O Poster – De colega para colega

Data:

 

A Vida é Bela Poster Fcp E Scp

 

Antes de mais e impõe-se uma declaração.
Sou Pediatra e Neonatologista. Portista. Daí o título desta vida é bela.

Portista absolutamente e tão convictamente quanto sei que o colega não vai ler estas linhas. Importa apenas a ideia que tem de ficar o que mais facilmente uma pequena grande história pode mostrar.

Quando há cerca de 15 anos fui convidado para exercer atividade privada numa clínica de uma freguesia do concelho de Viana do Castelo, comecei a fazê-lo aos sábados de manhã, bem cedo.

Gostava de passar por um café perto da clínica, espaço grande, algo frio e que me agradava por ter jornais, permitindo-me ler ao mesmo tempo que tomava o primeiro café do dia. A senhora que servia, já de meia idade, era simpática sem ser efusiva, e sabia apenas que eu era um estranho que agora aparecia, sem falta, aos sábados. Não conversávamos, embora àquela hora o café estivesse muito vazio.

Nas paredes do café havia imensos posters e emblemas das equipas de futebol dos 3 maiores clubes de Portugal, o que achei engraçado.

Havia ainda, creio, uma sala anexa de jogos, que curiosamente tinha o único poster emoldurado e envidraçado.

Era um poster grande de 70×55 cm, bem maior que os outros, da equipa do Sporting Clube de Portugal, campeã de 1969/70. Uma imagem da revista Flama e que achei logo lindíssima, por ter os jogadores equipados com as camisolas verdes e brancas, aquelas que eu mais gosto, desde sempre, nas equipas de futebol portuguesas (as da década de 60). No canto superior direito o emblema do clube e os jogadores alinhados no terreno para a fotografia e dos quais, apesar de não serem do meu clube, me lembrava de todos os nomes, simplesmente porque faziam parte das coleções de cromos da minha infância. Lá estavam Damas, Caló, Gonçalves, Zé Carlos, Hilário, Pedro Gomes, Diniz, Lourenço, Marinho, Nelson, Peres.

Aquele era um poster com estatuto especial naquele café, mas gostei tanto dele, que sem saber muito bem porquê, num Sábado em que a senhora me pareceu menos circunspecta, propus-lhe o seguinte:

– Eu não sou sportinguista, sou portista, mas gosto muito do poster que está emoldurado naquela sala e que já percebi que é especial. Se mo quiser vender eu dou-lhe a minha palavra de que o vou estimar.

Ao que a senhora me respondeu:

– Não senhor, aquele poster é do meu marido que é sportinguista ferrenho e foi ele que o emoldurou. Pode levar qualquer um dos outros que não paga, mas aquele é escusado pedir.

Agradeci na mesma e continuei a voltar aos Sábados para tomar o meu café ao balcão, sem nunca mais tocar no assunto. Estas paixões respeitam-se. Fui sempre apenas o estranho do café pela manhã.

Passaram-se uns bons 3 ou até mais anos e numa bela manhã, já depois de pagar o café, perguntou-me muito suavemente:

– Ainda gosta do poster do Sporting?

– Sim. Claro. – respondi-lhe.

– O meu marido diz que o pode levar. É seu.

Tentei recusar dizendo que entendia que lhe custasse ficar sem ele e várias vezes lhe pedi que estipulasse um preço. Em vão, aquela era uma oferta que não tinha preço. Apenas um pedido de “estimar”, como tinha prometido.

O falecido ex-presidente do FCPorto, fez muitas vezes no passado o que o presidente do Sporting Clube de Portugal fez agora. Atuou como representante único do clube. É o máximo representante do clube. Não o único.

Estiveram iguais no passado de um e no presente de outro. Muito iguais. Até nas graçolas. Lamentavelmente.

Esqueceram-se de “subir aos adeptos”, não descer, mas repito, subir aos adeptos, no passado e hoje.

Nunca se tratou de uma questão de hipocrisia. Apenas falta de respeito pela equipa do Sporting Clube de Portugal que está naquele poster e do qual ninguém pode dizer que tem carta de alforria para defender sob o seu único juízo de valor, seja em que clube for.

Não vou dizer que foi apenas a “mesquinhez dos faltosos” como alguém escreveu sobre a ausência de condolências.

Seria tão simples escrever: “O Sporting Clube de Portugal envia condolências ao Futebol Clube do Porto “.

O Presidente do Sporting não é o Sporting Clube de Portugal e o Sr. Pinto da Costa não era o Futebol Clube do Porto. Daí que fosse muito fácil escrever e enviar a frase de cima.

Ambos os clubes são representados por muito mais que isso. São, por exemplo e mais verdadeiramente representados por aqueles que entregam a sua equipa emoldurada, com carinho e amor clubístico, a alguém de outro clube, que sabe que vai estimá-la, porque vê além dessa limitação dos poucos que se julgam únicos e iluminados representantes. Não é necessário fanatismo disfarçado de frontalidade. Nunca foi.

Arnaldo Botao Rego
Arnaldo Botao Rego
Neonatologista

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