Em 9 Março, 2012 Por Em Empreende +, Podcasts, Rubricas - Artigos

Calçada de Sá – “digo sempre que sou de Caminha”

 

Natural de Caminha, onde viveu até à idade adulta, partiu para o mundo, qual futebolista, em busca do sonho de “jogar numa equipa grande”. Trabalhou em Portugal e em diferentes países como Itália, Argentina e Brasil, mas foi na vizinha Espanha, que se habituou a espreitar desde pequeno da janela de sua casa na freguesia de Venade, que encontrou o caminho. António Calçada de Sá, é hoje, aos 49 anos de idade, Director-geral da rede Repsol, administrador de várias empresas do grupo ou participadas, e presidente e administrador-delegado da Repsol Portuguesa. No passado mês de Fevereiro recebeu o prémio de Gestor Ibérico do ano 2010-11 atribuído pela Câmara de Comércio e Indústria Luso Espanhola – CCILE.

António Calçada de Sá agradece e partilha o prémio com as suas 3 equipas: Colaboradores em Portugal e em Espanha e a sua família. Calçada de Sá traz Caminha no coração e faz questão de o dizer a todos quantos o conhecem.

Jornal Caminhense J.C. – Proponho-lhe um pequeno exercício de memória para recordar um pouco a sua infância em Caminha.

António Calçada de Sá (A.C.S.) – Eu tenho recordações muito interessantes e muito bonitas da minha infância quer em Venade, quer em Caminha ou até mesmo em Viana do Castelo. De facto, foi uma infância muito interessante onde eu penso que fiz tudo aquilo que fazem as crianças com uma determinada idade e os adolescentes. Estudei – e como estudante fui talvez um dos melhores da zona na altura – joguei futebol, toquei música em vários conjuntos. Enfim diverti-me bastante e posso dizer que tive uma infância e uma adolescência muito bonitas com as melhores recordações.

J.C. – Portanto, boas bases para aquilo que é hoje…

A.C.S. – Eu não sei se são boas bases. O que eu lhe posso dizer é que na minha opinião tive uma educação muito boa e muito sólida, tanto em valores como na aprendizagem daquilo que é cultura de esforço, de vontade e de saber o que se quer. Isso sim, eu posso dizer que herdei integralmente da minha família e muito concretamente da minha mãe.

J.C. – É interessante perceber que esta sua ligação a Espanha, hoje com uma carreira muito ligada ao país vizinho, já vem desde pequeno.

A.C.S. – Isso é verdade e eu até costumo dizer que de pequenino via Espanha da janela do meu quarto. Para mim Espanha era uma continuação da minha terra, faziam parte do mesmo contexto. Aliás, eu aprendi a falar castelhano sem professor, aprendi através do contacto e pelas vezes que íamos a Vigo, Tui ou à Corunha. Resumindo a minha proximidade a Espanha foi muito natural e desde muito pequeno. Depois o destino quis que ficasse ainda mais próximo do país vizinho – a minha mulher é espanhola e tenho um filho espanhol nascido em Madrid. Também tenho uma filha que nasceu no Brasil e um mais pequeno nascido em Buenos Aires, na Argentina.

J.C. – Quando é que aconteceu essa saída para o mundo?

A.C.S. – Fiz o liceu em Viana do Castelo e depois fui para Lisboa onde fiz o curso de engenharia química no Instituto Superior Técnico. Quando estava a terminar o curso no Técnico fui contratado pela ESSO portuguesa.

J.C. – Soube sempre o que queria? Isto é, a sua carreira foi programada desde cedo ou foi acontecendo?

A.C.S. – Posso dizer que foi acontecendo, muito embora eu sempre tivesse tido o sonho de “jogar numa equipa grande”, usando a gíria do desporto. Sempre sonhei jogar numa equipa grande e num país grande e talvez por essa vontade e por essa decisão as coisas se tenham alinhado. Muitas vezes as vontades encontram-se com o destino e o destino com as vontades.

J.C. – E qual Cristiano Ronaldo está neste momento em Madrid…

A.C.S. – (Risos) Essa foi muito gira, por acaso até vivemos perto.

J.C. – Acompanha a carreira dele?

A.C.S – Sim, acompanho. É um caso de sucesso e temos muitos não só no desporto como noutras áreas. Temos talentos na banca, nas telecomunicações, na consultoria, no mundo empresarial, enfim, em muitos sectores. Julgo que em Portugal temos que apostar e desenvolver mais os nossos talentos. Eu costumo dizer que devíamos deixar de jogar mais à português, tocar menos a bola a meio campo e rematar mais à baliza.

J.C. – Considera que Portugal desperdiça os seus talentos obrigando-os muitas vezes a sair do país?

