Em 11 Maio, 2017 Por Em Caminha, Podcasts, Rubricas, Rubricas - Artigos

Fátima: o altar onde todos vão

 

 

Milhares de pessoas oriundas de todo o país percorrem, na primeira quinzena de maio, os caminhos que têm Fátima como destino.
É uma peregrinação muito intensa, são muitos quilómetros, mais de 300 para quem sai de Caminha. São oito dias de um sacrifício que vai para além do que é suportável. Muito cansaço físico e psicológico e muitas lágrimas que resultam quase sempre numa chegada emotiva ao Santuário. Uma vez lá, parece que a dor desaparece… Quem já foi diz que é algo impossível de explicar por palavras. É um misto de emoções que só sente e percebe quem já fez a peregrinação.

Se não custasse nada o que é que íamos lá fazer?

Do concelho de Caminha, parte todos os anos um pequeno grupo que se forma a partir de Vila Praia de Âncora. A este grupo, que este ano é constituído por oito pessoas, junta-se a um outro de Viana do Castelo. Ao todo, são cerca de 80 pessoas que partiram a pé para Fátima no passado dia 5 de maio. Com eles vai a irmã Ercília, uma religiosa de Vila Praia de Âncora que já foi nada mais nada menos do que 24 vezes a pé a Fátima. Prestes a completar 87 anos de idade, a irmã Beatriz, nome de batismo, da Congregação Franciscana da Imaculada Conceição e de São Miguel Arcanjo foi a Fátima pela primeira vez década de 60. Foi em outubro e dessa vez foi cumprir uma promessa com revelou ao Jornal C.
“A primeira vez que fui foi nos anos 60. Fui eu e mais uma irmã que trabalhava comigo aqui no Patronato e levamos connosco uma menina que estávamos a criar. Fomos as 3 em outubro e lembro-me que chovia muito. Levámos bastante tempo a lá chegar. Hoje em dia é bastante diferente, as coisas são muito mais organizadas e chega-se muito mais depressa”, conta
O que motiva alguém a ir tantas vezes a pé a Fátima foi o que tentamos perceber junto da irmã Ercília. “Como lhe disse, as duas primeiras vezes que fui foi por promessa, coisas minhas e da casa. A partir daí fui e continuo a ir por aqueles que gostavam de ir mas não podem e também para apoiar aqueles que vão pela primeira vez. Enquanto eu puder, ou seja, enquanto eu tiver cabeça e pernas, quero ir sempre e só peço a Deus que para o ano me dê forças para voltar no próximo ano”.
O grupo da irmã Ercília demora cerca de sete dias a chegar a Fátima. Saíram na passada sexta-feira dia 5 da Igreja do Carmo e chegaram na quinta-feira dia 11.
“Andamos entre 30 e 35 km por dia. Há uns anos atrás eu ia sempre no grupo da frente mas agora já não tenho tanta pedalada”, confessa.
O caminho é longo e duro e há quem aguente com maior ou menor facilidade. No que toca à irmã Ercília, os pés estão sempre impecáveis. As bolhas não a afetam e o que a chateia são mesmo os calos.
Desistir é palavra que não consta no dicionário da religiosa e em 24 anos só se lembra de ter assistido a uma desistência.
“Para ser sincera só me lembra de um rapaz de 24 anos que no ano passado teve que desistir ao chegar a Coimbra. Deu-lhe qualquer coisa nas pernas que o moço queria andar e não conseguia. Foi ao médico e ele aconselhou-o a ir para casa. Acabou por chegar a Fátima mas foi no carro de apoio”.
Quando a moral vai em baixo ou o cansaço é muito e começa a passar pela cabeça de alguém desistir, o grupo une-se para apoiar a dar força.
“ Sabe uma coisa? Se não custasse nada o que é que lá íamos fazer? Quando alguém está mais em baixo há sempre um companheiro de viagem que anima e dá força para continuarmos”.
A Fátima vai gente de todas as idades e pelas mais variadas razões. “Uns vão por promessa, outros pela experiência, outros para ajudar o grupo, mas todos vão com fé. Vão médicos, enfermeiros, estudantes, enfim todo o tipo de pessoas”.
O grupo de Viana onde segue a freira de Vila Praia de Âncora, já deixa os quartos marcados de um ano para o outro. “É um grupo muito bem organizado, com boas condições para os peregrinos. Tem que ser assim porque são muitos dias a caminhar e temos que ter o mínimo de conforto”, explica.
Ir a Fátima não é barato e são necessários pelo menos entre 500 a 600 euros.
Durante os dias da peregrinação há tempo para tudo. “Há tempo para conversar, para rir, para chorar, para rezar, para cantar, ou simplesmente para ir em silêncio, enfim é caso para dizer que há tempo para tudo”, explica a irmã Ercília.
A chegada ao Santuário de Fátima é sempre um misto de emoções. As dores até parece que desaparecem e a emoção da chegada até faz saltar as lágrimas.
“A chegada é sempre uma grande emoção. Já vi pessoas a irem do riso às lágrimas e vice versa. Pessoas que se atiram para o chão em pranto tal é a emoção. É lindo”, confessa.
Esta é a segunda vez que a irmã Ercília se vai cruzar com um Papa em Fátima. Aconteceu em 2000 com João Paulo II e agora com Francisco. Este ano é um ano especial não só porque vai estar o Papa em Fátima mas também porque se festeja o centenário das aparições e a canonização dos pastorinhos. Vai ser uma festa muito bonita”, garante a religiosa.
Findas as cerimónias do dia 13 de maio, o grupo regressa a casa de autocarro mas não sem antes parar na Mealhada para um almoço de despedida onde o leitão é rei à mesa.

