Em 2023, o projeto de reabilitação do Forte da Lagarteira, impulsionado pelo então Executivo da Câmara Municipal de Caminha liderado pelo Dr. Rui Lages, trouxe uma surpresa magnífica para a nossa comunidade. No âmbito dos trabalhos de recuperação para a criação do “Espaço de Memórias do Mar”, foi celebrado um contrato com a empresa “A Empatia – Arqueologia, Conservação e Restauro Lda” para acompanhamento arqueológico. O que era uma intervenção de requalificação transformou-se numa descoberta de enorme relevância: na Praça de Armas, foram exumados materiais do Paleolítico Superior, com cerca de 15 a 20 mil anos de antiguidade, incluindo seixos afeiçoados, picos, pesos de rede e lascas.
Perante a relevância dos vestígios, os trabalhos foram devidamente adaptados, os materiais recolhidos, documentados e entregues às entidades competentes para estudo, cumprindo os protocolos do Património Cultural, I.P.
Hoje, o Forte da Lagarteira é uma realidade consolidada. Inaugurado em 2025, o Espaço de Memórias do Mar tem sido um sucesso, atraindo milhares de visitantes e celebrando a identidade marítima de Vila Praia de Âncora. No entanto, falta um capítulo essencial nesta narrativa: a história da presença humana neste território muito antes da era dos descobrimentos ou da pesca artesanal. Quase três anos após a descoberta, a comunidade continua sem saber qual o destino final, o estado de conservação ou a possibilidade de exposição destes artefactos pré-históricos.
Movido pelo legítimo interesse na nossa memória coletiva, dirigi, a 30 de abril de 2026, uma carta aberta à Exma. Presidente da Câmara Municipal de Caminha, Dr.ª Liliana Silva, e ao Exmo. Presidente da Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora, Sr. Luís Matias. O objetivo era construtivo: solicitar informação atualizada sobre os achados e defender o seu regresso ao concelho, idealmente para exposição no próprio Forte ou no Museu Municipal, com a criação de uma secção interpretativa dedicada à pré-história.
A resposta da Junta de Freguesia, datada de 5 de maio de 2026, veio revelar uma lacuna burocrática que importa corrigir em conjunto. A Junta informou que foi deixada de fora do processo de cedência do espaço pela Marinha e que o anterior Executivo Camarário não partilhou informações sobre o projeto de requalificação ou sobre os achados arqueológicos. Por esse motivo, a Junta orientou o pedido para os serviços da Câmara Municipal, que, até à data, ainda não se pronunciaram.
Longe de querer transformar este assunto numa polémica política ou num jogo de culpas, encaro esta situação como um desafio cívico que nos deve unir. A falta de comunicação entre instituições no passado criou um vazio de informação no presente, mas cabe-nos a nós, enquanto comunidade, preencher esse vazio com diálogo, cooperação e sentido de missão.
É um facto que os bens arqueológicos são propriedade do Estado. No entanto, a prática institucional em Portugal incentiva fortemente o depósito e a exposição destes materiais nos municípios de origem, sempre que existam condições científicas e museológicas para os acolher. Vila Praia de Âncora tem essas condições e, mais importante, tem o contexto territorial e afetivo para os valorizar.
Por isso, lanço aqui um apelo à mobilização de todas as forças vivas do nosso concelho:
1. À Câmara Municipal de Caminha: Que assuma a liderança neste processo, quebrando o silêncio e estabelecendo um diálogo transparente com o Património Cultural, I.P., para traçar o caminho de regresso destes materiais ao concelho.
2. À Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora: Que se associe a esta causa, não como mera espectadora, mas como parceira ativa na defesa da identidade e do valor turístico e cultural da nossa terra.
3. Às associações culturais, escolas, historiadores e cidadãos: Que se unam a este apelo. A criação de um núcleo de interpretação pré-histórica no Espaço de Memórias do Mar não diminui a narrativa marítima; pelo contrário, enriquece-a, mostrando que a ligação do Homem a este litoral é profunda e milenar.
Estes achados são a primeira página da história de Vila Praia de Âncora. Não deixemos que fiquem guardados em caixas distantes, quando podem ser a jóia da coroa da nossa oferta cultural. Vamos trabalhar juntos para que o nosso passado tenha o lugar de honra que merece no nosso presente.



