresenta Nexus (2026), uma instalação site-specific inédita, concebida especificamente para a XXIV Bienal Internacional de Arte de Cerveira e para o tema “Territórios sem Fronteira”, onde rasga a superfície da parede para revelar a matéria do edifício.. No interior da rutura, um jogo de reflexos posiciona o corpo numa presença em trânsito. Por sua vez, André Sousa apresenta a instalação Divisão (2026), desenvolvida a partir do abandono forçado do seu atelier em Frankfurt. O artista replica a planta volumétrica do local num cubo têxtil suspenso do teto, sem contacto com o chão, convidando o visitante a entrar numa estrutura de recolhimento.
Alisa Heil apresenta Love, uma instalação concebida como uma cortina de elementos suspensos — missangas cristalinas, cristais e outros materiais portadores de diferentes significados simbólicos. Em diálogo com a arquitetura, a obra transforma-se através da incidência da luz, explorando a transparência, a reflexão e a cor. Já Carlos Noronha Feio apresenta duas obras, uma delas concebida especificamente para a Bienal. Em (de braços abertos!), uma instalação site-specific em inox, o artista prossegue a sua investigação em torno da escrita no espaço, utilizando o texto enquanto matéria escultórica para estabelecer um diálogo com a arquitetura e a paisagem.
Yonamine nasceu em Angola, cresceu entre o Zaire, o Brasil e o Reino Unido e vive atualmente em Braga. A sua prática artística constrói-se pela sobreposição de referências culturais, identitárias, religiosas e políticas, articulando objetos, imagens e materiais provenientes de diferentes contextos. Na BIAC apresenta Foi o preto, uma instalação assente numa vasta superfície gráfica que cobre o chão, sobre a qual organiza uma constelação de objetos encontrados em Vila Nova de Cerveira. Recontextualizados, estes elementos estabelecem novas relações entre memória, território e experiência coletiva.
João Penalva, artista distinguido pelo Grande Prémio Fundação EDP Arte 2026, apresenta a ação performativa linha (2026), onde um traço de giz no chão é vigiado e reconstituído por performers sempre que alguém o pisa, operando como metáfora para as fronteiras que estruturam o mundo.
A XXIV BIAC integra ainda A traição da Europa, mural inédito de Rigo 23, concebido especialmente para esta edição. Partindo da intervenção Terra Nullius, o artista luso-americano revisita criticamente a história do colonialismo para refletir sobre a violência do conflito israelo-palestiniano e o papel da geopolítica contemporânea. Num gesto que convoca referências de Francisco de Goya e René Magritte, a obra afirma a pintura como espaço de resistência política, denúncia e defesa da memória.
Arquivo da história da arte portuguesa em diálogo com o presente
Partindo da biografia da sua mãe, refugiada da Guerra Civil Espanhola, que viveu na União Soviética antes de se fixar em Portugal, Ana Pérez-Quiroga faz chegar à exposição as suas obras ¿De qué casa eres?, a instalação Peixinhos – tu inventaste! (2023), que coloca dois peixes de burel branco num alguidar de zinco com água, e as intervenções murais Mamã e Expedicíon a la URSS, em articulação com a exibição do seu filme documental.
Em diálogo com o presente, a exposição convoca o arquivo da história da arte portuguesa, apresenta obras de coleções institucionais e privadas. O percurso cruza as novas produções com a geometrização do lar no exílio de Maria Helena Vieira da Silva, visível em painel de azulejos, o humor conceptual de Manuel Alvess e a pintura de Menez. O roteiro integra ainda desenhos de Amadeo de Souza-Cardoso, o regresso à pintura de António Dacosta, a vivência no atelier de Arpad Szenes ou a “resistência política” de Paula Rego, entre outros nomes de referência.
Homenagem a Silvestre Pestana, oficinas e um Festival de Cinema
Até 30 de dezembro a programação da Bienal Internacional de Arte de Cerveira explora diferentes dimensões e linguagens artísticas, convidando os visitantes a fazer parte de uma celebração da arte contemporânea. Entre os destaques, sublinha-se a exposição em homenagem ao artista Silvestre Pestana. “Luso Lunar” vai reunir várias obras de uma figura incontornável e pioneira da arte contemporânea nacional, que detém o estatuto singular de ser um dos raros nomes a marcar presença em todas as edições desta Bienal.
Em parceria com o BIOGRAF’26 – Festival Internacional de Cinema e Arte em Movimento, a XXIV BIAC apresenta, de 7 a 9 de agosto, uma secção especial dedicada à imagem em movimento, com um programa sobre Silvestre Pestana, uma seleção de filmes dos artistas convidados e outro dedicado aos artistas do Concurso Internacional. Entre vários projetos curatoriais, a XXIV BIAC integra ainda polos expositivos externos, diferentes oficinas e ateliers livres, residências artísticas – que atravessam as fronteiras das 15 freguesias de Vila Nova de Cerveira –, conferências e atividades de mediação cultural.