A.C.S. – Eu julgo que não é tanto uma questão de desperdício mas sim de oportunidades. E as oportunidades surgem quando surgem e muitas vezes os talentos que nós temos acabam por procurar o lugar em função da oportunidade de momento. Não há uma regra de ouro para isso. O que acontece é que por vezes é necessário viver em espaços mais amplos e em mercados mais importantes para encontrar aí as oportunidades e o desenvolvimento das carreiras na Europa e fora dela.

J.C. – A propósito do prémio que lhe foi atribuído disse, numa entrevista recente, que sempre foi um iberista. Quer desenvolver essa ideia?

A.C.S – Eu, de facto, tenho convicções muito fortes em termos do valor que Portugal e Espanha têm juntos. Para mim, Portugal e Espanha, ou seja a região ibérica, é per se uma região económica com valor, com interesse, com talento, com empresas e até com uma certa dimensão. Acho que Portugal e Espanha fazem muito mais quando estão juntos do que quando estão separados. É como se três mais dois fosse mais do que cinco, percebe? Tenho, de facto, convicções muito fortes relativamente àquilo que eu acho que deveriam ser as políticas, as vontades e os interesses empresariais mais convergentes. Julgo que isto seria válido no mundo das empresas, no domínio fiscal, nos mercados ibéricos que podiam ser de energia, logístico, das infra-estruturas ou dos transportes. Enfim, penso que a região ibérica por si só já é uma boa plataforma não só para o resto da Europa, mas também para a África e para o resto do mundo, concretamente para o Brasil. Acredito e tenho uma grande convicção relativamente ao potencial que Portugal e Espanha têm juntos.

J.C. – Acredita, portanto, que o futuro da região ibérica poderá passar por uma aproximação ainda maior.

A.C.S. – Eu julgo que ela é inevitável, acho mesmo que não temos opção. E, sabe, por outro lado eu não entendo que nos declaremos europeístas e que antes não nos declaremos ibéricos. Em primeiro lugar, somos portugueses, depois somos ibéricos e, por fim, europeus. Só assim é que faz sentido e julgo que Portugal e Espanha não têm nada a ganhar se viverem de costas voltadas, como dois vizinhos que não se falam.

J.C. – Para si o que significa este prémio que acaba de receber?

A.C.S. – Olhe, para mim é algo que me enche de orgulho e também de responsabilidade. É um prémio que quero e devo partilhar com a minha equipa de direcção da Repsol Portuguesa e com a equipa portuguesa em geral. É um prémio que eu devo partilhar ainda com a equipa de direcção aqui em Espanha e com a melhor de todas as equipas que é a minha família. Dito isto não poderia esquecer ainda um agradecimento muito especial para todas aquelas pessoas que ao longo da minha carreira me ajudaram, quer em Espanha, quer no Brasil ou na Argentina, e que foram muitas. O prémio é um reconhecimento muito bonito que me faz sentir muito honrado e muito feliz e, por isso, também gostaria de o partilhar com todas as pessoas com quem de menino brinquei na nossa terra. Gostaria ainda de acrescentar que estes prémios não são de uma pessoa, são prémios das equipas e resultados de lideranças partilhadas.

J.C. – Considera que já atingiu o topo da carreira ou acha que ainda há mais degraus para subir?

A.C.S. – Olhe, eu acho que o êxito das empresas, o sucesso na vida e nas famílias não está na estratégia mas, sim, na implementação e no dia a dia. Se há mais degraus ou não para subir, eu penso que isso é uma missão que se trava diariamente, e sinceramente, não estou minimamente preocupado em saber se existem ou não ainda mais degraus. Para mim, o importante é o dia a dia, a cultura de trabalho, de esforço e de valor. Saber partilhar as coisas, ter vontade, apoiar e liderar as equipas com decisão e com energia.

J.C. – Essa construção diária ainda lhe dá tempo para de vez em quando vir até Caminha?

A.C.S. – Dá e eu devo dizer-lhe que eu e a minha família temos como objectivo conseguir passar pelo menos três momentos importantes no ano – Natal, Páscoa e Verão – aí. Quero muito que os meus filhos aprendam a gostar da terra que o pai ama. Depois das minhas voltas pelo mundo, estive quatro anos no Brasil, três na Argentina, agora em Espanha, devo dizer que cada vez gosto mais da minha terra e das pessoas da minha terra. A minha vontade é passar o máximo de tempo possível com os meus amigos e com a minha família, especialmente a minha mãe que é a pessoa mais importante do mundo. Enfim eu antes de dizer às pessoas que sou português, digo sempre que sou de Caminha. Na Repsol, que tem mais de 40 mil funcionários, uma percentagem muito alta sabe que eu sou de Caminha. Eu sinto-me daí.

Obstinado e com uma personalidade forte, António Calçada de Sá foi desde pequeno determinado.
Conta a mãe, Ana Calçada, que quando se lhe metia uma coisa na cabeça não havia quem o demovesse de levar a sua avante. Excelente aluno e hoje um homem de sucesso, este filho sempre foi o orgulho da mãe e dos avós que apesar de terem partido permaturamente ajudaram Ana Calçada a criar o filho.

