Em 8 Janeiro, 2014 Por Em Empreende +, Podcasts, Rubricas - Artigos

Tiago Brandão Rodrigues: um investigador com fortes ligações a Caminha


Nasceu em Braga, cresceu em Paredes de Coura e as férias passava-as em Moledo, numa casa de família junto à praia.

Tiago Brandão Rodrigues, o investigador português a trabalhar em Cambridge e que ultimamente anda nas bocas do mundo e nas capas dos jornais e das revistas, tem fortes ligações ao concelho de Caminha, local que considera de uma beleza ímpar e que até escolheu para comprar a sua casa.

Filho de uma professora e de um funcionário das finanças, Tiago Brandão Rodrigues é um cidadão do mundo. Já viajou muito, andou pelos Estados Unidos, Espanha e agora Inglaterra. Voltar a Portugal não está nos horizontes mais próximos do jovem cientista mas, se um dia isso acontecer, não será nada de “exótico”.

Quando vem a Portugal a primeira paragem é em Paredes de Coura para matar saudades da família e dos amigos, e depois vem a Caminha, local onde se sente bem e gosta de estar.

“A minha vida tem uma ligação muito forte ao concelho de Caminha e a Moledo. O meu pai trabalhou aqui muitos anos, na repartição de finanças, e eu desde os cinco anos que me lembro de vir passar férias e fins-de-semana à casa de Moledo. Também tenho uma tia que vive aqui e com que eu estava e estou muitas vezes, e portanto Caminha sempre fez parte da minha vida”, refere.

Para além das férias e dos fins-de-semana, Tiago recorda que chegou a jogar andebol no CAC – Clube Andebol de Caminha. Por aqui fez alguns amigos, pessoas que ainda hoje faz questão de visitar sempre que vem a Portugal.

Até aos 15 anos recorda que a sua vida era repartida entre Paredes de Coura, onde vivia e estudava, e Caminha, local onde ainda hoje faz questão de vir sempre que pode e trazer um amigo.

A singularidade da foz do Minho, da praia de Moledo, do Camarido e do rio Âncora, são imagens que transporta para onde quer que vá e, de todos os locais que já visitou, e foram muitos, nunca esquece a beleza desta zona.

“Toda esta envolvente é única e realmente eu, que já tive oportunidade de viajar muito, continuo a entender que este é um dos sítios mais bonitos onde já estive e onde me sinto bem”.

Estudou em Paredes de Coura até ao 9º ano e depois decidiu ir para Braga onde o ensino tinha outra qualidade. Por lá ficou até terminar o 12º ano, altura em que teve que voltar a escolher.

Depois de se aconselhar e conversar com alguns amigos, decidiu rumar a Coimbra para fazer os estudos superiores. “Na altura ainda não tinha muito bem definido que tipo de licenciatura queria tirar, sentia-me muito atraído pelo mundo da investigação, pelas ciências da vida, e acabei por seguir Bioquímica em Coimbra”, conta.

Na cidade dos doutores, Tiago esteve 4 anos. “Uma experiência de vida fantástica. Coimbra é uma cidade muito singular, tem um centro histórico maravilhoso. É uma cidade pequena onde toda a gente se conhece e onde gostei muito de estar”.

Terminada a licenciatura segue para Madrid para fazer Erasmus. Também na capital espanhola Tiago se sente quase como se estivesse em casa. A proximidade que desde pequeno teve com o povo espanhol ajudou-o a criar esses laços e afinidades.

“Eu lembro-me de ser adolescente e de ter sempre o rádio sintonizado na Rádio Popular de Vigo, em mono porque só tinha uma coluna, porque a outra coluna estava estragada”, recorda divertido.

Outra influência foi o canal 3 da Rádio Nacional de Espanha, “uma rádio para jovens que gostavam de ouvir música mais independente. Isso marcou muito a minha afinidade com Espanha”, revela.

Concluído o Erasmus, surgem novas dúvidas. O doutoramento seria uma possibilidade e, depois de analisadas as opções, Tiago decide rumar aos Estados Unidos, para Dalas, onde permanece durante seis meses.

