Em 5 Maio, 2016 Por Em Podcasts, Rubricas - Artigos, Terra, Rio e Mar

Projeto 100% d’Arga para preservar as tradições

 

Com o objetivo de dar a conhecer a serra d’Arga e as suas tradições, nomeadamente a tecelagem, surgiu em 2013 o projeto 100% d’Arga.
Da responsabilidade da artista Luísa Manso, o 100% d’Arga pretende enaltecer e dar a conhecer o trabalho das mulheres da Serra, promovendo a sua valorização.
Em entrevista ao Jornal C, a artista fala deste e de outros projetos que tem para o futuro. Aliar a tecelagem da Serra d’Arga à tecelagem africana é o próximo grande desafio de Luísa Manso.

 

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O projeto chama-se 100% d’Árga e nasceu em 2013 pela mão de Luísa Manso, uma artista natural do Porto a viver em Caminha há já 25 anos.
O trabalho desenvolvido pelas mulheres da serra foi algo que rapidamente despertou a sua atenção, levando-a a observar de perto algumas das atividades que eram levadas a cabo por elas, de forma artesanal.
Com um curso de estilismo no seu currículo, a tecelagem e a forma artesanal como as mulheres desenvolviam esta atividade, levaram-na a criar um projeto a que daria o nome, como já referimos, de 100% d’Arga.
O Jornal C visitou o atelier da artista situado na freguesia de Argela e por entre chávenas de chá e boa disposição, Luísa Manso revelou-nos tudo sobre o seu projeto que recentemente esteve em exposição no aeroporto Sá Carneiro no Porto, a convite do Porto e Norte de Portugal.
“Quando vim viver para Caminha e porque moro relativamente perto da Serra d’Arga e gosto de ali me deslocar frequentemente, comecei a observar com mais atenção o trabalho que era desenvolvido pelas mulheres. Percebi que era muito interessante o que faziam e então pensei que era interessante desenvolver um projeto meu, mais inovador, em que fosse possível juntar a tradição do artesanato têxtil na Serra d’Arga, com as ideias que eu tinha”.

12552869_814235162035369_7629456224561867078_nAliar aspetos urbanos a outros mais rurais, característicos da serra d’Arga, foi a ideia chave do projeto, como explica a artista.
“O objetivo deste projeto era e continua a ser juntar pessoas dos dois polos (urbano e rural) e criar novas ideias a partir daquilo que se tem feito até agora no que toca aos têxteis”.
Conseguir conquistar a confiança das pessoas da serra e ao mesmo tempo convence-las a transmitirem muito do seu saber, foi um dos grandes desafios que Luísa Manso teve que enfrentar. O curso de turismo rural que entretanto tirou foi uma grande ajuda como a própria revela.
“Eu tirei um curso de turismo rural e nesse curso, uma das coisas que eu aprendi e com a qual concordo a 100 por cento, é que as pessoas, antes de invadirem espaços que são um pouco desertificados, têm primeiro que criar aços afetivos. Nesse sentido posso dizer-lhe que andei por lá bastante tempo a fazer esse papel. Falava com as pessoas, perguntava-lhes se elas estavam interessadas, e sinceramente apesar de reconhecer que as pessoas da serra são um pouco fechadas em si, nunca tive problema em conversar com elas e houve uma empatia muito grande. Acho que tenho alguma capacidade para conseguir falar com as pessoas, para as fazer acreditarem em mim e colaborarem comigo que é o que tem vindo a acontecer.”

535347_840700532722165_2307273602792181226_nDeste trabalho de conquista resultaram algumas amizades que Luísa Manso faz questão de destacar.
“Há 3 senhoras de quem eu gosto muito e que não posso deixar de referir que é a D. Deolinda da Pedra, de Arga de Baixo, a D. Maria Alcilia e a D. Venância. Estas 3 senhoras foram realmente pessoas que desde o início mostraram muita abertura para me falarem da sua arte e inclusive abriram-me as portas dos seus ateliers, mostraram-me os seus trabalhos e colaborando sempre comigo”.

 

Conquistada a confiança das gentes da serra, a artista logo percebeu o muito que havia para aprender com aquelas pessoas.
“Essas pessoas fazem duas coisas muito interessantes: a D. Deolinda trabalha com material autóctone da serra, a lã dos carneiros, uma matéria prima que me interessa bastante para o meu projeto. A D. Maria Alcilia é uma pessoa que trabalha há muito anos com bordados e confecciona os tradicionais trajes à lavradeira. Para além disso neste momento tenho também a colaboração da Aida Martins, uma pessoa que por tradição genética sempre trabalhou com os trajes regionais. Juntamo-nos para desenvolvermos alguns workshops e assim podermos transmitir alguns conhecimentos a pessoas mais novas que é no fundo um dos meus objetivos”.
12670563_823216887803863_8850817428457752823_nLuísa manso confessa que o interesse por parte das pessoas tem superado as expetativas. “As pessoas têm revelado um grande interesse, principalmente os mais jovens, o que me tem admirado bastante. A maioria das pessoas vem sem grande conhecimento e acabam por achar muito interessante. Funciona um pouco como escape desta sociedade alucinante em que vivemos e que tem a ver com a tecnologia. As pessoas passam a dar mais valor ao trabalho manual, à criatividade, à cooperação e solidariedade e isso é muito interessante” sublinha.

