A Quaresma e o Ramadão coincidem nas datas apenas cada 163 anos o que quer dizer, apenas uma vez nas nossas vidas. Nossos pais, avós e bisavós nunca viveram esta coincidência temporal e espiritual. E nós só a viveremos este ano.
Por serem datas coincidentes, chamaram-me ainda mais a atenção todos os votos e celebrações pelo início do Ramadão, partilhados e dirigidos a profissionais e empresas de países Muçulmanos, sobretudo na rede social profissional Linked In.
Ao contrário, não descortinei, apesar de procurar especificamente, qualquer voto ou celebração de profissionais de outras religiões acerca do início da Quaresma, este período tão significativo para nós, Cristãos.
Paradoxalmente, esta diferença faz-me refletir sobre as semelhanças entre estes dois períodos muito significativos, essencialmente para os crentes de ambas religiões: 40 dias de Jejum, Purificação e Oração que culminam na Revelação e na Redenção, festejados efusivamente.
Faz-me refletir também sobre o que fui aprendendo da religião Muçulmana com profissionais que se tornaram amigos: no Egipto, no Líbano, na Líbia, no Sudão, na Argélia, em Marrocos, na Tunísia, no Iraque, no Irão, no Dubai, em Abu Dabi, enfim, em boa parte do chamado mundo árabe.
Com eles, verdadeiros crentes e praticantes, aprendi como partilham com os Cristãos, muitos dos valores e dos mandamentos.
Ao acompanhá-los em paragens nas serras entre Erbil e Mossul, ou no vale do Nilo, na mesquita mais próxima, porque era hora de rezar, aprendi como a sua fé tem coerência na sua prática.
Mas aprendi também, como vivem ainda numa era de afirmação e rigor, por vezes extremados, desses valores, o que se explica, numa nota muito breve: o Calendário Muçulmano está no ano 1447.
O que faziam e como pregavam a fé cristã os nossos antepassados do século XV?
-Neste tempo de Quaresma, reflitamos sobre essa época, sobre a inquisição e a forma como as navegações Portuguesas e Espanholas fundiram num mesmo movimento, religião, comércio e poder político.
Não estarão hoje a cometer os Muçulmanos muitos dos mesmos erros que os nossos antepassados cristãos cometeram?
Aquele que nunca errou, que atire a primeira pedra.
Mas reflitamos também sobre a forma como os Muçulmanos vivem o seu Ramadão, com orgulho e explicando-o, determinando tudo o que fazem, pessoal como profissionalmente, nestes 40 dias.
Porque não vivemos nós os Cristãos a Quaresma da mesma forma?
-Além de refletir para compreender, é também importante que afirmemos os nossos princípios e valores, pelo menos, da mesma forma que celebramos o carnaval -esse-pagão.
Mostremos àqueles que nos visitam ou que para Portugal vem trabalhar, o que é a Quaresma, porque é importante para nós e como gostaríamos também que nos compreendessem e felicitassem por celebrá-la, e que fizessem votos que a vivamos na sua plenitude, tal e como nós lhes desejamos, pelo seu Ramadão.
Carlos Novais de Araújo
24 de fevereiro de 2026




