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Sexta-feira, 18 Setembro, 2020
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Maestro Lourenço da Cruz: “No meu caso a música não foi um amor à primeira vista”

Apesar de vir de uma família com tradição musical, com diversos familiares músicos, a verdade é que a música na vida do Maestro Lourenço Cruz não foi um amor à primeira vista.
Quando era mais jovem aquilo que o atraía mesmo era o desporto, principalmente
o remo, uma das suas grandes paixões.
A música surge como uma espécie de alternativa à escola da qual não era grande fã.
O pai e o primeiro professor contribuíram para que seguisse uma carreira musical
e não se arrepende.
Atualmente este filho de Lanhelas é um maestro reconhecido com diversos prémios nacionais e internacionais no currículo.

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Jornal Caminhense – Começo esta entrevista pedindo-lhe que me fale um pouco de si. Quem é o Maestro Lourenço Cruz?

Lourenço Cruz (LC) – Embora eu tenha nascido em França, sou filho de pais emigrantes, considero que a minha terra é Lanhelas.
Por força da minha profissão e dos meus estudos já viajei muito, vivi em Espanha, França e atualmente estou na zona de Trás-os-Montes a trabalhar na Banda Marcial de Murça de Vila Real, no Coro da Cruz Vermelha Portuguesa, delegação de Mirandela, e também na Escola de Música.

JC – Mas chegou a viver em Lanhelas?

LC – Sim. Eu vim para Lanhelas aos 4 anos e foi aqui no concelho de Caminha que passei grande parte da minha infância e adolescência. Depois fui para Viana estudar na Escola Profissional de Música de Viana do Castelo.

JC – Como é que nasce esta sua ligação à música. Tem a ver com o facto de existir em Lanhelas uma Banda e muita gente ligada a esta área?

LC – Para ser franco a minha ligação com a música no início foi um pouco complicada, digamos que não foi um amor à primeira vista.
Mas como você diz e bem Lanhelas é uma freguesia com uma tradição musical enorme. Temos músicos extraordinários espalhados pelo país e não só e de facto a Banda Lanhelense foi uma excelente “mãe” para todos nós músicos que por lá passamos.
Voltado à sua pergunta e à minha ligação com a música, a verdade é que ela surge como uma espécie de alternativa a quem a escola não dizia muito.
O que eu gostava mesmo era de praticar remo no Sporting Clube Caminhense, apesar de nunca ter ganho nada de especial nem ter sido um atleta de elite. Mas como eu gostava muito de desporto e pouco de escola, os meus pais decidiram que o melhor para mim era ir estudar para a Escola Profissional de Música de Viana do Castelo e foi a partir daí que a minha ligação à música ficou mais séria.
Depois de entrar na escola em Viana ingressei na Banda Lanhelense e digamos que foi assim que tudo começou.
Tal como acontece com muitas famílias em Lanhelas, a minha também tem uma enorme ligação à música, nomeadamente o meu falecido pai, as minhas irmãs e os meus primos.

JC – Com essas ligações familiares à música digamos que era quase inevitável não se cruzar com ela.

LC – Sim é verdade e esse era um grande sonho do meu pai, aliás ele tentou várias vezes e inclusive matriculou-me na escolinha da Banda mas eu não estava para aí virado.
Para dizer a verdade só aos 15 anos é que a música se torna para mim numa coisa mais séria também um pouco por influência familiar.

JC – E está arrependido de ter seguido esta área?

LC – Absolutamente nada.

JC – Que instrumento ou instrumentos toca?

LC – Comecei com o trompete e depois, por razões ligadas à profissão, também fiz bastante piano. Fui obrigado a estudar piano porque é de facto uma ferramenta essencial para quem se dedica à direção de orquestra.

JC – Quando é que decidiu que aquele que não foi de todo um amor à primeira vista, viria a ser a sua carreira profissional?

