Em 1 Abril, 2015 Por Em Podcasts, Rubricas - Artigos, Terra, Rio e Mar

Páscoa Minhota repleta de tradições

 

Do Compasso Pascal à visita das igrejas da cidade, do Lanço da Cruz ao Bife da Páscoa, da Queima do Judas à maior Mesa de Páscoa do país, são muitas as tradições minhotas relacionadas com a Páscoa.

A festa mais importante do calendário católico é vivida de forma muito especial pelo alto-minhotos e freguesias há onde as tradições são únicas e muito peculiares.
O Jornal C foi à procura de algumas dessas tradições e descobriu que algumas, apesar de se perderem na memória dos tempos, continuam bem vivas nas gentes do Alto Minho.
A Páscoa é um grande momento de fé e de alegria nesta região do país, e atinge o seu expoente máximo com o tradicional compasso pascal que se realiza no domingo e na segunda-feira de Páscoa em todas as aldeias do Alto Minho.

se-catedral-igreja-matriz_200261Visita às igrejas leva milhares às ruas da cidade de Viana

Uma das principais tradições da Páscoa em Viana do Castelo leva até às ruas da cidade milhares de pessoas para a visita a igrejas e capela na quinta-feira santa. Os templos abrem as suas portas por volta das 19 horas e até à meia noite podem ser visitados pelos fiéis que neste dia são convidados a refletir sobre a morte e paixão de Cristo.
Ao todo são mais de duas dezenas de templos situados no centro da cidade que fazem parte deste roteiro que movimenta milhares de pessoas.
De acordo com o pároco da Sé, Armando Dias, estas visitas, na noite que antecede o feriado da sexta-feira Santa, inserem-se no período da Quaresma.
“Este ritual procede sobretudo do contexto litúrgico bíblico de participação no mistério pascal de Cristo. Nesse sentido os fiéis são convidados, na quinta-feira santa ao final da tarde e noite, a ter o mesmo gesto que Jesus teve de oração. Evocando o momento em que se aproximava a hora da morte de Jesus, ele próprio sentiu necessidade de orar, de se recolher num sítio calmo e silencioso em oração. A vista às igrejas em Viana do Castelo tem como ponto de referência precisamente essa atitude de Jesus, digamos que é uma oportunidade das pessoas se unirem a Cristo em oração”, explica.
Jesus foi prezo, julgado e condenado na quinta-feira, até que foi crucificado na sexta-feira. Nesta visita aos templos da cidade os fiéis são convidados a refletir e a estabelecer um espaço de oração. “Nesse sentido toda a cidade abre as portas dos espaços litúrgicos possibilitando às pessoas um espaço de oração”.
A maioria das igrejas estão abertas todo o ano, apenas duas ou três, que são particulares, é que abrem as suas portas ao público nesta altura.

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Entre os templos, decorados com flores e de portas abertas até à meia noite, estão as capelas de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, e das Malheiras, a Capela da Casa da Carreira, um templo do século XVIII, propriedade da Câmara de Viana e que só de ser visitada nesse dia.
Entre as que abrem portas nesta noite contam-se ainda a Sé Catedral e a Capela das Almas, que foi a primeira Matriz de Viana do Castelo e que coloca a presença cristã na localidade no século IX.
E se para uns esta visita às capelas e igrejas da cidade constitui uma oportunidade para rezar, para outros é uma oportunidade de contemplação, como explica o padre Armando Dias. “Muita gente reza e elege esses espaços para a oração, outras aproveitam para contemplar, para conhecer as igrejas, e aprecia-las mais do ponto de vista cultural”.
As visitas, de acordo com a tradição, devem ser em número ímpar de templos, uma vez que os principais quadros religiosos alusivos à Páscoa também são compostos por números ímpares, como as três quedas de Cristo a caminho do Calvário ou as cinco chagas.
Capela Almas“Esta tradição também joga um bocadinho com os números simbólicos. A visita às sete igrejas tem a ver com o facto do número sete ser considerado o número da perfeição. Enfim há toda uma simbologia que as pessoas, mesmo não sabendo o seu significado, procuram cumprir”, explica o pároco.
Mais de vinte igrejas fazem parte deste “roteiro” que se inicia logo após a missa da ceia do Senhor que tem lugar na sede do episcopado, a Sé de Viana, e é presidida pelo Bispo da Diocese.
“As 19 horas terá lugar a missa vespertina da Ceia do Senhor com o lava pés e o gesto da caridade que se traduz na partilha das esmolas para os mais necessitados. Depois desta cerimónia todas as igrejas abrem num convite à oração e à partilha”.
As capelas e igrejas que neste dia abrem portas apresentam-se com brio na ornamentação e há até uma espécies de “despique saudável”.
O momento mobiliza milhares de pessoas desde as 19.30 até depois da meia noite.
“São milhares de pessoas que percorrem as igrejas todas de uma ponta à outra da cidade e há pessoas que fazem questão de as visitar a todas. É um momento que congrega muita gente e se traduz num ambiente de convívio. As pessoas encontram amigos que já não viam há muito tempo e por vezes ficam ali a conversar o que também é muito importante”.