“Passei lá a segunda metade de 2001, na altura do 11 de Setembro. Foi uma experiência fantástica viver aquela fase tão particular da América e do mundo. Foi muito interessante”.

De regresso a Madrid, termina na capital espanhola o doutoramento em conjugação com o laboratório de Coimbra. Fica por lá ainda algum tempo até que surge a possibilidade de ir trabalhar para Cambridge.

“Uma grande oportunidade na medida em que estamos a falar de um sítio que joga, reiteradamente, na champions league em matéria de ciência. É um local de excelência, onde os recursos humanos são de uma qualidade extraordinária, onde existe uma tradição mas ao mesmo tempo uma grande modernidade no fazer e no pensar a investigação cientifica”, explica.

Pequena, mais ou menos como Viana do Castelo, Cambridge é uma cidade que está “unicamente e simplesmente” vocacionada para a investigação cientifica.

“Estamos a falar de uma cidade universitária com muita tradição e ao mesmo tempo muito multinacional. É uma cidade onde é possível ir de bicicleta para o trabalho, mas ao mesmo tempo estar relativamente perto de Londres, a 45 minutos de comboio. Para ter uma ideia, é possível sair de Cambridge ao fim da tarde, jantar e ir a um cinema ou a um teatro em Londres, e voltar no mesmo dia. Faço isso com alguma frequência”.

Tiago Brandão Rodrigues trabalha num laboratório na Universidade de Cambridge e está integrado numa equipa coordenada por um professor inglês. É investigador naquela universidade, no departamento de Bioquímica e no Cancer Research UK.

“O Cancer Research UK é basicamente o centro de investigação de cancro no Reino Unido. É uma fundação que faz parte da Universidade mas que é financiada por dinheiro de filantropia”.

Neste centro de investigação, o cientista português explica que existem vários grupos que se dedicam a várias facetas diferentes da investigação do cancro.

“No nosso caso, especificamente, trabalhamos com as técnicas de imagiologia médica, que são técnicas que nos permitem fazer imagens de secções do corpo humano, e tentar entender se é possível ou não detectar um determinado  tumor e distingui-lo do tecido normal, usando características que são diferentes ao tumor, e ao tecido normal. Existem algumas formas de distinguir e diferenciar, e isso é extremamente importante na prática clínica”, explica.

Das várias linhas de investigação existentes, aquela a que Tiago Brandão Rodrigues se dedica mais especificamente é a da ressonância magnética.

“Eu, particularmente, uso a ressonância magnética convencional, mas uso também uma nova técnica que faz parte deste nosso trabalho que foi publicado na revista “Nature Medicine”.

Mas afinal em que consiste esta técnica?

Segundo o investigador consiste precisamente em conseguir entender, em determinado momento muito precoce de um determinado tratamento, se ele está a ser eficaz ou não.

“Normalmente, quando um clinico suspeita que um paciente tem um tumor, esse paciente é sujeito a uma técnica de imagem médica, a chamada ressonância magnética. O marcador de resposta ao tratamento, isto é, a forma de avaliar se o tratamento que está a ser feito está a funcionar ou não, é feita através da identificação do tamanho do tumor, ou seja do seu volume. Num tratamento convencional, o que se faz é avaliar o tamanho do tumor antes do tratamento, e algumas semanas ou meses depois, faz-se uma nova avaliação. Facilmente se entende que se o tumor diminuiu de volume é porque, em principio, o tratamento está a funcionar. Caso contrário significa que o tratamento não está a ser eficaz”.

Mas como explica o investigador português este tempo que separa as avaliações pode ter complicações associadas, principalmente se o tratamento não estiver a ser eficaz. “Estamos a falar em semanas ou meses depois e por vezes isso implica já ser demasiado tarde, ainda por cima com todas as implicações psicológicas, efeitos secundários e custos associados ao tratamento. Por vezes não é possível voltar atrás”, sublinha.

A nova técnica desenvolvida por Tiago Brandão Rodrigues e a sua equipa, descrita na revista “Nature Medicine”, permite que um ou dois dias após o início do tratamento, a sua avaliação e eficácia possa começar a ser feita.