LC – A minha decisão foi um momento muito engraçado e está ligada a uma conversa que um dia tive com o meu pai e que eu gostava de partilhar com os leitores.
Eu tive a sorte de ter uns pais que sempre me apoiaram muito e que sempre quiserem o melhor para os filhos. Depois também tive um professor excelente, o professor Paulo Silva, que era também um excelente pedagogo, que teve a capacidade de me despertar o interesse pela música e fazer com que seguisse esta carreira.
Mas voltando à história, um dia o meu falecido pai teve uma conversa comigo que nunca mais me vou esquecer. Ele dedicava-se à construção civil e um dia disse-me: “meu filho se puderes ganhar a vida com o bico e não com o pico, aproveita”.
Honrando o seu trabalho que era bastante duro, eu retive estas palavras e segui o conselho do meu pai dedicando-me à música e fazendo dela a minha carreira.

JC – Foi difícil?

LC – Sim porque as condições nem sempre são as ideais. É um trabalho muito psicológico, difícil mas nada comparado com outras profissões mais duras, em que temos quer trabalhar ao frio ou ao calor, como eu vi o meu pai fazer durante toda a vida.

foto coro

JC – Imagino que chegar até aqui, com uma carreira reconhecida não só a nível nacional mas também internacional, não tenha sido fácil.

LC – É verdade mas isso acontece em todas as áreas. Repare se ficarmos em casa comodamente sentados no sofá, podemos ter a certeza absoluta que nada nos vem ter a casa.
É obvio que estamos a afalar de muito trabalho, muita luta, muitas horas de estudo e dedicação. Temos que fazer muitos cursos e muitas máster classes.
Por outro lado estamos a falar de um trabalho que está muito exposto e tudo o que fazemos é analisado ao pormenor pelo público que é o nosso maior júri. Se nós não conseguirmos arrancar das pessoas que nos estão a ver um aplauso, então é porque algo não está bem. Mas isto também acontece noutras áreas.

JC – Neste momento a sua atividade profissional está exclusivamente liga à música?

LC – Sim neste momento a minha vida profissional está apenas ligada à música. Infelizmente e devido à situação sanitária que estamos a viver, neste momento está tudo muito parado e as ajudas e apoios também não são suficientes. Estamos demasiado parados e o que podemos fazer é quase nada. Podemos trabalhar com grupos pequenos mas isso implica separar as pessoas o que nem sempre é viável. Por exemplo uma Banda de Música com 50 elementos neste momento nunca poderia trabalhar a cem por cento, teria que ser com um número mais reduzido o que não é muito bom.
Depois nós trabalhamos para um fim que é dar espetáculos, algo que neste momento também está parado.

JC – Como é que viveu os 3 meses de confinamento, sem poder estar com os músicos os alunos e sem espetáculos?

LC – Foi muito complicado. É muito tempo sem podermos fazer o nosso trabalho e eu neste momento tenho sede de palco, de estar com gente e mostrar o nosso trabalho.
É claro que durante este tempo fomos procurando outros meios mais virtuais mas não é a mesma coisa. Tentei manter o contato com todos os artistas que trabalham comigo, apanhar várias ideias, fazer concertos virtuais na tentativa de suavizar este golpe tão forte pelo qual todos estamos a passar, principalmente na nossa área.

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JC – Vamos agora falar do prémio que recebeu recentemente, sei que não foi o primeiro.

LC – Não, felizmente não foi. Julgo que este é o oitavo prémio que recebo. Já recebi vários nacionais e internacionais. Em Espanha recebi um 1º prémio de maestros, ganhei outro 1º prémio e medalha de ouro em Vilhena, diplomas de honra em Aspen e agora este a nível mundial. Este prémio posso dizer-lhe que foi algo totalmente novo para mim.

JC – Porquê?

LC – Porque normalmente quando participo num concurso faço a inscrição e depois participo de forma presencial. Desta vez e por causa da Pandemia não foi assim. Tive que enviar um vídeo que foi sujeito à votação do publico e de um júri rigoroso e de renome mundial que o selecionou para ser votado. Digamos que foi um concurso muito mais mediático em que tive a sorte de vencer o prémio do público e ser considerado também o melhor de Portugal. Foi muito gratificante.