A Páscoa do Senhor morto e ressuscitado é, segundo o Padre Armando Dias, a festa central da Igreja Católica. “É uma festa central que tem raízes e um dinamismo profundo. A Páscoa é o grito total e definitivo de Deus que está vivo e também o anuncio da vida total e plena que cada um de nós é convidado a viver neste mistério de Cristo”.

Maior Mesa de Páscoa do País promove-se no aeroporto Sá Carneiro

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Vila Praia de Âncora vai acolher no próximo dia 4 de abril, mais uma edição do certame “A Maior Mesa de Páscoa do País”, iniciativa que visa promover o concelho e os seus produtos tradicionais.
Estabelecimentos comerciais, produtores e associações do concelho, são chamadas a participar no evento que é já uma referencia a nível nacional e que de ano para ano tem vindo a crescer exponencialmente.
O ano passado a maior mesa de páscoa chegou aos 500 metros, uma meta que a organização pretende manter e se possível até ultrapassar, como referiu ao Jornal C Luíza Vilas Boas, membro da organização do evento.
“É obvio que a nossa expetativa é sempre poder ultrapassar a meta do ano anterior. Tem sido assim nos outros anos e é nesse sentido que estamos a trabalhar para esta quarta edição do evento”.
A iniciativa, promovida pelo movimentos de empresários do concelho de Caminha em parceria com a Câmara de Caminha e Junta de Freguesia de Vila Praia de Âncora, tem inscrições abertas até ao próximo dia 28 de março e os interessados podem inscrever-se no Porto de Turismo de Vila Praia de Âncora e Caminha, ou no Gabinete de Apoio ao Empresário em Vila Praia de Âncora.
Luiza Vilas Boas diz que todos estão convidados a participar. “Qualquer pessoa se pode inscrever desde que os produtos que pretenda mostrar se relacionem com a Páscoa”.
Divulgar e dar a conhecer aquilo que são os produtos tradicionais desta região na época da páscoa é o objetivo do certame que este ano pretende chegar maios longe. E se é verdade que a Maior Mesa da Páscoa do País já ultrapassou as fronteiras do concelho, sendo já um evento de referencia a nível nacional, a organização quer ir mais longe e dar a conhecer o evento fora de Portugal. Assim, e com o objetivo de captar visitantes estrangeiros, a organização do evento vai este ano realizar uma ação de promoção no aeroporto Sá Carneiro no Porto, nos dias 1 e 2 de abril, como revelou ao Jornal C Luíza Vilas Boas, membro da organização do certame.
“No dia 1 e 2 de abril vamos estar presentes no stand que a Entidade de Turismo do Porto e Norte de Portugal tem no aeroporto Sá Carneiro. Vamos estar a representar não só o concelho e as unidades hoteleiras do concelho, mas também o evento através de uma pequena demonstração daquilo que as pessoas podem encontrar na Maior Mesa de Páscoa do País”.
Segundo Luíza Vilas Boas esta demonstração pretende captar turistas que possam visitar o certame e permanecer no concelho durante um ou dois dias. “Neste momento são ainda poucas as pessoas que, a pretexto de visitarem o evento, permanecem por algum tempo, mas nós queremos reverter isso, queremos que as pessoas venham e fiquem por aqui alguns dias e esta promoção vai um pouco nesse sentido”, explica
Para além da mostra e venda de produtos o certame conta com um vasto programa de animação que será divulgado dentro de alguns dias. Tal como nas edições anteriores o Compasso Pascal também vai visitar o certame “para que as pessoas que não conhecem possam perceber o que é esta tradição do beijar a cruz”, explica Luíza Vilas Boas.
Com as inscrições a decorrerem até ao próximo dia 28, a organização espera este ano bater um novo record de participações.

