Vidas que nos dizem! A Sra. D. Irene Lomba. Let it Be!

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D irene lomba

Por vezes, pela nossa existência passam outras vidas cujo significado ultrapassa largamente o meio onde vivem, pois, as suas simples vidas encerram valor, fé, utilidade, amor ao próximo, à arte, à ciência e, mais importante, amor aos jovens.

E esse é o caso da D. Irene Lomba, que dedicou tantos anos ao ensino da música em Vila Praia de Âncora e que foi minha professora, durante anos, de piano e solfejo, e, mais tarde, de guitarra. Sem ter a formação do seu marido, Joaquim Lomba ou de um Fernandes Fão, não deixou de marcar a minha infância e adolescência, bem como a de muitos outros jovens.

Subir a Rua Comendador Canas e os degraus da porta da rua para se chegar a sua casa era, para a maior parte dos “colegas” das aulas individuais, um certo sacrifício – que eu também partilhava. Mas depois, tudo se transformava.

Como diz Maria João Pires, “a Música é a estrada que liga o Homem ao Universo “e, por ser algo tão fantástico, estimulava a minha imaginação, levando-me para além das pautas e dos sons e extinguindo aquele dito sacrifício logo aos primeiros minutos das nossas aulas. Nunca a D. Irene foi limitadora da expressão musical: rigor na pauta, sim, mas também maleabilidade interpretativa.

Recordo que, mais tarde, já com alguns anos de aulas, uma valsa de Strauss que tocava ao piano me transportava invariavelmente para a mesma imagem: um grande e majestoso baile da corte, com príncipes e princesas num grandioso salão repleto de espelhos e com paredes de um amarelo forte, decoradas com pinturas de lindos motivos florais que, para mim, correspondiam à mão direita da pauta. Mas depois, estranhamente, esse mesmo salão tinha um chão que em nada se compatibilizava com tanta beleza: um piso de enormes losangos em mármore preto e bege, correspondentes à feia mão esquerda da pauta – mas cujo envolvimento e fraseado eram indispensáveis à beleza do salão e das danças que aí decorriam. Mês após mês, após as primeiras versões da valsa, a projeção do som levava-me sempre para esse baile no majestoso salão. Pareceu-me, algumas vezes, que a D. Irene sabia que eu nem sempre estava ali, mas, desde que as notas estivessem bem, tudo era paz.

Muitas vezes, estando ao meu lado, ou com um “colega” de aula numa sala adjacente, ou até na cozinha a preparar o lanche ou o jantar, ela sabia perfeitamente ouvir se alguma nota tinha sido trocada. E, com os pulmões bem cheios, advertia: “Não sejas aldrabão!”

Assim foi até aos 16 anos, quando continuar a estudar no Liceu de Viana do Castelo se tornou obrigatório e tudo ficou suspenso.

Entre muitos, três episódios ficaram para sempre na nossa vida musical comum.

Num dia em que a lição de piano não estava a correr bem, como castigo, passámos mais cedo ao solfejo, ministrado numa salinha ao lado, numa pequena secretária. Acontece que também o solfejo não estava a correr nada bem e, irritada, para me provocar disse-me bem alto:

– Tu podias ser o meu melhor aluno, mas não és! Sabes porquê? Porque não estudas, és um preguiçoso, …, entre outros elogios tão impiedosos quanto justos.

Defendi-me dizendo-lhe que não tinha piano em casa e, por isso, não podia estudar. Saiu da sala e, para me provar que nem todos eram relapsos como eu, voltou com um cartão comprido, colado, com as notas das oitavas do piano pintadas, dizendo:

– Podias ser como o filho do Dr. Alfredo, que fez um cartão como este para poder estudar em casa (ainda não teria piano na altura) – e, ato contínuo, colocou-o na secretária à minha frente.

– Isso não tem jeito nenhum, não tem som, não se ouve a música – respondi, dando um toque de desprezo naquele ridículo piano de cartão, o que fez derrubar algumas peças e papéis da secretária, que caíram ao chão. Foi o caos. Aula terminada, queixa aos pais, castigo. O habitual.

Com o castigo paterno surgiu a exortação de seguir exemplo da Arabela, filha do Sr. Edmundo Presa, que por aqueles tempos liderava o ranking de aproveitamento e, essa sim, era a melhor aluna.

A D. Irene teve sempre a compreensão para me deixar ficar mais algum tempo, mesmo depois de terminada a aula de piano, ou quando o aluno seguinte se atrasava. Sabia que nesses prolongamentos eu tocava o que me apetecia, coisas que em nada se relacionavam com o repertório das aulas. Esse era o meu tempo favorito, de criação – o tempo livre que hoje tanta falta faz aos mais novos.

Sem formação de grande pedagoga, era-o, sem dúvida.

Sabia bem que a música era também liberdade. E percebeu sempre que eu precisava daqueles momentos.

Um dia, conseguiu – sem intenção, obviamente – irritar-me. Geralmente, nesses prolongamentos, eu “inventava” acordes, quase sempre feios e dissonantes, como sempre apreciei, e certa vez decidi aprender os acordes iniciais do Let it Be, dos Beatles. E, como a coisa ia saindo bem, gritou-me da cozinha:

– O que é isso?

Respondi-lhe também em voz bem alta:

– É a entrada de uma canção dos Beatles.

Resposta imediata:

– Ah, essa é que é bonita!!!

Ou seja… as outras não.

Para as férias de Verão, principalmente por serem longas, os objetivos musicais a alcançar vinham sempre marcados com um X, bem como as datas das lições devidamente apontadas. Parar era esquecer.

Percebeu também que o instrumento não seria o meu único interesse, tantas vezes lhe pedia emprestados dois livros – um de História da Música e outro de Composição – que adorava ver e ler, e que estavam na estante com portas de vidro ao lado da “secretária do solfejo”. No Verão de 1976, concluído o ano letivo e chamados os Pais para assistirem ao habitual recital de fim de ano na sua sala de aulas, de modo a verificarem os progressos, disse-lhes, no final:

– Levem-no daqui, porque o que ele quer saber, eu não sei ensinar.

A música era mais importante do que tudo o resto.

Visitei-a há pouco menos de um ano, na sua casa, na presença da sua filha Cecília, porque deixara de a ver no seu passo firme a caminho da missa.

O olhar arguto não se perdera – aos 95 anos, creio. Conversámos um pouco. Reconheceu-me. Foi um prazer revê-la, como se pouco ou nada à sua volta se tivesse alterado.

O mesmo piano, e o banco redondo de entrelaçado de palha onde me sentava há quase 50 anos, lá estavam.

Lamento, não raras vezes, que o tempo passe por estas pessoas tão válidas quanto simples, cuja importância nas nossas vidas é muito superior ao tempo que com elas partilhámos, tal é o efeito absolutamente valioso que têm na estruturação do nosso caráter.

Mas estou enganado. Ao contrário do que disse no início, pode parecer que estas pessoas passaram na nossa vida – mas não. Nós é que passámos pela vida maior que elas são.

Por tudo, obrigado D. Irene.

Tinha toda a razão. Let it Be – Ah, essa é que é bonita.

Arnaldo Botao Rego
Arnaldo Botao Rego
Neonatologista

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