Peeping Tom em Guimarães no próximo Domingo

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No próximo dia 17 de Setembro, o Centro Cultural Vila Flor em Guimarães, celebra 12 anos de existência com um espectáculo verdadeiramente marcante que assinala também o regresso a Guimarães da consagrada companhia belga Peeping Tom. Descrito pela crítica internacional como uma obra “absolutamente fora de série”, “Moeder” (Mãe) cruza o teatro, a dança e o cinema, para nos levar numa viagem à condição humana. A peça cria conexões que inundam o limite entre sofrimento, luto e festejo, entre manter ou deixar ir, estrutura e loucura. Passado, presente e futuro tentam desesperadamente aguentar o tempo cíclico de um arquétipo da natureza humana: a figura da mãe. O espectáculo tem início marcado para as 21h30, no Grande Auditório do CCVF.

Conhecida em todo o mundo pela sua peculiar estética artística, a companhia Peeping Tom, através da sua coreógrafa e cofundadora Gabriela Carrizo, traz ao CCVF uma peça de uma sensibilidade extrema que junta o belo ao grotesco numa obra que parte do luto sobre a morte da sua mãe para se ampliar para outros sentimentos, sentidos e sensações. O cenário, em si mesmo uma obra de arte, retrata uma série de locais bem reconhecíveis que se vão transmutando para dar corda à narrativa da história: uma maternidade, um velório, um estúdio de gravação, um museu, todos eles locais onde o público e o privado se fundem.

A estética hiper-realista do cenário assume uma importância extremamente relevante para retratar universos instáveis que desafiam a lógica do espaço e do tempo. A perda da mãe da coreógrafa é assim a ignição para que a peça se lance sobre outras emoções complexas do ser humano como a ausência e o vazio, as angústias e as ansiedades, o medo, as fantasias.

A memória é também “figura” central neste trabalho, uma vez que é ela que nos define enquanto seres humanos, pela capacidade de carimbar na nossa alma sensações, sentimentos ou emoções, pessoas, espaços ou objetos. Na peça, Gabriela Carrizo expõe o corpo como um armazém onde uma multitude de lembranças conscientes e inconscientes se fundem, colidem e definem quem somos. Esta mescla cria uma série de conexões inesperadas que esbatem as fronteiras entre o sofrimento e a celebração, entre segurar ou deixar ir, entre estrutura e caos, vida e morte. Além do fluxo de memórias individuais da coreógrafa e dos performers, emerge também uma memória universal e coletiva que despoleta reflexões perturbadoras sobre o complexo significado de ser mulher, de ser mãe.

O cenário da peça acrescenta laivos abstracionistas e o recurso a um humor contorcido, enaltecendo sempre a empatia. Meios para atingir aquilo que temos de mais pessoal e reconhecível: a família e as suas constelações. O som desempenha também um papel crucial no relato da história pela imediaticidade com que desperta memórias e pela forma eficaz como traz a audiência para o universo que lhe é proposto. Os sons estão intimamente ligados com as personagens, com a dança e com os objetos. Assim, Gabriela Carrizo expõe a visceralidade do corpo e a simbologia dos objetos na performance, bem como um universo mental de medos e fantasias. Enquanto estamos habituados a ouvir o som em palco como uma ferramenta, aqui ele é transformado em matéria tangível para destacar aspetos relevantes.

A dança que Carrizo impõem aos seus intérpretes parece desafiar as leis da física, transportando o público para lugares onde o real e o onírico se esbatem. Imagens surreais quebram-se por um humor negro que nos afunda nos aparentes estados alterados das personagens numa estética que por vezes roça o absurdo, sem nunca perder a humanidade. A compaixão pelas fragilidades, defeitos e incoerências está presente em toda a obra e é uma das caraterísticas mais vincadas da companhia, transversal em quase todos os seus trabalhos. Dentro de toda a surrealidade da peça, nunca se perde uma certa lógica sensível, sublime. A humanidade é assim mesmo.

É com este aclamado espectáculo que o Centro Cultural Vila Flor celebra mais um aniversário. Brinda-se, assim, ao percurso feito ao longo destes 12 anos de cultura, celebra-se o presente num mês particularmente especial e evoca-se o futuro que se promete repleto de desafios e propostas vibrantes. De referir que os Peeping Tom estarão de regresso a Guimarães em 2018 para apresentar no CCVF a primeira parte deste tríptico, “Vader” (Pai), que nos ajudará a (des)construir este mosaico artístico.

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