O que começou como uma intervenção de reabilitação patrimonial transformou-se numa descoberta arqueológica de relevo para a história do litoral minhoto. Em 2023, durante os trabalhos de preparação do Forte da Lagarteira para acolher o futuro “Espaço de Memórias do Mar”, o acompanhamento arqueológico obrigatório revelou uma sequência estratigráfica com materiais da Pré-História, datados entre 15 a 20 mil anos.
Os achados — constituídos por um conjunto de indústria lítica talhada, incluindo seixos afeiçoados (unifaciais e bifaciais), picos, pesos de rede e lascas — foram identificados na Praça de Armas do Forte, pouco abaixo do nível de circulação atual. A descoberta ocorreu durante os desaterros realizados no âmbito do projeto de recuperação do monumento, financiado pelos programas Norte 2020 e Mar 2020, com um investimento superior a 200 mil euros.
Perante a relevância dos vestígios, a intervenção foi parcialmente suspensa na área afetada, tendo sido realizada uma escavação arqueológica manual para registar e compreender a sequência estratigráfica, minimizando os impactes da obra. Os materiais foram devidamente recolhidos, documentados e entregues a técnicos especializados para estudo aprofundado, integrando-se na problemática geoarqueológica das formações quaternárias do litoral minhoto.
As obras prosseguiram e, em julho de 2025, o Forte da Lagarteira foi inaugurado como Espaço de Memórias do Mar, um núcleo museológico dedicado à identidade marítima, à pesca e à relação ancestral da comunidade de Vila Praia de Âncora com o oceano. O espaço rapidamente se afirmou como polo de atração cultural, ultrapassando as dezenas de milhares de visitantes poucos meses após a abertura.
No entanto, passados quase três anos da descoberta arqueológica, não existe informação pública sobre o destino final dos artefactos pré-históricos, nem sobre a sua eventual integração ou exposição no concelho.
Face a esta situação, o ancorense Pedro Ribeiro enviou, na passada semana, uma carta formal à Presidente da Câmara Municipal de Caminha, Liliana Silva e ao Presidente da Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora, Luís Matias.
Na missiva, Pedro Ribeiro solicita:
1. Informação atualizada sobre o estado de estudo e local de depósito dos achados;
2. O regresso ao concelho dos materiais originais;
3. A criação de uma secção interpretativa dedicada à pré-história no próprio Espaço de Memórias do Mar, de forma a enriquecer a narrativa da longa ocupação humana do local e reforçar a identidade cultural de Vila Praia de Âncora.
“Estes achados fazem parte da nossa memória coletiva e merecem ser valorizados junto das pessoas que aqui vivem e dos milhares de visitantes que o Forte já tem recebido”, afirma Pedro Ribeiro.
A proposta surge num momento em que o Espaço de Memórias do Mar consolida a sua oferta cultural. A inclusão de uma componente pré-histórica permitiria contar uma história mais completa: não apenas a ligação ao mar dos últimos séculos, mas também a presença humana no território desde o Paleolítico Superior.
A carta de Pedro Ribeiro será agora analisada pelos órgãos autárquicos, que deverão pronunciar-se sobre o destino dos artefactos e a viabilidade de os aproximar da comunidade ancorense. A decisão poderá definir um precedente importante para a forma como o concelho de Caminha valoriza e comunica o seu património arqueológico mais antigo.



