Em 19 Fevereiro, 2015 Por Em Podcasts, Rubricas - Artigos, Terra, Rio e Mar

Vale do Minho convida a conhecer os sabores da lampreia

 

 

Durante os fins de semana de fevereiro e março, os seis municípios do Vale do Minho aderem à iniciativa “Lampreia do rio Minho – um Prato de excelência”, organizada pela Adriminho. 

Ao longo de dois meses, com destaque para os fins de semana, quem visitar o Vale do Minho terá oportunidade de experimentar a lampreia de múltiplas formas. A lampreia é de resto uma dos principais atrativos culinários desta região.

Para além da degustação desta iguaria típica, baseada nas múltiplas formas de a confeccionar, os visitantes terão ainda oportunidade de apreciar as potencialidades naturais e patrimoniais do Vale do Minho. Nesse sentido os municípios prepararam um vasto programa de animação para estes dois meses.

Em Vila Nova de Cerveira e relacionada com esta temática da lampreia, está patente ao público, no Aquamuseu, uma exposição dedicada às “Artes de pesca da lampreia do rio Minho’.
Em Março o destaque vai para o teatro com a iniciativa “Encontros de Teatro de Cerveira”.
Além das atividades programadas na agenda municipal, Vila Nova de Cerveira oferece ainda uma beleza natural que deve ser descoberta.

Monção também vai estar em destaque neste certame com a realização do XXXVIII Rali à Lampreia, na Praça Deu-La-Deu Martins, no próximo dia 1 de março.
Outro das iniciativas associadas a este certame é o “Sabores da Lampreia”, entre 20 e 22 de março, na comunidade piscatória de São Pedro da Torre, em Valença.
O programa, espalhado pelos diversos municípios, integra ainda concertos de música, provas de BTT, caminhadas, trilhos, visitas a diversos museus, atividades de turismo e natureza ou aventura, como o eco-rafting entre outras.

Em Caminha são 21 os restaurantes aderentes a esta iniciativa que vai contar com um programa animação cultural.
A lampreia do rio Minho, considerada por muitos a melhor do mundo, é pescada de forma artesanal pelas diversas comunidades de pescadores, e confeccionada nas unidades de restauração locais com base em segredos seculares da arte de confeccionar e a presentar este ciclóstomo.

A iniciativa “Lampreia do rio Minho – um prato de excelência” é um projeto da Associação de Desenvolvimento Rural Integrado do Vale do Minho – ADRIMINHO, em parceria com os municípios do Vale do Minho, que já vai na VI edição e que visa a promoção de um recurso local com forte impacto na economia local – a lampreia – tornando o Vale do Minho como um destino gastronómico de excelência.

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Exposição dá a conhecer mais sobre a lampreia

O Aquamuseu do Rio Minho tem patente ao público uma exposição sobre a lampreia. A mostra integra uma coleção de painéis onde são dados a conhecer alguns pormenores sobre esta espécie, nomeadamente a sua morfologia e biologia, a pesca da lampreia no rio Minho, as artes utilizadas e períodos de pesca. Na exposição também são dadas a conhecer algumas histórias e ditos associados a esta espécie.
Carlos Antunes, biólogo responsável pelo Aquamuseu explica que esta exposição tem como objetivo “acrescentar algo mais” ao conhecimento desta espécie.
“Estamos a falar de uma espécie sazonal cuja captura se inicia no mês de janeiro e termina em abril. É uma exposição que toca aspetos como a morfologia e biologia da espécie, nomeadamente o ciclo de vida, tempo de permanência das larvas nas águas doces, tempo de crescimento e a sua evolução”.

Lampreia uma espécie migradora

A Lampreia distribui-se nos dois alados do atlântico norte, estando presente na América do Norte e Europa. No norte da Europa a ocorrência é esporádica e rara (Noruega). Começa a ser igualmente rara a migração nos rios da Europa central. No Oeste da Europa encontram-se as populações mais abundantes de lampreia, que entram nos grandes rios que desaguam no Atlântico: em França, o rio Loire, o rio Dordogne, o rio Gironde, o rio Garonne, etc. Na Península Ibérica é igualmente muito comum, sendo, no entanto, cada vez mais difícil a sua migração para a cabeceira dos rios. No mar Mediterrâneo a lampreia é menos abundante.

A Pesca da lampreia no rio Minho

Os registos oficiais conhecidos sobre a captura da lampreia, iniciaram-se em 1914. O valor mais alto, registado pelos pescadores portugueses, aconteceu em 2009, com 55930 lampreias, o que corresponde a um valor económico superior a 100 000 €.
Em Portugal, atualmente, existem cerca de 400 embarcações de pesca registadas. Com as espanholas, este número aumenta para cerca de 600 barcos de pesca.
Entre os vários peixes migradores que são pescados no rio Minho, a lampreia é o que mantém um número considerável de efetivos.

