Maio de Maria, Mãe Mercedes e Música Dear Mother

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Artigo arnaldo rego maio

Mother é uma música fantástica dos Pink Floyd, composta por esse insuportável génio musical que é Roger Waters, alguém que admiro desde a adolescência. Aos 15 anos, vi-o e ouvi-o numa entrevista televisiva defender, entre muitas outras coisas, o direito absoluto de cada indivíduo vigiar, discordar e exigir o melhor possível de quem nos governa e faz as leis — ou seja, do Estado. Foi uma verdadeira epifania, que guardo comigo até hoje.

Nessa música, do álbum The Wall, lançado no final da década de 70, e nesse mesmo espírito crítico, a intenção parece ser questionar a compreensível superproteção a que Roger Waters terá sido sujeito por parte da mãe, depois de ambos terem perdido, respetivamente, pai e marido na Segunda Guerra Mundial. O pai de Waters morreu em combate em Itália quando ele tinha apenas cinco anos.

Mas não é esse o assunto do artigo, e muito menos aquilo que o título indicia — embora seja um excelente ponto de partida. Sabemos, pelos estudos comportamentais, e a própria humanidade o comprova, que a Mãe, instintivamente, protege os filhos de forma emocional e, se necessário, de forma feroz. O amor que lhes devota é a sua instalação-base; dele deriva todo um universo de preocupações: a alimentação, o enlevo e o cuidado na doença, o amparo e o ânimo na tristeza, o suporte nas dificuldades, a compreensão nos erros, o riso imenso perante a felicidade. Uma programação completa, com todos os aplicativos possíveis.

O meu embalo para dormir nas sestas de Verão perdurará em mim até que os tempos acabem.

Roger Waters, nesta música, foi talvez demasiado cidadão, e creio que não podemos adotar essa perspetiva quando analisamos as mães. Em abstrato, talvez seja possível; mas, por esse prisma excessivamente objetivo, uma mãe verdadeira nunca poderá ser realmente analisada.

Por isso, ao ouvir mais uma vez essa obra de arte, tentei imaginar o que responderia a minha Mãe Mercedes (M.M.), conhecendo-a como a conheci: no seu amor infinito e no seu pragmatismo familiar.

Será um exercício intercetado por variáveis sempre mutáveis de equação para equação — ou, dito de outro modo, de experiência pessoal para experiência pessoal — mas, simultaneamente, uma viagem de conhecimento ao sentimento profundo que trespassa de mãe para filho, seja qual for a variável introduzida. Mesmo aquela variável espiritual e conceptiva de Maria, mãe de Jesus, que escapa não apenas ao conhecimento técnico e científico, mas também à própria razoabilidade, e cuja envolvente metafísica nos deixará sempre entregues à Fé.

Stephen Hawking, célebre astrofísico inglês falecido em 2018, que viveu com esclerose lateral amiotrófica, afirmou algo como: “A religião é um conto de fadas para pessoas que têm medo do escuro.” A essa ideia respondeu, de forma igualmente célebre, John Lennox, matemático e filósofo, professor na Universidade de Oxford: “O ateísmo é um conto de fadas para pessoas com medo da luz.”

Penso que a fé responde à dúvida em silêncio, e que desse silêncio interior em cada um de nós nasce aquilo que tiver de nascer, naturalmente.

O conhecimento científico de hoje não explica tudo o que acontece no presente, nem tudo o que aconteceu no passado. Talvez o futuro venha a iluminar aquilo que hoje permanece obscuro.

Até lá, entrego a minha fé a mim próprio, na ausência de… futuro.

Waters, nessa música, pergunta à mãe e imagino M.M. respondendo:

— Mother, do you think they’ll drop the bomb?
— M.M.: Sim, acho bem possível.

— Mother, do you think they’ll like the song?
— M.M.: Acho que sim. Eu, pelo menos, gosto muito.

— Mother, do you think they’ll try to break my balls?
— M.M.: Não, não acho. Mas tens de ser um bom rapaz.

— Mother, should I build the wall?
— M.M.: Não, não é necessário.

— Mother, should I run for president?
— M.M.: Não, nunca deves pensar nisso.

— Mother, should I trust the government?
— M.M.: Não sei. Sobre isso, fala com o teu pai.

— Mother, will they put me in the firing line?
— M.M.: Não. Isso nem eu nem o teu pai vamos permitir.

— Mother, is it just a waste of time?
— M.M.: Não. Tu és nosso. Faz-se o que tiver de ser feito.

Havia mais perguntas, mas M.M. já não respondeu. Não houve tempo. O destino desceu em maio, com a sua linha de tiro.

A profundidade do sentimento de uma mãe por um filho não se escreve. É tão indizível quanto incompreensível, mesmo quando a música tenta expressá-lo — essa arte que, sem palavras, quase nos faz sentir o que não conseguimos compreender.

Como disse Felix Mendelssohn, compositor alemão do início do século XIX, a propósito do que a música pode revelar ao olhar e ao ouvido:
— “Olhem bem para a pauta, está lá tudo.”
E acrescentou:
— “Menos o essencial.”

Assim são as mães quando olhamos para elas: está tudo à vista, menos o essencial.
E o que é o essencial, em ambos os casos?

Simples: o que se sente.

Arnaldo Botão Rego
Médico-Neonatologista

Arnaldo Botao Rego
Arnaldo Botao Rego
Neonatologista

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