“O que nós estamos a tentar fazer é que, logo após o início do tratamento, um ou dois dias depois, se consigam identificar alguns fatores no tumor, que não tenham a ver com o seu tamanho, mas sim a sua atividade e a sua virulência, e a partir daí percebermos se o tratamento está ou não a funcionar. Isto vai permitir que um dia ou dois após o início do tratamento o médico possa decidir se continua ou avança para um outro tipo de tratamento”, explica.

A técnica desenvolvida permite obter imagens hipersensíveis do consumo da glicose e do seu metabolismo em tumores.

“Juntamos a nossa técnica de ressonância magnética hipersensível a uma outra característica já conhecida há aproximadamente 90 anos, na qual os tecidos tumorais, ou seja as células cancerígenas, consomem muito mais açúcar, nomeadamente a glicose, do que os tecidos normais”.

Basicamente o que Tiago Brandão Rodrigues e a sua equipa fizeram, foi modificar o açúcar de forma a permitir que ele seja detectado pela tal técnica de imagem.

“Através da ressonância magnética foi possível verificar que antes de começar o tratamento o tumor estava a consumir muito mais açúcar do que o tecido normal. Iniciado o tratamento, se ele estivesse a funcionar, muitas dessas células cancerígenas ficavam danificadas”.

Esta descoberta vai ter, segundo o cientista português, consequências muito importantes ao nível da possível prática clinica.

“E eu digo possível, porque todos os estudos que nós fizemos foram estudos pré-clínicos em modelos animais que agora têm que passar pelo chamado ensaio clínico que vai validar a robustez desta técnica para ser aplicada em humanos”.

O processo de certificação para que a técnica possa ser aplicada em humanos é um processo demorado, e pode levar 5, 6 ou até 10 anos.

“Mas há que perceber que isso é um processo que acontece com todo e qualquer fármaco ou metodologia aplicada nos hospitais. Todos eles têm que passar por ensaios clínicos, nada chega lá sem ser devidamente testado. Temos que ter a certeza que pode funcionar”, sublinha.

O trabalho, desenvolvido por uma equipa multidisciplinar, tem viajado muito nos últimos meses. Apresentado em vários congressos e encontros científicos, a receptividade por parte da comunidade cientifica tem sido ótima. “Obviamente com muita esperança de que isto possa implicar alguma coisa”, refere o cientista.

Sobre a repercussão que o estudo teve nos meios de comunicação social, o investigador não esconde que ficou um pouco surpreendido.

Para Tiago o tema em si, cancro, toca um pouco a todos e “talvez o interesse passe por aí”, refere.

“O interesse por parte dos mídia foi algo que de repente tomou vida própria. O comunicado saiu no domingo ao fim da tarde e na segunda-feira foi um autêntico corrupio de entrevistas e por aí fora”, recorda.

“De repente tudo se transformou numa história grande, positiva e também informativa. E para mim foi muito interessante constatar que existe uma certa permeabilidade por parte da opinião pública portuguesa para questões de ciência, que são questões que na maioria das vezes estão longe de interessar às pessoas que não têm uma afinidade especial com a ciência. Julgo que isto tem um efeito motivador para quem faz ciência e para aqueles que neste momento estão a estudar para seguir esta área”.

Em Inglaterra, mais habituada a estas descobertas cientificas, a técnica desenvolvida pelo neurocientista português e a sua equipa também foi bem recebida, no entanto com menos alarido. “A estratégia de comunicação é diferente”, explica.

Para além de Portugal também a imprensa espanhola deu especial destaque a este estudo, tendo sido notícia em diversos jornais e estações de televisão, o mesmo acontecendo em França e na Comissão Europeia, entidade que apoiou a ciência de Tiago Brandão Rodrigues nos últimos anos.

Depois de umas pequenas férias em Portugal para passar o Natal com a família, o cientista português está de volta ao laboratório de Cambridge para continuar o seu trabalho de investigação. Por enquanto vai ficar por lá mas não descarta a hipótese de agarrar outras oportunidades.

Voltar um dia a Portugal não é para Tiago Brandão Rodrigues nada de “exótico, será sempre uma questão de oportunidade”.

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Cidália Aldeia

Chefe de Redação