Há muito tempo — praticamente desde a adolescência — que esta questão me interessa. Foram precisos quase quarenta anos para eu encontrar uma resposta.
A palavra tão humana, carregada de subjetividade, chamada pressentimento, baseia-se afinal em quê? Como é explicada cientificamente? Possuímos todos esse verdadeiro dom? Será apenas pessimismo ou otimismo? Nasce da personalidade e do caráter de cada um? E, sendo assim, de onde vêm esses traços?
Ao longo dos anos fui reunindo e guardando informação sobre o tema. Em outubro de 2019, li um artigo do jornal Público sobre as “descobertas” de Leonardo da Vinci em exames a cadáveres, revelando ligações nervosas entre cérebro e coração. Mais tarde, em junho de 2025, uma entrevista ao jornal Sol, com o professor José Fragata — cirurgião cardiotorácico do Hospital Santa Maria — abordava os sentimentos que algumas pessoas transplantadas pareciam “adquirir” dos dadores dos seus corações. Esses relatos reacenderam a minha curiosidade e inquietação existencial.
Desde tempos antigos, as civilizações egípcia, chinesa e grega — entre outras — consideravam o coração não apenas um órgão físico, mas também espiritual e emocional, associado a uma espécie de “memória celular” com influência nas experiências humanas emocionais e comportamentais. Demonstrar isso cientificamente exigiu décadas de estudos, investigações, debates e congressos que se estendem até aos dias de hoje.
Retomei então a pesquisa em revistas científicas e médicas. Após alguma leitura, três artigos revelaram-se particularmente esclarecedores.
Um estudo de 2014, conduzido por Hyeong-Dong Park, intitulado Spontaneous Fluctuations in Neural Responses to Heartbeats Predict Detection, revelou que variações espontâneas nas respostas neurais aos batimentos cardíacos influenciam a perceção consciente — uma descoberta notável sobre a ligação entre coração e cérebro.
O artigo Resonant Heart, publicado em 2015, de Rollin McCraty, do HeartMath Institute, descreve como o coração gera o campo eletromagnético rítmico mais intenso do organismo — estimado em milhares de vezes superior ao do cérebro — mensurável a vários metros de distância por instrumentos especializados e explora as suas implicações na comunicação fisiológica e na perceção humana.
Mais tarde, em 2021, um artigo publicado na revista Cardiology and Vascular Research, The Ancient Wisdom at Intersection with Modern Cardiac Sciences, de Abdullah A. Alabdulgader, reforçou essa perspetiva ao integrar conhecimentos científicos modernos com conceções históricas sobre o papel do coração.
As experiências descritas nesses trabalhos indicam que o coração desempenha um papel singular na sincronização de múltiplos sistemas do corpo, em diferentes níveis de organização. Seria impraticável resumir todos os métodos e conclusões técnicas, mas a ideia central é clara: o coração é muito mais do que uma bomba propulsora de sangue. Ele mantém uma ligação contínua e complexa com o cérebro — por vias neurológicas, bioquímicas, biofísicas e eletromagnéticas.
Algumas investigações recentes sugerem que esse campo magnético cardíaco pode estar envolvido na perceção intuitiva, influenciando emoções e comportamentos antes mesmo de a informação ser processada conscientemente pelo cérebro.
Importa notar que essa troca de informação ocorre sem que a compreendamos plenamente — sentimos, antes de entender. Para mim, a coincidência entre essas evidências científicas e a noção humana de intuição torna-se profundamente satisfatória.
Diante de tanta precisão laboratorial e rigor biopsicofisiológico, não me seria difícil chamar a isso simplesmente pressentimento, resolvendo assim uma dúvida que me acompanhou por décadas.
Mas não. Hoje, quase quarenta anos depois — mais experiente na ciência, mais consciente da fisiologia e marcado por episódios profissionais que jamais consegui explicar — prefiro chamar-lhe, de forma inevitavelmente poética:
“O fantástico alarme de Deus.”
Arnaldo Botão Rego
Neonatologista




