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Sexta-feira, 23 Abril, 2021
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Um enigma de mil anos: O Caso da Princesa Arménia, Peregrina no Séc. XI

A protecção da condição de peregrino foi (e procura continuar a ser) uma das razões do actual crescente sucesso dos “Caminhos de Santiago”. Talvez por isso uma das histórias mais antigas sobre peregrinos seja justamente a da flagrante violação desse dever de protecção que desde os tempos mais remotos da Idade Média se procura assegurar.

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Neste ano Santo, de Jacobeo provavelmente não assistiremos ao regresso em massa dos peregrinos que a partir desta altura começávamos a ver a calcorrear troços do caminho de Santiago ou a aguardar a próxima travessia do Ferry. Entretanto o Papa Francisco, decidiu prorrogar por mais um ano “os benefícios rituais concedidos aos fieis que visitem a Basílica Catedral Metropolitana de Santiago durante o ano em que o dia da celebração memória litúrgica do Santo – 25 de Julho – se celebra a um Domingo, como acontece neste ano de 2021.

Na sua mensagem, o Papa Francisco convida ao caminho, sugerindo que nos desliguemos das coisas que nos pesam, tendo presente que na vida não caminhamos sozinhos e que devemos confiar nos nossos companheiros sem suspeitas e desconfianças.

O código de solidariedade que acompanha a peregrinação a Santiago encontra-se em muitos dos seus sinais, práticas e costumes – a título de exemplo a antiga prática de oferecer ao peregrino da comida que ele conseguisse retirar com a sua vieira, o dever de hospitalidade.

A protecção da condição de peregrino foi (e procura continuar a ser) uma das razões do actual crescente sucesso dos “Caminhos de Santiago”. Talvez por isso uma das histórias mais antigas sobre peregrinos seja justamente a da flagrante violação desse dever de protecção que desde os tempos mais remotos da Idade Média se procura assegurar. Refiro-me à história do “Conde Preso”, contando em romanças de tradição oral e que Almeida Garret, no seu Romanceiro, transcreveu da seguinte forma:

“Preso vai o conde, preso,
preso vai a bom recado;
Não vai preso por ladrão,
Nem por homem ter matado,
Mas por violar a donzela
Que vinha de San Tiago:
Não bastou dormir com ela,
Senão dá-la ao seu criado!
Acometeu-a na serra,
Mui longe do povoado:
Por morta ali a deixara
Sem mais dó, sem mais cuidado
Chorou três dias, três noites,
E mais teria chorado,
Senão que Deus sempre acode
A amparar o desgraçado.
Passou por ali um velho,
Um pobre velho soldado,
Suas barbas brancas de neve,
Em sua espada abordoado;
Vieiras traz na esclavina,
O chapéu delas cercado;
Chegou-se à pobre romeira
Com muito amor, muito agrado:
«Não chores mais, filha minha,
Filha, demais tens chorado;
Que esse vilão cavaleiro
Preso vai a bom recado.»
Levou consigo a donzela
O bom velho do soldado;
Vão à presença del-rei,
Onde o conde era levado:
– «Eu te requeiro, bom rei,
Pelo Apóstolo sagrado,
Que nesta sua romeira
O foro seja guardado.
Da lei divina é casar-se,
Da humana ser degolado:
Que não valem fidalguias
Onde Deus é o agravado.
Disse el-rei aos do conselho
Com semblante carregado:
– «Sem mais detença, este feito
Quero já desembargado.»
– «Visto está o feito, visto,
Julgado está, bem julgado:
Ou há-de casar com ela,
Ou se não… ser degolado.»
– «Pois que me praz» disse o rei:
O algoz que seja chamado:
Ou já casar, co a romeira
Ou aqui ser degolado.»
– «Venham algoz e cutelo.
Respondeu o acusado:
Mas antes morrer mil vezes
Que viver envergonhado»
Agora ouvireis o velho,
O bom velho do soldado:
– «Fazeis, bom rei, má justiça,
Mau feito tendes julgado:
Primeiro casar com ela,
E depois ser degolado.
Lava-se a honra com sangue,
Mas não se lava o pecado»
Palavras não eram ditas,
A espada tinha arrojado,
Despe insígnias de romeiro,
Despe as armas de soldado,
Nos trajos de um santo bispo
Aparece transformado;
Sua mitra de pedras finas,
De oiro puro o seu cajado:
Tomou a mão da romeira,
A mão do conde há tomado,
Por palavras de presente
Ali os tem desposado.
Choravam todos que o viam,
Chorava mais o culpado;
Chorando, pedia a morte
Por não ficar desonrado.
O santo bispo o absolvia
Contrito de seu pecado:
Dali o levam por morto
Que nem o algoz foi chamado,
Justiça de Deus foi nele,
Antes de uma hora é finado!
Mas acudiu àquela alma
O Apóstolo sagrado,
Que outro não era o romeiro,
O bispo nem o soldado.”

