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Os casos da cidade de Viana do Castelo, concelhos de Caminha e de V. N. de Cerveira

6- Como se viveu a pandemia da gripe na cidade de Viana do Castelo

No acervo documental de Viana do Castelo, conserva-se o Livro de Enterramentos da Cidade (1), onde se inscrevem a identificação dos falecidos, residências, patologias, etc. Esta informação permite-nos efetuar, com particular precisão, a geografia dos casos de gripe, quantificar e aferir as causas de óbito (quando são mencionadas), sempre em cruzamento com os registos paroquiais de óbito e demais hospitais (assistenciais e militar).
O Hospital da Misericórdia constituía a maior instituição de assistência na cidade. Segundo o seu Livro das Dietas, albergava, a 12 de outubro de 1918, no período mais crítico da crise, 96 pacientes (em meses normais, a média girava entre 30-40 doentes). (…)

Grafico 1 Gripe JCGrafico 2 Gripe JC

Conforme é possível observar nos gráficos 1 e 2, no movimento de óbitos da Misericórdia de Viana do Castelo que percorre o período desde 1912 a 1932, foi o ano de 1918 que compreendeu o maior número de óbitos, sendo o mês de outubro aquele que assinala o pico máximo, correspondendo ao movimento idêntico já mencionado.
Durante a crise gripal (agosto a dezembro de 1918), 122 óbitos ocorreram em Monserrate e 105 em Santa Maria Maior. Somam-se mais 56 no Hospital da Misericórdia, 15 no Hospital da Caridade, 1 no Asilo das Meninas Órfãs e 24 no Hospital Militar. O primeiro óbito registado na cidade com gripe pneumónica foi a do soldado Arnaldo Martins, de 22 anos, no dia 24 de agosto. Este facto remete-nos novamente para o papel central da mobilidade dos militares na disseminação do contágio, uns vindos de licença da frente da guerra, outos mobilizados de quartel em quartel. Entre setembro e outubro, faleceram mais 21 militares. A este respeito, relatava a imprensa vianense, já a 26 de setembro, que na cidade já havia bastante gente atacada, principalmente militares. E no dia 30 do mesmo mês, acrescentava a mesma imprensa que no Hospital Militar encontravam-se já mais de 100 doentes (2).

tabela 1 gripe JC tabela 2 gripe JC

Observamos na Tabela 1 que, durante o mês pandémico de outubro, de um conjunto de 168 óbitos registados no Livro dos Enterramentos, 107 foram provocados pela gripe pneumónica, o que corresponde a 63,7% do total. Em novembro, registaram-se mais 12 óbitos por gripe e em dezembro apenas 1 óbito. Na chamada terceira vaga da gripe (até maio de 1919), registaram-se somente 5 de óbitos. O surto da varíola (ou bexigas) incidiu sobre as crianças e em número significativo. A referência a doenças por causa indeterminada sugere o desconhecimento médico da nova pandemia da gripe ou óbitos no domicílio, numa fase inicial do contágio.
Após um mês do primeiro óbito por broncopneumónica referente ao soldado Arnaldo Martins, o contágio ia silenciosamente alastrando, facilitado igualmente por concentrações ocasionadas durantes as feiras, festas e romarias. A 21 de setembro, a pandemia já se encontrava espalhada por toda a cidade. A 4 de outubro, escreve-se: casas há onde se encontram quatro e cinco pessoas doentes. A nossa, por exemplo, está transformada em camarata. São quatro pessoas que nela guardam o leito e Deus sabe ainda o que será (3). E assim continuou até ao final do mês (…). O movimento é ascendente e atinge o seu máximo no dia 17, com 10 óbitos registados. Por esta altura, as autoridades determinaram que os enterros só se efetuassem depois das 19 horas, ou seja, de noite (4). O declínio até ao final do mês torna-se oscilante, porém consistente.
Calculámos as idades médias ao óbito dos indivíduos que faleceram por pneumónica, segundo o Livro de Enterramentos (Figura 17). Os indivíduos com idades até aos 40 anos representam 85,5% do total, 38,4% dos quais possuíam entre 20 e 29 anos de idade, o que mais uma vez comprova a juventude das vítimas (sublinhe-se que, no Hospital da Misericórdia, a idade média ao óbito fixou-se nos 29,7 anos, tendo a vítima mais jovem 15 anos (5). As crianças menores de 23 meses, ao contrário de outros estudos, concentram apenas 9,6% dos casos, sendo que uma das razões se prenderá com algum subregisto à infância e que foi detetado durante o processo de cruzamento das fontes. Quanto ao género das vítimas registadas da pandemia, encontrámos a prevalência do sexo feminino (52,8%) sobre o masculino (47,2%), o que é expectável no contexto altominhoto em que o celibato feminino, o maior número de viúvas e a emigração masculina se apresentavam como fatores característicos e endémicos.

