Quase três anos após a descoberta arqueológica ocorrida durante as obras de reabilitação do Forte da Lagarteira, recebi finalmente as primeiras respostas oficiais aos pedidos de informação que dirigi à Câmara Municipal de Caminha e ao Instituto do Património Cultural, I.P.

Recordo que, em 2023, o acompanhamento arqueológico realizado pela Empatia – Arqueologia, Conservação e Restauro Lda. revelou, na Praça de Armas do Forte, materiais do Paleolítico Superior com cerca de 15 a 20 mil anos de antiguidade — seixos afeiçoados, picos, pesos de rede e lascas. Esses vestígios transformaram uma intervenção de requalificação num momento de relevância científica para a história do litoral minhoto.
Da Câmara Municipal de Caminha, através do responsável técnico Dr. Sérgio Cadilhe, obtive a informação de que os artefactos foram estudados pela equipa que dirigiu a escavação, apresentam bom estado de conservação e se encontram atualmente depositados no Museu Municipal de Caminha. Quanto à criação de uma secção interpretativa dedicada à pré-história no Espaço de Memórias do Mar, a autarquia reconheceu que a ideia foi equacionada, mas não foi possível avançar devido a limitações de espaço e ao projeto de financiamento em curso.
Do Instituto do Património Cultural, I.P., recebi esclarecimentos de que o processo se encontra ainda em fase de reporte final junto da CCDR Norte, não tendo sido ainda remetido qualquer relatório para despacho final.
É nosso dever coletivo empenhar-nos no regresso do espólio
Estas respostas representam um avanço importante, mas não esgotam a nossa responsabilidade. Os materiais já se encontram no Museu Municipal de Caminha, o que é positivo. No entanto, considero que todos nos devemos empenhar no regresso destes artefactos a Vila Praia de Âncora, idealmente para exposição no próprio Forte da Lagarteira ou no Museu Municipal. Só assim poderemos reforçar o valor cultural e identitário do território e enriquecer a narrativa de longa ocupação humana deste lugar.
Defendo igualmente a criação, neste vale, de um espaço interpretativo dedicado à pré-história que enquadre não apenas os achados do Forte da Lagarteira, mas também outros testemunhos relevantes da nossa região, nomeadamente o Dólmen da Barrosa. Uma abordagem integrada permitiria contar a história completa da presença humana no litoral minhoto — desde o Paleolítico Superior até à contemporaneidade — enriquecendo o Espaço de Memórias do Mar e reforçando o seu papel cultural e turístico.
Estes artefactos são a primeira página da nossa história coletiva. Não podemos permitir que permaneçam guardados indefinidamente longe do território onde foram encontrados. Cabe-nos, enquanto comunidade, trabalhar em conjunto — autarquias, instituições do Estado, associações e cidadãos — para que o nosso passado milenar ocupe o lugar de honra que merece no presente.
Agradeço as respostas recebidas e mantenho-me disponível para colaborar em todas as iniciativas que visem a valorização científica, cultural e turística destes bens patrimoniais.
José Pedro Ribeiro, Professor e Ancorense