“Ele era de tal maneira que a avó costumava dizer que ele já falava na barriga da mãe”. Tal era a sua esperteza. “Mal chegava a casa a primeira coisa que fazia era sentar-se e começar a fazer os deveres”, recorda Ana Calçada.

Mas o Sá, como é carinhosamente tratado pela família e amigos, tinha outros interesses. Diz a mãe que ele queria tudo.

“Jogar futebol, tocar música, queria tudo, e ser ele entedesse que era para fazer ninguém o convencia do contrário”.

Formado em engenharia quimica pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa, sonhou um dia ser médico.

“O meu filho sempre foi um excelente aluno, nunca perdeu ano nenhum. Desde a primária e até se formar foi sempre motivo de grande orgulho. Estudou até ao 12º ano em Viana do Castelo, depois foi para a Covilhã e finalmente para Lisboa. O sonho dele era ser médico mas como na altura não conseguiu média suficiente para entrar decidiu ir para química e felizmente correu bem”.

Basílio Barrocas, professor primário reformado, ainda hoje se lembra deste aluno de Venade que recorda como “um aluno exemplar, com uma educação acima da média”.

“Lembro-me bem que se não era o melhor, era de certeza um dos melhores alunos que eu tive em Venade. Destacava-se pelo seu comportamento, era uma criança com uma educação um bocadinho acima da média, muito cumpridor, respeitador, inteligente, aplicado e trabalhador. Lembro-me bem disso, não o vejo há muito tempo mas estas coisas não esquecem porque não é todos os dias que nos cruzamos com alunos como ele”.

António Calçada chegou lá acima e o professor perdeu-o de vista, sabe apenas que chegou a começar uma carreira na música.

“Já não o vejo há muitos anos, por acaso até gostava de o rever. Sei que depois também se dedicou à música e até chegou a tocar num grupo de Venade”.

Não fez carreira na música mas é verdade que tocou num conjunto de Venade, o “Seca Adegas”, que formou nos anos 80 com um grupo de amigos.

Manuel Carlos Falcão foi um dos que embarcou nesta aventura. Foram momentos de grande diversão que o advogado recorda com alguma saudade.

“Foi um projecto pensado pelo Sá e pelo António Bacelar, um amigo que temos em comum. Quando decidiram avançar com o grupo convidaram-me para o integrar e foram realmente momentos muito engraçados. O Sá já nessa altura se revelava um rapaz muito dinâmico, ele era efectivamente uma espécie de motor do próprio grupo, era o dinamizador, o individuo que estava para o bem e para o mal”.

Sem capitais próprios, era preciso arranjar dinheiro para as aparelhagens e para levar o projecto avante.

“Foi o Sá que com o seu dinamismo, com a sua vontade e com o saber de qual o caminho a percorrer, conseguiu levar por diante o projecto. Ele e o Bacelar foram por todo o lado e o que é facto é que conseguiram”.

E assim naceu o “Seca Adegas”, um nome curioso que garante Manuel Carlos Falcão, não tinha muito a ver com os elementos.

“Nós não eramos seca adegas”.

Os cinco elementos, dois de Seixas, um de Caminha e os restantes de Venade compunham o grupo.

“O conjunto era formado por mim, (Manuel Carlos Falcão) e pelo meu primo João Carlos que na altura também vivia em Lisboa. Depois era o Zé Miguel, o homem das teclas, o Bacelar que tocava viola e o Sá que era baterista, aliás um excelente bateristas. Eu cantava e às vezes, na ausência do João Carlos, também tocava baixo”.

Dos ensaios em casa do Sá, Manuel Carlos Falcão faz questão de enaltecer a paciência da D. Ana Calçada.

“Ela era uma santa que nos aturava o barulho e ainda tinha que acalmar os vizinhos”.

Dessa altura ficam as memórias de momentos bem passados e de grande diversão. Quanto ao “Seca Adegas”, ficou-se por umas duas dezenas de actuações.

“Nada mau”, garante Manuel Falcão. “O problema é que nós só tocávamos as músicas de que gostávamos e elas não se adequavam muito ao estílo de baile. Mas apesar disso ainda chegámos a fazer alguns em Venade, em freguesias aqui perto e até em Monção”, recorda.

Determinado, inteligente, leal e ambicioso no bom sentido, são os adjectivos que segundo Manuel Carlos Falcão melhor assentam a Sá. Por tudo isto e porque sempre acreditou que ele iria longe, não se mostrou nada surpreendido com o prémio que acaba de receber “Melhor Gestor Ibérico do ano 2010-2011”.

“Se me perguntar se tinha a certeza que ele iria receber um prémio, é claro que não tinha. No entanto quando soube que o recebeu fiquei muito satisfeito por ele mas nada surpreendido. Conhecendo-o como o conheço, é lógico que não me espanta”.

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Ana Peixoto