A análise das ocupações da população adulta ficou comprometida com a existência de 33,6% casos de domésticas das quais desconhecemos a estratificação social. As demais profissões parecem revelar pertencerem, salvo algumas exceções, a grupos sociais mais desfavorecidos e fragilizados. Isto explica a formação de comissões locais de socorro, como no caso de um grupo de senhoras e cavalheiros desta cidade percorreram as ruas angariando donativos para socorrerem os pobres atacados da epidemia que vai grassando (6).

Verificado que o número de óbitos encontrados nas duas paróquias se encontrava equilibrado e que, portanto, não existiram clivagens geográficas na cidade, procurámos perceber quais os arruamentos onde a pandemia predominou. Em Monserrate, as áreas de residência registadas ao óbito durante a pandemia são, na sua maioria, as zonas habitadas por famílias de marítimos e militares, assim como os eixos principais de passagem – ruas do Castelo, Loureiro, General Luís do Rego, Altamira, Nª Sª de Monserrate, Largo D. Fernando, etc…

Em Santa Maria Maior, foi na Rua da Bandeira onde faleceu grande parte dos indivíduos, seguindo-se artérias e eixos privilegiados de entrada e saída da cidade, mas também áreas de Comércio e Serviços. Note-se os riscos associados à localização do Hospital da Misericórdia, em pleno centro da cidade, na esquina com a Rua da Bandeira e frente à Praça da República, nomeadamente pela constante circulação de peões, entrada e saída de doentes, de pessoal médico, de falecidos, tornando-se tragicamente o próprio hospital num provável foco de disseminação da doença. As demais artérias foram as ruas da Picota (onde funcionava a Cruz Vermelha), 8 de Maio, Santo António, D. Luís, Piedade, Espírito Santo, Anjinho, Praça da República, etc… A Cruz Vermelha, responsável pelo transporte de doentes, colocou um anúncio na Imprensa, apelando à inscrição de maqueiros, mas o concurso inicial não teve qualquer adesão…(7).

O papel da Imprensa Local e Regional no alerta das populações foi crucial. Se bem que nesse ano de 1918 existisse todo um intrincado contexto sociopolítico e económico em polvorosa, se bem que a Censura atuasse fortemente sobre os conteúdos (a existência de artigos com vários parágrafos em branco ou truncados era banal (8), os próprios jornais continuavam a lutar pela sobrevivência. O custo do papel igualmente sofreu um aumento assombroso, de forma que o número de páginas foi reduzido.

O preço do papel chegou a um preço exorbitante (…). A especulação que campeja infrene e nada deixa escapar à bulimia doida que a devora, apoderou-se de tudo.
Não sabemos sequer como continuar a publicação desta velha e tão amada “Aurora”, sendo, como são já, inultrapassáveis os sacrifícios que nos temos imposto! Contudo, tentaremos! O único meio que agora nos resta é publicá-la em meia folha. (…) (9).
Sofriam por causa do preço do papel, mas também por causa da doença. No jornal Aurora do Lima, os leitores eram avisados que por ter adoecido parte do pessoal gráfico, talvez não se publique amanhã (…) pelo que apresenta as suas desculpas aos prezados assinantes. O mesmo sucedeu com o Jornal Echos de Cerveira: (…) para não perdermos o correio e com a doença de dois tipógrafos, fica algum original para outro número (10).

