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Quarta-feira, 30 Novembro, 2022
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Guimarães Jazz chega à sua 31ª edição a 10 de Novembro

Aproxima-se um tempo marcadamente singular na cidade de Guimarães, para todos os que neste berço habitam e todos os que a visitam, amantes de música e do universo jazzístico ou não. Um tempo com datas marcadas para o período de 10 a 19 de novembro, mas cuja energia – especialmente potenciada nesta altura – nunca se resume a um pedaço temporal fechado, numa cidade que já incorporou geneticamente a frequência desta música chamada jazz, e que nesta 31ª edição do festival se vai expressar no Centro Cultural Vila Flor (CCVF) e no Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG) ao longo de 12 concertos, jam sessions e oficinas de jazz.

Tudo, na companhia de nomes como Dianne Reeves, Archie Shepp, Benjamin Koppel, Anders Koppel, Martin Andersen, Hamid Drake, Manuel de Oliveira, Jorge Pardo, Carles Benavent & Orquestra de Guimarães, David Murray, Victor Garcia, Orquestra Jazz de Matosinhos & Ethan Iverson e David Virelles, entre outros. Ela está aí. Bem-vindos à 31ª edição do Guimarães Jazz.
Cumpridos trinta anos de celebração e divulgação de uma das mais importantes e influentes expressões musicais do século XX, o Guimarães Jazz encontra-se atualmente numa posição em que a sua avaliação crítica se define não apenas em função dos programas apresentados em cada edição, mas também, e sobretudo, a partir do prisma da sua evolução no tempo.
“Ao longo do seu percurso, o festival optou sempre por recusar uma postura programática ou doutrinária, preferindo, pelo contrário, adotar o princípio da improvisação, ele próprio uma matriz distintiva das origens do jazz, por forma a assim se inscrever em tempo real no fluxo da história – ora acompanhando-a, ora contrariando-a, mas sempre assumindo as contradições inerentes a tal estratégia.”, tal como assinala Ivo Martins, programador do Guimarães Jazz.

Nesse sentido, no Guimarães Jazz a revisitação da herança do jazz é sempre realizada, e este ano não será exceção, sob o ponto de vista do diálogo com as múltiplas e diversas formas vivas que o mesmo assume na contemporaneidade –, seja reafirmando a sua pertinência dentro do fluxo, seja colocando-a em contraponto com as tentativas de a questionar e ultrapassar.

Archie Shepp é por inúmeros motivos o artista-âncora da edição de 2022 do festival. Uma análise do percurso deste monumental saxofonista revela-nos aquele que foi não apenas um dos precursores do free jazz, mas também um dos mais influentes exploradores das vias evolutivas mais relevantes que se abriram na música após o big bang estético ocorrido na década de sessenta do século XX. Sete anos após uma primeira atuação (memorável) em Guimarães, Shepp regressa ao festival (11 novembro, 21h30) acompanhado do seu New Quartet, uma formação invulgar sem bateria e organizada em torno de um núcleo de piano e contrabaixo (os notáveis Pierre-François Blanchard e Michel Benita) complementado pela voz de Marion Rampal, oferecendo assim ao público do festival a possibilidade de testemunhar ao vivo a arte musical de um dos nomes maiores da história do jazz.

A presença da voz (que curiosamente se repete em vários concertos deste programa, porventura o sintoma de retorno a um jazz com ambições narrativas), constituirá a marca dominante do concerto inaugural da edição de 2022 do Guimarães Jazz. Na paisagem estelar do jazz vocal contemporâneo, poucas artistas atingiram um estatuto semelhante ao de Diane Reeves, cuja carreira musical foi recentemente homenageada com a atribuição do Jazz Legends Award e que é geralmente considerada pela crítica como a herdeira do legado de vozes poderosas do passado como as de Sarah Vaughan ou de Ella Fitzgerald. Em Guimarães, Reeves atuará em quinteto (10 novembro, 21h30), acompanhada por grandes instrumentistas do jazz contemporâneo, entre eles o contrabaixista Reuben Rogers.

Outra mulher incontornável da música da segunda metade do século XX, a harpista Alice Coltrane, será o centro do espetáculo “Turyia” criado por Hamid Drake, um percussionista virtuoso, cúmplice de nomes epicentrais da música contemporânea e seguidor, tal como a própria homenageada, de um jazz espiritual de inspiração não-ocidental. Neste concerto idiossincrático dedicado à celebração do espírito de uma compositora cuja música continua a ecoar pelas diferentes gerações (12 novembro, 21h30), Drake surgirá integrado num ensemble instrumentalmente invulgar e eclético de músicos norte-americanos e europeus (entre eles o reputado teclista nova-iorquino Jamie Saft), expandido pela presença da dançarina Ndoho Ange.