JC – O que representa para si vencer um concurso destes.

LC – Digamos que vencer um prémio deste género representa uma mais valia para o meu trabalho. Sinceramente aquilo que eu procuro não é o reconhecimento, claro que fico super feliz por ganhar, mas mais importante do que isso é perceber que isto é um teste à minha capacidade profissional. É uma forma de eu testar o meu trabalho e pô-lo à prova perante profissionais com uma carreira profissional reconhecida mundialmente. Isso é uma grande satisfação pessoal.
Perante os que trabalham comigo também é importante porque isto prova que estamos a fazer algo bem feito.

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JC – Imagino que seja uma pessoa que gosta de música.

LC – Adoro música dos mais variados estilos, adoro desporto, adoro estar com a família e se esta Pandemia teve alguma coisa de bom, foi sem dúvida dar-me a oportunidade de estar mais tempo com a minha família e com as pessoas que gosto e fazer coisas que anteriormente era quase impossível fazer por falta de tempo ou por estar longe.
A música é a minha forma de vida e não me imagino sem ela. É uma sorte poder subir a um palco e perceber que aquelas pessoas que estão na sala ou no auditório vieram de proposto para assistir ao nosso espetáculo e nos vieram aplaudir. Isso é de facto maravilhoso e é um privilégio fantástico.

JC – Se tivesse que dar o conselho a uma criança ou a um jovem que quer seguir uma carreira musical, o que lhe diria?

LC – O meu primeiro conselho vai para os pais. Acho que não devem forçar as crianças a gostarem de música, é algo que tem que partir delas.
Aos jovens diria que a partir do momento em que optam por estudar música, devem dar o seu melhor porque nunca se sabe o que poderá estar escondido. Todos nós valemos para algo sempre e quem sabe se não será a música?
A música traz-nos muita coisa boa e para exemplificar vou contar uma pequena história. Tive um aluno que hoje já é adulto e não seguiu a carreira da música que um dia se chegou ao pé de mim, já formado, e me veio agradecer os anos que tínhamos passado juntos, anos esses que segundo ele foram muito importantes para o sucesso da carreira dele como engenheiro agrónomo. Na altura perguntei-lhe o que é que uma coisa tinha a ver com a outra e ele respondeu-me que tinha tudo porque tinha sido graças à música e ao contato com o público que ele tinha desenvolvido capacidade e à vontade para se apresentar em público e isso tinha sido muito importante na hora de defender a tese de final de curso.

JC – Apesar de caminharmos para uma certa normalidade, a verdade é que o futuro ainda é incerto. Enquanto pessoa ligada à música e ao mundo artístico, como perspectiva os próximos tempos?

LC – Eu acho que não está fácil e o meu maior receio é que quando esta situação começar a suavizar um pouco as pessoas ganhem demasiada liberdade e façam asneiras.
Quando tudo isto recomeçar acho que não vai ser igual porque vai haver muitas limitações.
Por exemplo uma orquestra, que é a minha área, obriga a um determinado distanciamento e isso não é muito bom. Para um maestro estar a dirigir com máscara é muito complicado porque a nossa ferramenta são as mãos, o corpo e a cara e se temos esta barreira à frente é muito difícil.
No entanto também acho que se as pessoas tiverem um pouco de consciência, calma, e cuidado, mais tarde ou mais cedo voltaremos à nossa vida normal, aos beijos e aos abraços.

JC – Lourenço Cruz, como Maestro e pessoa ligada à música, até onde gostaria de chegar?

LC – Para mim não existe uma meta definida. É obvio que vou continuar a dar o melhor de mim e a tentar superar-me, mas sinceramente acho que vou morrer sem saber o que é a música. A minha exigência para comigo é fazer sempre algo diferente.

JC – Tem algum compositor de referência ou que goste particularmente?

LC – Tenho vários, muitos, mas para destacar um escolho Beethoven. Para além de ser um excelente compositor, considero que é o pai da música.

Cidália Aldeia
Cidália Aldeia
Chefe de Redação
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