Desde o início da pandemia, que os jornais continuavam a estoicamente informar a população acerca do ritmo de propagação da gripe, dos doentes ou dos falecimentos. A 10 de outubro, quase no auge da existência do maior número de mortes, seguia-se esta sentida descrição dos factos:
Quase não há casa na cidade em que não esteja atacada, com mais ou menos gravidade, algum dos seus moradores. Noutras casas, caiu tudo! Os parcos médicos que ainda resistem andam esfalfados e mal podem acudir a todos. (…) Só os prontos socorros e inúmero cuidado para evitar as recaídas se pode recomendar… o resto é o que Deus quiser! (11)
Do Jornal A Aurora do Lima chegou-nos a associação da pandemia de 1918 com a de 1889. Segundo esta associação, concluía que atacava de um jato (…) e que não atacava, com a mesma fortaleza, adultos e velhos! Estes chegam a ter irritações pulmonares sem febre (12). Recomendava-se a higiene pessoal e a utilização de desinfetantes. Uma boa medida seria queimar grandes quantidades de folhas de eucalipto nas ruas, de preferência nos bairros mais insalubres (13).

Um dos temas mais relevantes e mais frequentemente abordado nos jornais vianenses, relacionava-se com a crise das subsistências, preço dos bens, pobreza das populações em associação com a pandemia e, principalmente, com a criação dos Celeiros Municipais, por Decreto de 20 de abril desse ano. Nele se estipulava, por exemplo:
a) Os produtores são obrigados a manifestar, perante a Junta de Freguesia, o centeio, milho e trigo que produzirem, oito dias depois de terminada a colheita;
b) Excluída a parte necessária para sustento da sua família, o restante fica pertencendo ao celeiro da Câmara Municipal;
c) O produtor que se negar ao manifesto incorre no confisco dos seus géneros, em multa (…) e em 6 meses de prisão, e o que falsear as suas declarações perderá as quantidades sonegadas e fica sujeito a prisão.

Esta normativa era praticamente impossível de cumprir, pois as colheitas pautavam-se por ciclos próprios e faseados ao longo do ano, condicionadas pelas condições climatéricas adversas, o que era o caso desse ano de 1918 (14). Os cronistas clamavam pela equidade da distribuição do pão no Alto Minho, nomeadamente através da implementação de celeiros paroquiais e aos quais todos teriam acesso. Uma vez que os celeiros municipais centralizavam os bens, a gente aglomera-se, o que dificulta o serviço de distribuição, dando em resultado que muitos passam o dia inteiro sem comer, percorrendo longas léguas na ida e na volta para obterem uma pequena fornada.
Continuava o cronista a defender que a insuficiência do milho se devia ao contrabando para Espanha, bem como de gado, ovos e galinhas que, praticado em larga escala, era favorecido pela moeda forte de Espanha, face à portuguesa muito depreciada (15).
E por todas estas razões houve uma forte contestação em frente à Câmara por parte da União dos Sindicatos Operários, de todas as Associações de Classes federadas e de muito proletariado, protestando contra a carestia de vida e reclamando a criação de armazéns com géneros mais essenciais à vida, a preços acessíveis à bolsa das classes trabalhadoras, principalmente o milho excessivamente caro em relação aos salários. Reclamavam ainda pelo término de preferências no celeiro municipal e dos maus tratos exercidos pelos empregados nas mulheres que ali o vão comprar. A agravar o caos, desenrolava-se simultaneamente uma greve na construção civil (16).
Em 22 de novembro, continuava o cronista a indagar as razões da disparidade de preços das diferentes praças da Ribeira Lima, preços que variavam entre 1$700 e 2$500 por alqueire de milho.
A Imprensa apelava às instituições para que tomassem medidas para evitar o espetáculo deprimente de crianças nas ruas a esmolar:
O espetáculo mais deprimente de uma sociedade é, sem dúvida, a mendicidade de menores pelas ruas (…) vítimas inocentes a quem os pais, pela fome, obrigam a esmolar. (…) Os asilos estão cheios. Não há casas próprias para albergue de menores, nem outros meios de socorro, a não ser a caridade pública. (…) Só um meio haverá: o início da assistência de rua (…) onde as senhoras da melhor sociedade velam pelas pobres criancinhas (…) (17).

