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Sábado, 19 Setembro, 2020
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Conversas de Caminha: A incrível história de Santa Tecla (Pt. 1)

Se a história do Duque de Caminha dava uma série da Netflix, a vida de Santa Tecla daria uma daqueles filmes épicos em que a heroína vence sempre com a sua graça e conquista todos com a sua beleza.

A incrível história de Santa Tecla, foi escrita há cerca de dois mil anos, num dos chamados evangelhos apócrifos” (porque atribuídos a autores que de alguma forma se desacreditaram no primeiro concílio da igreja – Concílio de Niceia (325 d.c.).

Trata-se de uma das histórias que mais difusão teve nos primeiros séculos do Cristianismo, existindo diversas versões da mesma (em Grego, em Copta, em Sírio, em Árabe, em Arménio, em Latim, etc.).

Recuperar a história de Santa Tecla é também procurar iluminar a primeira grande mulher que de alguma forma foi apagada da história da fundação do Cristianismo, ainda que lhe tenha sido reconhecido o especialíssimo estatuto de igual aos Apóstolos. Estatuto que lhe foi atribuído pelo Apóstolo por excelência, São Paulo de Tarso, por quem se apaixonou e a quem terá seguido e por quem terá pregado.

Estamos a falar do primeiro século do Cristianismo. Tecla terá nascido por volta do ano 35 d.c., enquanto que Paulo ter-se-á “incendiado de fé” na sua Estrada de Damasco, muito provavelmente na mesma altura, por volta do ano 36 d,c,.
Ou seja, praticamente em simultâneo com a morte de Jesus, Tecla nasce e São Paulo recebe o desígnio que o passou a iluminar e a guiá-lo na pregação a que incessantemente se votou desde então, até ao ano da sua execução em Roma (67 d.c.).

Se para muitos, São Paulo repete Jesus, em homem, Tecla replicaria Maria Madalena em mulher. Durante séculos foi venerada em distantes regiões do seu país de origem (Turquia), existindo hoje um fortíssimo culto a Santa Tecla em Tarragona, na Rússia, na Síria (onde terá morrido) e aqui, no Monte de Santa Tecla.

A história de Tecla é contada num dos evangelhos mais referidos pelos chamados Pais da Igreja, conhecido por “Actos de Paulo e Tecla”, Os factos iniciam-se na cidade de Icônio, cerca de 53 d.c. quando Tecla tinha 18 anos

Ainda hoje se discute se São Paulo terá chegado a pregar na Península Ibérica (o que poderia implicar que Tecla também por aqui tivesse estado, já que o acompanhou por diversas vezes nas suas viagens).

O Monte de St.a Tecla, designada por Trega na Galiza, é desde tempos imemoriais dedicado a Santa Tecla (onde tem uma Capela a si consagrada), realizando-se no dia de Santa Tecla, uma das mais importantes e intensas festividades religiosas/populares desta região (Minho e Galiza).

Para traduzir e narrar a história socorri-me de duas traduções: uma do árabe para inglês, outra do grego para francês, procurando conservar a clareza do texto e tanto quanto possível manter a correspondência dos vocábulos, excepto quando não me soavam bem ou tornavam incompreensível o seu sentido “natural”.

Actos de Paulo e Tecla

Depois de fugir de Antioquia e da batalha que nessa cidade teve lugar, Paulo subiu em direcção à cidade de Icônio. Juntaram-se-lhe na viagem os seus discípulos Demas e Hermógenes, o ferreiro. Hipócritas que simulando verdadeiro interesse o interpelavam durante as suas orações. Paulo, cheio de bondade, nada fez contra eles antes procurou com doçura iniciá-los na palavra de Cristo.

Em Icónio vivia um homem chamado Onesiphorus. Quando soube da iminente chegada de Paulo, foi procurá-lo , com os seus filhos Símias e Zenon juntamente com a sua mulher Léctra, de maneira a oferecer-lhe hospitalidade.

Titus tinha descrito a Onesiphorus o aspecto de São Paulo, já que este jamais o tinha visto.