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Morfologia e Biologia

A lampreia tem o corpo anguiliforme, boca em forma de ventosa, sem escamas e sem barbatanas pares. Possui sete orifícios branquiais e um orifício nasal na parte superior da cabeça. O esqueleto é cartilagíneo. Cor preta ou acastanhada com um amarelo esbatido na parte posterior e amarelada na zona ventral.
Espécie anádroma (migra do mar para o rio, para a postura). Pode atingir um comprimento superior a um metro e pesar cerca de 2,5 Kg, podendo viver até aos 9 anos de idade.
No rio Minho, realiza a sua migração para postura, entre dezembro e junho. Durante esta migração, não se alimenta e geralmente morre após a reprodução.
Fixam-se a pedras com a ajuda do disco bucal e o macho escava u buraco na areia, no qual são depositados, pela fêmea, entre 60 000 a 300 000 ovos de cerca de 1 mm de diâmetro.
As larvas (amocetes) vivem em água doce, durante um período que se estima entre 3 a 5 anos, alimentando-se de detritos e microorganismos . Após a metamorfose, descem o rio até ao mar (entre janeiro e março), vivendo de uma forma parasita, alimentando-se de sangue de peixes como o salmão, a truta, o sável, entre outros.
A lampreia é uma espécie autóctone . Tem sofrido ao longo dos últimos anos uma perda de habitat resultante da progressiva construção de barragens. No rio Minho, o percurso principal de migração é de cerca de 70 Km, até à barragem de Frieira. A alteração de caudais afeta os locais de postura.
É uma espécie considerada vulnerável no Livro vermelho de Vertebrados de Portugal e Espanha, sendo por isso alvo de estudos de conservaçãoo.

Períodos e Artes de pesca

No rio Minho existem duas zonas distintas, em função das artes de pesca utilizadas, e que estão sujeitas a dois períodos de pesca diferentes:

Entre a Ínsua do Conguêdo (Monção) e o mar – de 3 de janeiro a 21 de abril.
Arte de pesca – lampreeira
Nas pesqueiras a montante da Torre da lapela – de 15 de fevereiro a 15 de maio
Artes de pesca – Botirão de cabeceira.

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Lampreia anda desaparecida do rio Minho

Não há memória de um ano tão fraco de lampreias. A garantia é dada pelos pescadores do rio Minho que não encontram explicação para tamanha escassez. No ano passado a faina também começou fraca mas depois melhorou muito e até houve muita lampreia. Este ano a lampreia tarda em entrar no rio Minho para desespero dos pescadores que maré após maré pouco ou nada trazem para terra.
Junto aos cais da vila os pescadores preparam-se para sair.
“Vamos ver se agora de dia dá alguma coisa. Esta noite andei lá e tive que me vir embora tal era o frio e lampreias nem vê-las”.
O assoreamento da barra que dificulta a entrada das espécies no rio e as condições climatéricas podem estar na origem desta escassez de lampreia.
Segundo os pescadores os bancos de areias “impedem a entrada do peixe porque é a água doce que vai buscar o peixe ao mar. Ao diminuir o caudal de água doce a entrada do peixe é mais difícil”, explicam.
Carlos Antunes, biólogo responsável pelo Aquamuseu do rio Minho, considera que a escassez da lampreia não tem uma razão única e lembra que os picos maiores ou menores são uma característica das espécies migratórias.
“Não podemos apontar uma razão única ou objetiva. Isso é uma característica das espécies migratórias que apresentam picos quer de abundância quer de escassez. Não há um valor certinho ao longos dos anos. Pensa-se que os fatores ambientais têm alguma influência sobre isso ou seja, quando nós fazemos a comparação com o ano passado, verificamos que por altura as capturas já tinham sido muito superiores. O ano passado choveu mais e pensa-se que pode haver uma relação entre as pluviosidades mais intensas e a entrada de algumas espécies nos rios”, explica.
O facto de este ano haver menos lampreia no rio Minho não significa que ela esteja a escassear garante Carlos Antunes, que aponta os fatores ambientais como responsáveis para uma maior ou menor atração das espécies ao rio para a sua migração.
“De ano para ano, aparentemente são os fatores ambientais e abióticos que parece estarem a influenciar nesta atração dos exemplares para a migração”.
Quanto ao assoreamento da barra do Minho poder estar a influenciar esta diminuição de espécies, Carlos Antunes tem algumas dúvidas.
“Eu pessoalmente penso que não tem grande influência. Repare que o problema do assoreamento é recorrente. Se fizermos uma análise em termos históricos os problemas do assoreamento e no estuário sempre existiram. É evidente que o assoreamento causa problemas de navegabilidade e os pescadores sabem disso muito bem, mas daí até afirmamos que isso influencia a quantidade de peicxe que entra não me parece até porque existem rios com canis profundos onde as espécies como a lampreia ou o sável não entram”.