No primeiro livro de linhagens de Portugal que se conhece, o chamado Livro Velho das Linhagens, que se supõe escrito no Século XIII, aparece uma referência a um “afilhamento forçado”, cometido por um Cavaleiro/Abade, Conde Mendo Alam (ou Alanis ou Alam), que no Mosteiro de São Salvador de Castro de Avelãs, teria hospedado uma princesa Arménia que iria de peregrinação a Santiago de Compostela.

Lê-se naquele livro, na parte dedicada à linhagem dos Braganções (uma das cinco principais linhagens existentes no Século anterior à fundação do reino) que “D. Mendo Alão de Bragança filhou por força uma filha do Rey da Arménia que hia em romaria a Santiago e fez nela D. Fernão Mendes, o Velho e D. Ouriana Mendes”. Noutro apontamento de linhagens, conhecido por Fragmento , encontra-se notícia do mesmo acontecimento: “D. Alam foi clérigo e filho-dalgo (fidalgo) , e filhou a filha d’El Rey da Arménia, quando ia em oração a Santiago e foi sa hospedada em São Salvador de Castro de Avelãs.” Já no Nobiliário do Conde de D. Pedro de Barcelos (Século XIV), a parte dedicada à linhagem dos Braganções (Título 38) começa justamente com o referido Mendo Alão, que dá como casado com Dona Francisca (sem mais), ambos pais de Fernão Mendes de Bragança, o Velho e de Ourana Mendes de Bragança. De referir – a talhe de foice – que neste mesmo Título 38 do Nobiliário do Conde de Barcelos surge a referência a Álvaro Pires de Castro, filho de Aldonça Lourenço (Valadares) e de Pedro de Castro (o da Guerra), ou seja: Álvaro Pires de Castro, o único irmão inteiro de Inês de Castro – e 1º Conde de Caminha – é referido naquele nobiliário, como sendo descendente directo daquele mesmo Mendo Alão e de sua mulher, o que faz de Inês de Castro, provável descendente directa da princesa Arménia, a ser verdade a história/lenda do “rapto da princesa da Arménia”.

Diversos estudos ou comentários foram-se sucedendo quanto à probabilidade de ser verdadeiro esse episódio “fundador” de uma linhagem que o tempo acabaria por revelar impar na nossa História (se percorrermos os vários descendentes desse episódio encontramos: Santo António de Lisboa, Inês de Castro, D. Lara de Castro – que casou com o Infante D. Duarte, irmão de D. João IV e que faleceu encarcerado na Torre de Milão – Duque de Caminha (1º e 2º Duques de Caminha), Fernando Pessoa…

Um desses estudos foi feito na Argentina por um genealogista e jornalista do jornal “La Nacion” de Buenos Aires, Narciso Binayan Carmona. O estudo, publicado em 1978, intitula-se “Uma princesa Arménia en Compostela en el siglo XI. Su Genealogia”.