Com a pandemia, inúmeras crianças órfãs erravam pelas ruas, sem qualquer apoio familiar. A pedido do governador civil de Viana do Castelo, procedeu-se à instalação de um orfanato de menores no antigo edifício da Oficina de S. José, cedido pela Santa Casa da Misericórdia da cidade. Nos inícios de dezembro, quando a gripe recuava, já 20 órfãos tinham sido instalados e procedia-se à recolha de outras crianças isoladas por todo o distrito. Também por todo o distrito se abriram as cozinhas da sopa económica, segundo pedido da Comissão Administrativa da Obra de Assistência 5 de Dezembro, onde eram distribuídos sopa, pão e roupas aos pobres (18).

Fizeram-se também peregrinações um pouco por todo o distrito, cidade, vilas e aldeias, sendo S. Sebastião o mais visitado, pois é o advogado da peste, da guerra e das colheitas. Em Viana do Castelo, a procissão de penitência realizou-se no domingo à tarde [dia 11 de novembro], fazendo a volta da cidade, acompanhada por milhares de pessoas e recolhendo ao Santuário de Nª Sª da Agonia, do adro do qual foi lançada a bênção ao povo pelo Reverº Prior de S. Domingos (19). Foi então que um sacerdote efetuou um voto de consagração da cidade ao Sagrado Coração de Jesus, prometendo que, se a cidade fosse poupada ao flagelo, realizaria uma romagem para esse fim. Levada a cabo a primeira peregrinação anual em 1921, jamais se interrompeu este ato de devoção até à atualidade, ao qual se juntam, além dos vianenses, fiéis de todo o concelho de Viana do Castelo (20).

Para a leitura completa do Artigo ver Revista de Estudos Regionais do CER, Viana do Castelo, II Série, nº 14, pp. 13-43!”

1 A.M.V.C.T., Livro de Enterramentos no Cemitério de Viana do Castelo, Maiores (1906-1923), Cota 4.20.5.8); Menores (1913-1946), Cota 4.20.5.6.
2 Jornal A Gazeta do Lima, 26 e 30 de setembro 1918. Nesta mesma data, anunciava-se espetáculos no Teatro Sá de Miranda, onde atuava a Troupe Nacional.
3 Jornal A Aurora do Lima, 4 de outubro de 1918
4 Jornal A Voz do Coura, 26 de outubro de 1918.
5 A.D.V.C.T., Misericórdia de Viana do Castelo, Livro dos Mortos, pp.42-46v.
6 Jornal O Povo, 3 de outubro de 1918.
7 Jornal O Povo, 4 de setembro de 1918.
8 Diário do Governo, n.º 59, 28 de março de 1916, Lei n.º 495. Art.º 2º- A censura será exercida por comissões especiais que funcionarão junto dos governos civis ou administrações do concelho das localidades onde se imprimam as publicações (…).
9 Jornal A Aurora do Lima, 05 de março de 1918.
10 Jornal A Gazeta do Lima, 10 de outubro de 1918. Jornal Echos de Cerveira, 10 de novembro de 1918.
11 Jornal A Aurora do Lima, 10 de outubro e 17 de outubro de 1918.
12 Jornal A Aurora do Lima, 22 de outubro de 1918.
13 Jornal O Povo, 3 de outubro de 1918.
14 Predominou no mês findo o vento norte e rijo, que determinou uma seca. Dias sucessivos de extraordinário calor (…). O termómetro conservou-se entre 29º, chegando algumas vezes a 30º à sombra. (…) Manifesta-se com violência o oidium, sendo para recear que faça grandes estragos se não for prontamente atacado com enxofre. (…) Tem-se perdido muita fruta por causa da seca e fortes ventanias. Bem pouca escapará e essa será vendida por alto preço”. Além da subida do preço do vinho, chegou a chuva abundante que poderá fazer perigar as colheitas. Jornal A Voz do Coura, 14 e 28 de setembro de 1918.
15 Jornal A Aurora do Lima, 5 de julho de 1918.
16 Jornal A Gazeta do Lima, 29 de agosto de 1918, 12 de setembro de 1918.
17 Jornal A Aurora do Lima, 1 de março de 1918.
18 Jornal O Povo, 19 de novembro de 1918.
19 Jornal A Gazeta do Lima, 14 de novembro de 1918.
20 Jornal de Santa Luzia, nº 10, maio de 2013, Confraria de Santa Luzia.

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