Judas Cerveira

“Queima de Judas” em Vila Nova de Cerveira – Evento já ganhou dimensão transfronteiriça

A “Queima de Judas” é uma festa popular que tem lugar no sábado que antecede a Páscoa, na qual se recupera o ritual pagão da morte do ano velho e da chegada da primavera.
Nesta representação de pendor judaico-cristão, condena-se Judas, o traidor, e festeja-se a ressurreição de Jesus Cristo.
A “Queima de Judas” de Cerveira tornou-se, após várias edições com sucesso, no maior espetáculo de teatro comunitário do Vale do Minho, durante a Semana Santa.
O evento, recuperado há uma década pela autarquia depois de ter estado durante vários anos esquecido, atrai à vila cerveirense, por altura da Semana Santa, alguns milhares de pessoas.
Muita coisa pode acontecer durante a representação, mas uma coisa é certa… Judas é condenado à fogueira! Antes da sua morte, e lido o seu testamento, no qual é deixado ao concelho e ao país, um conjunto de conselhos e criticas.
Entre os objetivos deste espetáculo, que recupera velhos usos, destaca-se a preservação da tradição da Queima do Judas em Vila Nova de Cerveira; o estímulo e enriquecimento do programa cultural; a dinamização do comércio local; a promoção da cultura popular na região e a conquista de novos públicos com a diversificação de eventos sazonais, como explicou ao Jornal C a vereadora da Cultura da Câmara de Cerveira, Aurora Viães.
“Estamos a falar de uma tradição secular que se perdeu algures no tempo e que se retomou há uma dezena de anos. TO evento tem como objetivo não só reviver a tradição, mas também criar mais um evento que tenha um impacto cultural e turístico significativo para o concelho de Vila Nova de Cerveira em época baixa”.
Segundo Autora Viães a Queima dos Judas é um momento que atrai muita gerente a Cerveira por altura da Páscoa, e é sem dúvida um dos momentos altos das celebrações.
“A Queima de Judas é o evento profano que marca a animação cultural da Páscoa no concelho. É um momento chave”.
O evento, promovido pela Câmara de Cerveira, conta com a participação de toda a comunidade local e inclusive da população galega de Tomiño.
“Este evento surgiu como disse pela mão da Câmara Municipal em colaboração com as “Comédias do Minho” e aquilo que começou por ser um evento pequeno, foi ganhando uma dimensão enorme ao ponto de conseguir envolver toda a comunidade. É o caso dos ateliers dos “Judinhas” que são feitos pelas nossas crianças, dos comerciantes que confeccionam o seu próprio judas e o expõem à porta dos seus estabelecimentos, enfim tudo se envolve e mexe à volta da figura de Judas”.
O atelier de “Judinhas” decorre nos jardins da biblioteca em Vila Nova de Cerveira e em Goián. Os coloridos bonecos são construídos com recurso a materiais reciclados.
“Posteriormente, são recolhidos pelas Comédias do minho, no sábado que antecede a Páscoa, para também integrarem o espetáculo do centro histórico, cumprindo-se o ritual de brandir uns “judinhas” ao mesmo tempo que Judas é queimado”.

A “Queima de Judas” , agendada para sábado de Aleluia, ganha pelo segundo ano, uma dimensão transfronteiriça, com a cabeça a ser construída pela população de Goian, e o corpo pelos cerveirenses.

O judas de grande assume portanto uma identidade ibérica como revela a vereadora cerveirense.
“Pelo segundo ano consecutivo o Judas vai ser Ibérico, ou seja vai ser feito em colaboração com Tomiño, mais concretamente com Goian. A cabeça vem da vizinha Galiza e o corpo é feito pelos cerveirenses”.
Antes de ser queimado, o que acontecerá à noite é lido o testamento do Judas onde são reveladas algumas situações caricatas sobre o quotidiano político, social e cultural do último ano. Mas nesse testamento são também deixadas algumas sugestões como explica Aurora Viães. “Normalmente o testamento revela criticas sobre o que se passou a nível político e social no decorrer no último ano e no final são deixadas algumas sugestões para projetos futuros. São alguns recados que são deixados aos políticos que a nível local quer nacional”.