Caminhou então Onesiphorus ao longo da Estrada Real em direcção a Lystra, procurando quem se assemelhasse a Paulo, observando todos os que passavam por ele e que pudessem corresponder à descrição dada por Titus. Finalmente viu Paulo aproximar-se: um homem baixo, calvo, de pernas sofridas, arqueadas, com uma testa alta, sobrancelhas unidas, nariz aquilino, olhos grandes, todo ele cheio de graça e luz: umas vezes tinha a expressão dos humanos, outras o seu rosto irradiava a luz dos anjos.

Quando Paulo viu Onesiphorus, sorriu e exclamou alegremente:

– “A paz esteja contigo e com os teus filhos.”.

Convidou-o então Onesiphorus a ficar em sua casa. Foi então que Démas – que , com Hermógenes, ouvira o convite feito a Paulo que a ambos provocara íntimo ciúme – exclamou:

– “Sendo nós igualmente servos do Abençoado, porque razão não nos convidaste também?”.

Onesiphorus respondeu dirigindo-se a ambos:

– “Não vejo em vós nenhuma qualidade, se porém alguma tiverem, então venham também para minha casa e descansem.

Foram então todos para a casa de Onesiphorus, onde reinava um ambiente de festa e alegria, rezando-se e partindo-se o pão. Começou então Paulo a sua prédica, transmitindo aos presentes a palavra de Deus sobre a pureza (castidade) e ressurreição, dizendo-lhes:

– “Abençoados são os puros de coração, porque serão herdeiros de Deus.
Abençoados são os que renunciaram a este mundo, porque serão herdeiros de Deus. Abençoados são todos aqueles que tendo mulher vivem como se não a tivessem, porque herdarão a Terra.
Abençoados são os que temem a Deus, porque são iguais aos anjos.
Abençoados são aqueles que temem a Deus, porque eles serão purificados. Abençoados são aqueles que adoptaram para si mesmos o timbre de Jesus Cristo, porque serão chamados filhos de Deus.
Abençoados são os baptizados, porque descansarão nas mãos do Pai do Filho e do Espírito Santo.
Abençoados são aqueles que interiorizaram o ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque eles serão como anjos e sentar-se-ão à direita de Deus.
Abençoados são os misericordiosos, porque receberão misericórdia e não assistirão ao doloroso julgamento final.
Abençoados sejam os corpos das virgens, porque agradarão a Deus e s sua pureza não será destruída. A Palavra de Deus habitá-los-á e serão salvos no dia da aparição do Filho, descansando para toda a eternidade, ámen.”.

Enquanto Paulo pregava assim a palavra de Deus no meio da assembleia formada na casa de Onesiphorus, uma rapariga, uma virgem chamada Tecla – noiva de um homem chamado Tamiris – ouvia-o sentada numa das arcadas da sua casa que ficava ao lado da casa de Onesiphorus. Quando Tecla se sentou na arcada e começou a ouvir Paulo a falar sobre a pureza e a oração, o seu coração passou a gravitar naquela espiritualidade. A sua alma passou a ânsiar por Deus e o seu coração sentia tal prazer com as palavras de Paulo que permaneceu sentada naquela arcada durante três noites, escutando-o. Em momento algum saiu do lugar onde se encontrava, sequer para comer ou beber. Esqueceu-se de tudo, como se tivesse adormecido, como efeito da intensidade do desejo de Deus que então começou a sentir.

Durante esse tempo Tecla viu muitas mulheres e até virgens, dirigirem-se a casa de Onisephorus, para ouvir Paulo, passando a sentir ansiosamente o desejo de ouvi-lo na sua presença, já que não tinha visto ainda o rosto de Paulo mas apenas escutado a sua voz.

Quando a sua mãe Theocleia a viu assim, mandou chamar o noivo de Tecla, Tamiris. Quando Tamiris chegou, feliz da vida, estranhou não encontrar Tecla e, dirigindo-se à sua mãe disse:

– “Onde está Tecla, minha futura mulher, que não a encontro?”