A completar o núcleo de concertos de grande perfil, o grande saxofonista David Murray apresentará uma nova versão do seu icónico Octeto (18 novembro, 21h30), uma formação marcante das décadas de 1980 e 1990 e que na sua encarnação original integrava músicos fenomenais como Henry Threadgill ou Butch Morris. Em 2022, o Octet Revival de David Murray surge num alinhamento renovado e instrumentalmente complexo, que inclui o já mencionado Hamid Drake, a emergente saxofonista Tamar Osborn e o contrabaixista Brad Jones, bem como vários músicos de ascendência latino-americana.

O estreitamento das relações do festival com a comunidade configura uma estratégia de longo alcance, sustentada num movimento orgânico de duplo sentido em que o Guimarães Jazz contribui para o alargamento do papel social das instituições, ao mesmo tempo que estas permitem a sua renovação e transmissão do seu testemunho futuro. Assim sendo, a vertente orquestral da edição deste ano, um elemento tradicionalmente importante nos programas do Guimarães Jazz, é em 2022 representada por duas orquestras portuguesas situadas em patamares distintos de crescimento, mas ambas representativas da evolução do panorama jazzístico português.

A Orquestra Jazz de Matosinhos é hoje considerada uma instituição exemplar pelo cruzamento que promove das dimensões criativa e pedagógica da música, e encerrará esta edição com o projeto “Jazz in the Space Age” (19 novembro, 21h30). Este espetáculo, devotado à reinterpretação do álbum homónimo de George Russel, apesar de não ser inédito terá a particularidade de contar com a participação de dois excelentes instrumentistas da cena jazzística norte-americana contemporânea, os pianistas David Virelles e Ethan Iverson, como solistas.

Por seu turno, a Orquestra de Guimarães, tal como tem acontecido nos últimos anos, volta a marcar presença no programa (17 novembro, 21h30), desta vez num concerto em que se celebram os vinte anos da edição do influente álbum “Ibéria” do guitarrista Manuel de Oliveira, em parceria com dois dos grandes nomes do jazz espanhol: Carles Benavent e Jorge Pardo.

 

Também a Big Band da ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo) está de regresso ao festival, e aqui criará e interpretará um concerto dirigido por Victor Garcia (13 novembro, 17h00). Finalmente, para além das habituais colaborações com os coletivos Porta-Jazz (o projeto “matriz_motriz”, do guitarrista Mané Fernandes) (13 novembro, 21h30) e a Sonoscopia (que apresentará o duo de Will Guthrie com David Maranha) (16 novembro, 21h30), este ano o Guimarães Jazz inaugura uma nova parceria com o Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro (15 novembro, 21h30), que distingue anualmente uma formação de jazz português – distinção este ano concedida ao projeto THEMANUS.

Para finalizar, e tal como sempre acontece todos os anos, os concertos do festival serão acompanhados em paralelo pelas jam sessions – a decorrer no Café Concerto do CCVF (10 a 12 novembro, 00h-02h) e no Convívio Associação Cultural (17 a 19 novembro, 00h-02h) – e as oficinas de jazz (14 a 18 novembro, 14h30-17h30), desta vez lideradas e dirigidas por Victor Garcia, trompetista da cena jazzística de Chicago que atuará também com o seu Victor Garcia Group no Pequeno Auditório do CCVF (19 novembro, 17h00), sala onde também ocorrerá o concerto do único representante do jazz europeu desta edição de 2022: o trio dos dinamarqueses Benjamin Koppel, Anders Koppel e Martin Andersen (12 novembro, 17h00).

 

A dimensão coletiva que o festival atinge pelo cruzamento de diferentes experiências da música reflete tão bem ou melhor do que os grandes concertos a filosofia do Guimarães Jazz porque nela se revela o otimismo e a esperança que o espírito do jazz pretende propagar, razão pela qual nunca é demais realçar a vertente convivial como elemento crucial de vivência plena do Guimarães Jazz.

 

“No jazz tudo ocorreu muito rapidamente, e o seu percurso inscreveu-se na narrativa histórica no espaço de poucas décadas. O jazz parece ser uma música urgente, uma arte feita e desenvolvida a destempo, vivida numa vertigem ou na pressa de ser ouvida anteontem. A velocidade é o principal leitmotiv desta música – no jazz o tempo escapa.” (Ivo Martins)

 

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