A partir desse e de outros estudos anteriores, é proposta a identificação da princesa Arménia como sendo a Princesa Joana Ardruzni, que seria filha do Rei Senekerin do Reino de Vaspurakan , neta de Gagik I (também nomeado por Cacício I) e que terá sido um dos primeiros reinos cristãos. Aquele reino tinha a sua sede e paláciona ilha do Lago Van chamada Aghtamar. Aí mandou Cagik I edificar uma das mais notáveis igrejas da história do cristianismo: a igreja de Aghtamar, na ilha com o mesmo nome. A essa mesma família real Ardruzni (ou Ardzuni, ou Arzerúni, como também é designada), pertence um dos primeiros historiadores Arménios, Tomás Ardzuni e que no Século X deixou escrita a “História da Casa Arzerúnio”, traduzida para Francês no Século XIX por Marie-Félicité Brosset.

Ora, o curioso é que o próprio mosteiro de Castro de Avelãs acaba por ser mais semelhante (na parte que resta da sua construção primitiva) com a igreja de Aghtamar (cuja data de construção se situa entre 915 a 921) do que com qualquer outra igreja em Portugal, sendo aliás um dos únicos exemplares em Portugal da chamada arquitectura Romano-Mudejar. Ao contrário do que acontece com a Igreja de Aghtamar ainda hoje ignoramos a data em que terá sido edificado a Igreja de Castro de Avelãs, pese embora serem conhecidas referências à sua existência enquanto lugar de acolhimento de peregrinos, pelo menos desde o Século XII.

A ter ocorrido o episódio narrado no Livro Velho, no Fragmento e nas Romanças de tradição oral, o mesmo terá acontecido imediatamente após o fim do reino da Vaspurância, o que ocorreu a 1021, com a sua passagem para o Império Bizantino, na sequência de acordo de paz feito pelo seu último Rei, Serekin, pai da Princesa Arménia.

Considerando a devoção patente na Igreja de Aghtamar, a circunstância daquela dinastia ser a única cristã das várias casas reais arménias, faz sentido não só a ideia da peregrinação a Santiago de Compostela, como não deixa aliás de ser intrigante que o arquitecto da Igreja de Aghtamar surja identificado (no excelente site dedicado
àquela igreja – e vale mesmo a pena ver as imagens do seu interior) como sendo o “Monge, Bispo Manuel” (sem, porém, se esclarecer qual a sua origem, bem como a de um nome próprio como “Manuel” no reino de Vaspurakan).

A ter ocorrido essa peregrinação faz também sentido a hospedagem no Convento de Castro de Avelãs, assim como a sua ligação ao referido Conde Francês, que como outros cavaleiros integravam a Ordem Beneditina, vocacionada desde a sua fundação a servir os pobres, os peregrinos
O lugar de Castro de Avelãs estava no mapa dos principais itinerários romanos que ligavam Roma, França, Portugal e Espanha, constituindo paragem obrigatória da via XVII do Itinerário de Antonino nas peregrinações a Santiago de Compostela.

Mil anos depois a dúvida sobre este episódio subsiste. Entretanto, nos principais sites de genealogia, a princesa Ardzuni é confirmada como mulher de Mendo Alão e mãe de Fernão Mendes de Bragança, o Velho, e Ourana Mendes de Bragança. Se foi “filhada à força”, como diz o Livro Velho, poderá ser a outra parte do mistério que jamais se poderá desvendar, quanto à origem arménia, em breve o ADN o poderá demonstrar, já que é hoje possível saber onde estão os supostos descendentes desse mesmo episódio.

Uma coisa é certa: gravita em torno das mulheres que antecederam e sucederam àquela princesa, uma aura de mistério, beleza e fado que não deixa de surpreender.