Para Carlos Antunes o assoreamento obedece a sistemas “sempre muito dinâmicos e nós sabemos que os bancos de areia que existem atualmente podem ser modificados se houver, por exemplo, um caudal mais forte”.
Conhecer a dinâmica sedimentar, que não é conhecida, é segundo o biólogo fundamental. “Seria muito importante porque assim perceberíamos não só a questão do assoreamento do próprio estuário, mas também a sua relação com a zona costeira e transporte de sedimentos. A elaboração de um estudos permitiria perspectivar o que pode acontecer num cenário de alterações climáticas, isso sim seria muito importante”, explica.

Apesar de haver pouca lampreia os pescadores queixam-se do valor baixo que
é pago por cada exemplar. “Começaram por pagar a 10 e a 20 euros, mas esta semana já baixaram para 10 euros as grandes e 7,5 as pequenas”.
O valor económico da lampreia anda pelas ruas da amargura e a verdade é que a procura desta espécies é cada vez menor.
“A malta mais nova não gosta de lampreia e por isso é que ela não tem saída”, explicam os pescadores.
O fato de em tempos a lampreia ter sido muito cara também pode ter afastado o seu consumo. “As pessoas não compravam porque era muito cara e a verdade é que ela não foi incluída nos hábitos alimentares da maioria das famílias”.
Ensinar as novas gerações a gostarem de lampreia parece ser fundamental quem nunca provou tem agora uma excelente oportunidade de o fazer num dos muitos restaurantes do Vale do Minho que até final de março elegem a lampreia como a rainha da gastronomia do Alto Minho.

Histórias e ditos sobre a lampreia

“…Sempre, pela Quaresma, chegará essa tentadora serpente, carne, verdadeira carne do mal, disfarce próprio Maligno, que nos fará cair em pecado de gula e porá em perigo o nosso sossego e renunciação…”

Sermão da Penitência d Padre Ponto (séc XVII), em “La lamprea, desde el Miño”, Emílio Blasquez (1954)

“Mucha historia e historias andam en torno a la lamprea… Os gastrônomos romanos eram aficionados a esta platô flerte, conservando las lampreas en bien abastecidos viveros, para consumir en aquellos pantagruélicos banquetes para celebrar las victorias de César. Una layenda macabra disse que las cebabamarrojándoles esclavos y prisioneiros vivos. Hisroricamente se sabe que era famoso el vivero de Cayo Hirtius que incluso tenía lampreas amestradas. Se essa ºepoca, sabemos que un famoso cocinero griego, maestro em su condumio, se llamaba Lamprias. A un empacho de lamprea se achaca la muerte de Enrique I, rey de Inglaterra…”

“Pescadores del rio Miño” Eliseo Alondo (1989)

“Em Vila Nova de Cerveira (Portugal) perdura a tradição da Noite do Santo, que consiste na pesca da lampreia durante uma maré e logo são oferecidas s São Sebastião para ajudar a celebrar os seus festejos. Durante a noite, baixa a gente ao molhe para esperar a chegada dos pesadores, que cada vez que pescam ampreias lançam foguetes das embarcações”. Eliseo Alonso (1985)

Esta tradição estende-se a outras localidades, como é o caso da freguesia de Seixas, no concelho de Caminha.

“O Dr. Mirandela nos oferece un curiodorecetraio, en el que noña lamprea entre an la más variada farmacopea popular. Asi, la lamprea con pimenta es útil para los que padecem cólicos nefríticos. Es remédio eficaz para la lepra y demás achaques cutâneos, para los que, igualmente, recomenda Plinio la ceniza de lamprea mesclada con miel. Sus dientes, colgados del cuello de los nños lactantes, evitanlos Dolores y ayundam al trabajo de la dentición. Sua grasa es buena para untar la cara de los que tuvieron viruelas, porque asi no quedan las señales. Aplicando sus cenizas mescladas con vinagre a las sienes, se curan los Dolores de cabeza. Y en general es buena para curar cualqueir dolor, aplicandola en calliente…” “Pescadores del rio Miño” Eliseo Alondo (1989)

Ditos dos Pescadores

Ano de cheias, ano de lampreias.
A lampreia tem boca feia
A lampreia, em abril, p’ra mim; em maio, ró ano; no S. João pr’o cão
Lamprea e salmon, pola Pascua en sazón, despois non.
Marzo, lampreagem.
Cuando está de mormaceira, pica a lamprea.

Acerca de

Cidália Aldeia

Chefe de Redação