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Quarta-feira, 30 Novembro, 2022
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Opinião: Em defesa da nossa terra: não ao lítio!

 

thumbnail_Pedro Ribeiro

O Alto-Minho vive dias muito difíceis face à possibilidade de ver o seu território invadido, esventrado, saqueado e, como sempre, depois abandonado à sua sorte. O ataque que está a ser preparado já há vários anos tem como objetivo sobrepor a ganância da economia à beleza da paisagem e biodiversidade desta região. Como Gandhi, eterno conhecedor das fraquezas humanas, já havia descoberto “a natureza humana pode suprir todas as necessidades do homem menos a sua ganância”.

No concelho de Caminha, sempre nos foi colocado como horizonte prioritário do nosso modelo de desenvolvimento a forte aposta no turismo. Milhões de euros e de recursos foram afetados à venda de um território natural de praia, mar, rio e serra numa harmonia de natureza pura e quase intocada pelo homem.

A aposta feita no turismo refletiu-se, ao longo dos anos, nas políticas culturais, sociais, urbanísticas, económicas e até estéticas. O município lutou por acreditar oficialmente todo o seu património natural em todos os patamares que os quadros legislativos facultaram de forma a selar oficialmente a qualidade que todos lhe reconhecem.

Esta luta em defesa do ambiente, nem sempre consensual, foi permanentemente alvo de ampla discussão política e técnica envolvendo no debate público as autarquias, as associações ambientalistas (COREMA e NUCEARTES) e muitos munícipes que, ao longo dos anos, denunciaram e propuseram modelos de desenvolvimento que protegessem a nossa riqueza natural.

Embora alguns, incluindo agentes com responsabilidades políticas na nossa praça, tenham demonstrado surpresa com os últimos acontecimentos que parecem vir a facilitar a exploração de lítio na nossa região, o certo, é que já há alguns anos se sabia que isto iria acontecer.

A questão é: qual a razão para explorar o lítio? Ora, estamos na era da energia elétrica para fazer mover o mundo nomeadamente os automóveis. Um autêntico paradoxo pós-moderno: por um lado, energia limpa para contribuir para um melhor ambiente; por outro, esventrar a natureza destruindo a sua biodiversidade para ter carros com energia limpa a circular.

Para fazer andar os carros elétricos é fundamental o hidróxido de lítio para fabricar as baterias destes automóveis. Estamos a falar de um negócio de biliões e – onde há tais perspetivas de números – há interessados. A China e a América do Sul são, neste momento, duas potências de quem a Europa quer evitar a sua dependência e, para isso, pretende explorar as suas próprias jazidas deste mineral.

Trazidos até aqui, podemos perceber a força que a nossa região tem que reunir para lutar seriamente pela sobrevivência do nosso ambiente paradisíaco. São vários os lobbies desde as multinacionais à política internacional. A hora é de cerrar filas e lutar! Estes agentes, que estão longe de nós a tomar decisões que nos afetam, só irão parar quando já não houver mais nada que dê riqueza para destruir. Os indígenas brasileiros conhecem bem este tipo de homens que espelham no ditado “só quando a última árvore for derrubada, o último peixe for morto e o último rio for poluído é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro.”

Quais são, na prática, os impactos mais notáveis associados à exploração do lítio?

Podemos resumir nos seguintes:

Visuais – O desmonte a céu aberto vai levar à descaracterização da paisagem e provocar impactos visuais pelo contraste entre a área explorada e o meio envolvente;

Na morfologia do terreno – o desmonte altera a morfologia com a abertura das cortas;

Alteração da ocupação e uso do solo – que era agrícola e florestal e que passará a ter uso extrativo;

Sociais – decorrentes da alteração das atividades económicas existentes (agricultura, floresta);

Contaminação dos solos

– Por derrames de combustíveis e óleos lubrificantes devido à circulação de equipamentos;

– Deposição de resíduos (baterias, pneus, óleos usados) colocados indiscriminadamente no terreno.

No Meio Hídrico

Hidrologia de Superfície – Alterações nas linhas de água pelas depressões associadas à exploração do minério. A escavação altera o normal escoamento das linhas de água;

– Depósitos de terras colocados na envolvente das linhas de água podem provocar a sua obstrução pela erosão, levando à deposição dos sedimentos nos vales;

Hidrologia subterrânea – Interferência nos circuitos hidráulicos subsuperficiais e rebaixamento de poços e captações;

Qualidade das águas – Afeta a qualidade das águas pela infiltração e percolação de derrames de combustíveis e óleos;

Leva à acumulação de resíduos industriais;

As escombreiras atravessadas pelas águas da chuva podem provocar contaminação física com o aumento das partículas em suspensão.

Para terminar convém refletir sobre a existência da necessidade deste atentado ao nosso património natural. O desenvolvimento do mercado global do lítio tem vivido anos dramáticos sendo que o preço tem vindo a cair desde 2018 sendo a sua oferta superior à procura.

Mesmo dentro da União Europeia, onde Portugal possui reservas significativas, começam a surgir projetos mais atrativos em vários países. O lítio português dificilmente será competitivo num mercado globalizado em contração, onde existem vários produtores consolidados com acesso a reservas de dimensão muito superior, com custos de produção mais baixos e com legislação ambiental e laboral mais fraca.

Sem negar que o lítio tem importância geopolítica e que, nesse sentido, a União Europeia quer garantir uma cadeia de abastecimento seguro e sustentável falta, a Portugal, escala transformando-se apenas em exportador de uma industria poluente e consumidor final.

Por fim, temos que ser claros, o “green mining” não existe. A exploração mineira acarreta sempre um elevado risco ambiental.

É hora de toda a nossa comunidade se unir e dos nossos políticos locais erguerem a voz corajosamente contra esta calamidade que, a sede do ouro branco, trouxe à nossa terra.

 

Por Pedro Ribeiro

Professor

 

Cidália Aldeia
Cidália Aldeia
Chefe de Redação
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