Desde logo a própria origem do nome da Ilha Aghtamar. Segundo a lenda, o lago deveria o seu nome uma história de amor entre um Nobre Arménio e uma princesa, de nome Tâmara, que vivia na Ilha do Lago de Van (então Arménia, hoje Turquia). Todas as noites, em segredo, a princesa acendia uma fogueira numa das escarpas da ilha. O seu amado mergulhava então no lago e guiado por aquela luz, nadava o nobre Arménio ao encontro da Princesa Tâmara, que o aguardava, junto ao fogo. Numa noite, o Rei terá sido informado do segredo. Aguardou que a princesa fosse ao local onde acendia a sua fogueira, esperou que ela repetisse o fogo, aguardou que o mesmo pudesse ser visto do outro lado da margem da ilha, aguardou um pouco mais e dirigiu-se então à fogueira, apagando-a. Segundo a lenda uma tempestade abateu-se então sobre o lago negro de Van. Segundo a mesma lenda, desde então que nesse lago se ouve o grito do amante da princesa arménia Tâmara: “Ak Tâmar!”, “Ak Tâmar!” (aqui Tâmara, aqui Tâmara!), perdido no meio da tempestade, sem a luz da fogueira que lhe servia de orientação (em homenagem a esta história os Arménios fizeram uma estátua de uma mulher que acena com um braço erguido para o lago, estátua que se encontra no Lago de Sevan).

Seria a Princesa Tâmara do lago a que deu nome (Aktamar ou, actualmente, Aghtamar) avó da Princesa Joana Ardzuni?

Seria a Princesa Joana Ardzuni: 4ª avó de Santo António de Pádua (nascido em Lisboa em 1190, falecido em Pádua em 1231); 7ª avó da Castelhana Maria de Molina, rainha consorte, mulher de Sancho IV de Leão e Castela e Rainha Regente nos reinados de Fernando IV e do seu neto Afonso XI, ambos de Leão e Castela?; 8ª avó da Portuguesa Aldonça Lourenço Valadares por quem se enamorou, o Galego (de Monforte de Lemos) D. Pedro Fernandes de Castro, o da Guerra, bisneto de Sancho IV de Castela e com quem teve pelo menos dois filhos: Álvaro Pires de Castro (1º Conde de Arraiolos e de Viana da Foz do Lima, onde D. Fernando fez incluir o Condado de Caminha e 1º Condestável de Portugal)?; 9ª avó dos irmãos Inês de Castro e Álvaro Pires de Castro?; 10ª Avó de Beatriz Infanta de Portugal, filha de D. Pedro I e D. Inês de Castro?; 11ª Avó de Isabel de Portugal, dada como filha de Beatriz Infanta de Portugal – e de seu meio irmão, o futuro Rei D. Fernando – que casou com Afonso, Duque de Noroña e Gijon, avós do primeiro Marquês de Vila Real (casa do futuro Ducado de Caminha)?; 16ª Avó de Beatriz de Meneses, que casou com Pedro de Médicis 17ª Avó de Maria de Lara e Meneses, curiosamente denominada por “A Peregrina”, irmã do 1º Duque de Caminha e que em segredo casou com o Infante D. Duarte, irmão de D. João IV, o mesmo que mandou executar o seu sobrinho D. Miguel Luís de Noronha,e que viu o seu irmão partir de Vila Viçosa, por não se entender com a sua mulher, D. Luíza de Guzman, que lhe censurava o indiscreto interesse por uma das suas aias, provavelmente aquela com quem o mesmo Infante D. Duarte viria a casar em Vienna, no ano de 1635, antes de ser preso, tendo falecido em Milão, no ano de 1649?; Toda esta descendência consta hoje acessível e comprovável nos sítios de genealogia. Outras certamente poderão estabelecer-se ou revelar-se. Não deixa, porém, de ser notável como a partir de um episódio novelesco encontramos na vida dos seus descendentes, uma espécie de marca de tragédia amorosa que parece fazer parte do ADN dos Braganções e seus sucessores.
Como diz um amigo alentejano (numa variante do dito Italiano com o mesmo sentido): se não é verdade é bem caçado (si non e vero e ben trovato).

Gondarém, 16 de Março de 2021

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