12814795_836190703173148_4369941999067539670_nAo saber ancestral da serra, que tem passado de geração em geração, Luísa Manso deu-lhe uma roupagem um pouco mais moderna e criou peças únicas que vão desde as almofadas, ás bilhas, passando pelos quadros, entre outras peças.
“Eu comecei por produzir peças inspiradas na lã e na manta de trapo, duas referências daquele local. Dizer que em relação às mantas de trapo, eram feitas a partir da reciclagem de roupa. Então eu achei que era muito interessante pegar nesse aspeto da reciclagem. Relativamente à lã achei que seria interessante poder desenvolver todo o processo e ciclo da lã. Com esses dois materiais desenvolvi um trabalho que seria compor um quadro com material têxtil. Comecei então a fazer painéis nos quais introduzi mantas de trapo, bordados e lã.
Outra das coisas que fiz foi pegar em peças tecidas no tear a aplica-las noutras, como por exemplo as bilhas de barro, as carteiras e bolsas. O que estou agora a fazer é a testar essas peças junto das pessoas para perceber as que têm mais saída e a partir daí poder desenvolver outros trabalhos”.

12513995_814232658702286_8062590587286901799_oExposição no aeroporto Sá Carneiro dá a conhecer o projeto

E foi precisamente para mostrar às pessoas o seu trabalho e dar a conhecer o seu projeto que Luísa Manso decidiu aceitar o convite lançado pela Porto e Norte de Portugal para organizar uma exposição no stand daquela entidade no aeroporto Sá Carneiro do Porto, uma mostra que decorreu até ao passdo dia 10 de abril.
“Eles acharam o meu projeto muito interessante e convidam-me para fazer uma exposição. Este projeto tem como objetivo maior dar continuidade a uma tradição e ao mesmo tempo desenvolver a auto estima das mulheres nos meios rurais.
Nesse sentido o espaço foi-me oferecido e julgo que correu muito bem”.
Para além de algumas peças desenvolvidas no âmbito do projeto 100% d’Arga, a exposição conta ainda com um vídeo que promove a Serra d’Arga e todo o projeto.
“A verdade é que este tipo de projetos também podem atrair turismo e a prova é que o Turismo do Porto e Norte de Portugal e convidou para fazer esta exposição”.
Luísa Manso lamenta que da parte das entidades locais, nomeadamente da Câmara de Caminha, o interesse pelo seu projeto não seja significativo.
“À exceção da Junta de Freguesia de Argela, que me cedeu um espaço para eu poder montar o meu atelier, e que agradeço muito, o interesse pelo 100% d’Arga tem sido muito pouco.”.
O projeto 100% d’Arga tem a sua sede na Casa do Artesanato em Argela, um espaço cedido pela Junta de Freguesia. Ali decorrem workshops que já reuniram um número considerável de interessados como revela Luísa Manso.
“A Casa do Artesanato foi-me cedida há pouco mais de dois meses mas já consegui lá reunir algumas pessoas. Já fiz um workshop com a D. Rosa e a D. Deolinda da Serra d’Arga para ensinar a fiar e correu muito bem”.

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Os workshops vão continuar porque a transmissão de saberes que correm o risco de se perder é o principal objetivo deste projeto.
A forma simples de viver das gentes da Serra d’Arga é o que mais cativa a artista. “São pessoas puras e genuinamente boas”, sublinha.
Os interessados em conhecer melhor o projeto 100% d’Arga podem visitar a página do facebook onde são dadas a conhecer as peças que neste momento estão a ser comercializadas. Em Caminha também podem ser adquiridas na Tabacaria Gomes.
“Neste momento o projeto de comercialização ainda não está muito desenvolvido. Estou a tentar perceber quais as peças que as pessoas mais gostam para depois definir a produção. A ideia não é produzir em grandes quantidades porque são peças originais, todas feitas à mão. Cada peça é única e é assim que quero que continue a ser”.
Serra d’Arga e África numa união improvável

Juntar a tecelagem da Serra d’Arga à tecelagem africana é o próximo grande desafio de Luísa Manso que recentemente visitou Moçambique e recolheu algumas informações.
“Estive em Moçambique a fazer uma formação na área da tecelagem e as pessoas de lá ficaram muito interessadas em estabelecer parcerias com Portugal. Vim com essa ideia que acho muito interessante.
A ideia é juntar tecelagem africana com tecelagem portuguesa e fazer a sua aplicação em roupa. Neste momento já estou a preparar uma coleção para Moçambique que irá ser apresentada na Associação Espaço Portugal Moçambique, no Porto”.
Uma parte do dinheiro que resultar da venda das peças reverte a favor da construção de uma escola em Namaacha.
“Trata-se de um projeto em que a minha filha está envolvida e que visa a construção de uma escola em Namaacha para crianças desfavorecidas”.
Luísa Manso espera que este projeto seja um sucesso e é para isso que está a trabalhar neste momento.

Acerca de

Cidália Aldeia

Chefe de Redação