Respondeu-lhe Theocleia:

– “Desde há três dias e três noites que Tecla tem estado sentada nas arcadas, sem comer e sem beber o que quer que seja e sem que se lhe tenha ouvido uma só palavra. Está como bêbada de alegria, com o seu coração suspenso nas palavras de um homem estranho que na casa de Onisephorus está a ensinar às pessoas palavras enganosas e artificiosas. Ela está de tal forma presa àquele homem estrangeiro que estou surpreendida que o grande pudor de uma rapariga possa ser abalado de tal forma que dá pena.

Este homem seduziu a tua mulher Tecla e todas as mulheres da cidade. Elas vão ter com ele de quem aprendem a temer apenas o seu Deus e a viver em castidade. Tecla, a minha filha, está como uma aranha preta presa às arcadas, cativa dessa pessoa. Uma vã paixão por ele arrebatou-a, assim como um desejo destrutivo. Ela fica ali sentada, a ouvir as palavras dele e entra em transe de alegria.. “Está perdida. Vai ter com ela, fala-lhe, porque ela é a tua mulher.”

E Tamiris foi e quando a viu assustou-se com a graça de Deus que a tocava e com o amor extremo que sentiu por ela. Disse-lhe Tamiris:

– “Tecla, minha prometida. Porque estás assim sentada à janela? Que desejo te possui assim? Olha para mim. Sou Tamiris, o teu noivo. Tem ao menos vergonha por mim e pela tua mãe.”

Nessa altura a mãe de Tecla diz-lhe:

– “Minha filha, Tecla, encara o teu noivo. O que é que se passa contigo? Estás aí, de olhar perdido no chão. Não nos respondes de todo, antes pelo contrário, continuas aí sentada e o teu coração já não está cá.”

Na casa de Tecla estavam outras pessoas que também se perguntavam:

– “O que é que se está a passar entre nós?”
– “Esta tristeza vem da recusa de Tecla em casar-se com o seu noivo.
Theocleia, o noivo e todos os servos estavam todos muito tristes. Tudo porque Tecla não queria casar com Tamiris.”

Uma enorme tristeza desceu sobre aquela casa, ainda por cima quando Tecla continuou sem os olhar ou responder, antes permaneceu colada à arcada, ouvindo Paulo com um inconcebível desejo.

E todos choraram amargamente. Tamiris porque perdera a mulher, Theocleia, a sua filha e os jovens escravos, a sua protectora..

Quando o noivo percebeu que Tecla não se voltaria para ele, saiu para a rua, onde ficou a observar os que entravam e saiam do lugar onde Paulo continuava a falar.

Reparou então em dois homens que discutiam entre si, a quem se dirigiu dizendo-lhes:

– “Quem são vocês e quem é esse sedutor com quem acabaste de estar. Quem é esse que corrompe a alma dos jovens e das virgens, de forma a que não queiram casar e passem a querer manter-se tal como estão? Prometo compensar-vos generosamente se me falarem desse homem, porque sou dos primeiros desta cidade.”

Demas e Hermogenes ter-lhão respondido:

– “Quem ele seja não sabemos, sabemos sim que ele separa os jovens das mulheres e os homens das virgens, dizendo-lhes: <<Não poderá haver ressurreição sem castidade; em vez de contaminarem a vossa carne deveis mantê-la pura.>>.

Tamiris ter-lhes-á dito então:

– “Venham a minha casa e descansai comigo”.

Entraram então em casa de Tamiris que lhes preparou um sumptuoso jantar, para ser servido na mesa brilhante. Trouxe então o melhor vinho e fê-los beber, na esperança de ouvir deles o modo como poderia recuperar a sua amada Tecla. Disse-lhes Tamiris durante a refeição:

– “Expliquem-me a sua doutrina, de forma a que também eu a possa conhecer. O meu sofrimento é grande porque Tecla ama mais as palavras desse estrangeiro que me ama a mim, privando-me do casamento e transformando-me num estranho para minha própria mulher.”

Caminha, 16 de Julho de 2020

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