A Queima do Judas vai ter lugar no sábado (4 de Abril) e este ano, pela primeira vez, a animação começa já durante a tarde com a travessia até ao lado Galego para ir buscar a cabeça do Judas a Goian. Chegado a Vila Nova de Cerveira o Judas de grandes dimensões será passeado pelas ruas de forma a criar uma movimentação na vila e despertar a curiosidade a quem visitar a vila neste dia.
À noite terá lugar a leitura do testamento e a queima do judas.

 

Bife da Páscoa

 

“Bife da Páscoa” é só para homens

Em Cardielos, uma freguesia de Viana do Castelo, centenas de homens sentam-se à mesa no sábado de Aleluia para comerem o tradicional Bife da Páscoa. Depois do jejum pascal, os homens, e só os homens, honram assim uma tradição nascida há mais de meio século.
A tradição do “Bife da Páscoa” começou em Viana do Castelo, na lendária, mas já extinta, Pensão Restaurante Rio Lima, cujo proprietário e mestre de cozinha, Américo Correia, reunia um pequeno número de convivas para degustar a melhor carne dos talhos da cidade, exposta sexta-feira santa à porta dos estabelecimentos

 

Mesa dos 3 abades reúne párocos de 3 freguesias

Mesa dos 3 abadesCumprindo uma tradição antiga, os compassos pascais de Vila de Punhe, Barroselas e Mujães, três freguesias de Viana do Castelo, encontram-se na segunda-feira de Páscoa na Mesa dos Três Abades, situada no Largo das Neves.
A Mesa dos Três Abades terá sido construída no início do século XVII, numa iniciativa dos párocos das três freguesias da margem esquerda do rio Lima, para assinalar o fim das discórdias em relação aos limites das freguesias.
Chegados à Mesa dos 3 Abades, os párocos ou os seus substitutos sentam-se nos três bancos, mas para que a tradição se cumpra cada um é “obrigado” a ocupar o que está situado no território da freguesia que representa.
Depois de instalados nos seus devidos lugares, os párocos trocam cumprimentos, petiscam uns doces de Páscoa e brindam com um cálice de vinho do Porto, após o que os compassos retomam a sua marcha, cada qual pela sua freguesia.

“Lanço da Cruz” é uma tradição única em Valença

 

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A Páscoa em Valença tem uma tradição única, a do Lanço da Cruz, um ato que mostra a relação de amizade entre os povos das duas margens.

Esta tradicional romaria galaico-minhota decorre sempre na segunda-feira imediata ao fim de semana da Páscoa.
Ao entardecer, depois da visita pascal, à freguesia de Cristelo-Côvo (Valença), o pároco, devidamente paramentado e com uma cruz ornamentada, entra num barco e dirige-se até à margem espanhola onde dá a cruz a beijar aos paroquianos da outra margem. Durante esse período são lançadas, pelos pescadores de Cristelo-Côvo, as redes benzidas ao rio. Todo o peixe que sair no lance é para o pároco. Entretanto com o pároco português, regressa no barco o pároco da paróquia galega de Sobrado – Torron, concelho de Tui (Galiza), dando a cruz a beijar aos peregrinos que aguardam junto ao rio, na margem portuguesa.
Várias embarcações portuguesas e galegas acompanham este compasso pascal nas águas do Minho.

Até à noite os sons das gaitas de foles misturam-se com os das concertinas, das castanholas, o rufar dos bombos e tambores numa autêntica romaria galaico-minhota.

Merece especial referência a missa para os peregrinos da Galiza, celebrada em galego, por um padre galego, às 10h00 (hora portuguesa). Neste dia também, por tradição, os peregrinos desfrutam dos seus merendeiros nas sombras do parque comendo, sobretudo, o que sobrou do carneiro ou cabrito da Páscoa.

A tradição do Lanço da Cruz é uma manifestação religiosa e popular muito acarinhada pelas populações da raia minhota que ano após ano atrai um maior número de populares e turistas.

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Cidália Aldeia

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