 

Todos me diziam que eu não ia conseguir…

Susana Costa foi a Fátima a pé em 2014. Saiu de Viana para uma peregrinação de sete dias que, como recorda, foi resolvida praticamente na véspera depois do primo, que todos os anos organiza grupos que vão a pé a Fátima, a ter desafiado a ir também.
“Lembro-me que ele veio uns dois ou três dias antes jantar connosco e estávamos à mesa quando ele me desafiou para os acompanhar. Ele sabia da vontade que eu tinha de ir e começou a desafiar-me. Enquanto ele me dizia para ir o resto da família dizia que eu nunca ia conseguir. A determinada altura enchi-me de coragem e disse que ia. Fui sem preparação nenhuma mas, contra todas as previsões da minha família consegui lá chegar”, recorda.
Há muito que Susana manifestava vontade de ir mas tinha medo de não conseguir. Por isso decidiu não fazer promessa. No entanto pensou para si que se conseguisse chegar ao fim, seria um sacrifício que iria oferecer como forma de agradecimento.
Susana admite que não foi fácil, “foram dias muito dolorosos, de muito cansaço físico e custou-me mesmo muito”, confessa.
Ainda assim, desistir foi coisa que nunca lhe passou pela cabeça. “Tive momentos de cansaço quase extremo mas desistir acho que nunca pensei nisso. Tive sempre o apoio do meu primo que nos últimos 10 anos tem ido sempre e isso ajudou-me muito. O que mais me custou fazer foi o troço entre Viana e Vila do Conde. Foi a primeira etapa e foi muito dura, não pensei desistir mas sinceramente pensei que não ia aguentar”, recorda.
Depois da primeira etapa seguiram-se outras que Susana foi fazendo muito graças ao grupo que ia consigo. “Eram pessoas muito animadas que se apoiavam muito umas às outras. Ninguém ficava para trás e quando alguém se atrasava os que seguiam à frente esperavam pacientemente. Há uma espécie de espírito de equipa”, conta.
Este “um por todos e todos por um” verificou-se durante os sete dias em que durou a peregrinação. As poucas horas de descanso eram passadas em albergues e a saída era de madrugada para evitar o trânsito e o calor.
“Saíamos por volta das 3 ou 4 da manhã dependendo do grau de dificuldade e da quantidade de quilómetros da etapa que tínhamos pela frente. Mas era quase sempre de madrugada para evitar o calor”.
O cansaço extremo levou a que Susana também chorasse em alguns momentos mas a boa disposição foi quase sempre a tónica dominante no grupo que era composto por cerca de 50 peregrinos.
Mas nem só de lágrimas se faz o longo caminho até Fátima, como revela a Susana. “Falámos de muitas coisas, aproveitamos para nos conhecer uns aos outros, rezámos, contámos histórias”.
Mas entre choros e risos também há alturas em que o silêncio é boa companhia. Uma espécie de introspeção que ajuda a vencer os quilómetros.
“Havia momentos em que não me apetecia falar com ninguém e então ia em silêncio”.
Susana Costa garante que ir a Fátima a pé foi “uma experiência para a vida” que quer repetir. “Ainda pensei em ir este ano outra vez mas não deu, quero ver se vou para o ano”.
Pelo caminho fazem-se amizades, algumas para vida. “A maior parte das pessoas que conheci quando fiz a peregrinação continuam minhas amigas e o contato mantem-se até hoje”.
Chegar a Fátima depois de sete dias de sofrimento é algo que Susana também não consegue traduzir em palavras.
“É uma emoção enorme… para ser franca não sei como explicar isto por palavras. Há muitas pessoas que me fazem essa pergunta e na hora de responder eu nunca sei o que dizer. É impossível de descrever e só quem vai é que sente. Quando uma pessoa vai de carro ao entrar no santuário já sente alguma coisa, agora imagine chegar lá depois de sete dias a caminhar, fisicamente debilitado. Há qualquer coisa, não sei bem explicar o que é, só de falar nisso outra vez já estou emocionada”.
O sacrifício valeu a pena e Susana Costa quer voltar a repetir a experiência.

 

Uma experiência que fica para toda a vida!

“Chorei muito… foi um sofrimento muito grande…tive alturas que se eu pudesse tinha posto as mãos no chão em vez dos pés…”.
O desabafo é de Graça Loureiro, uma caminhense que também fez o caminho a pé até Fátima. Foi no ano 2000 e apesar de já terem passado 17 anos, lembra-se de tudo como se fosse hoje. Cada momento, cada conversa, cada choro, cada desespero, está tudo guardado na memória como se tivesse sido ontem.
Graça Loureiro tinha uma promessa para pagar a Nossa Senhora de Fátima e em 2000 decidiu fazer a peregrinação juntamente com 8 senhoras suas amigas.
Esta caminhense morava na altura em Fafe e foi de lá que partiu 8 dias antes do 13 de maio.
“Fui com um grupo de oito senhoras para cumprir uma promessa que eu tinha a Nossa Senhora de Fátima. Eu era a única que ia pela primeira vez, as outras já tinham ido mais vezes. Os primeiros quilómetros andei muito bem, até nem me custou muito mas ao chegar a Vila Nova de Gaia fui-me abaixo e sinceramente pensei em desistir por achar que não ia conseguir. Foi muito difícil, custou-me muito porque fisicamente não estava bem, as dores eram muitas”, recorda.
Se não fossem as companheiras de grupo Graça Loureiro nunca teria conseguido chegar a Fátima e assim cumprir a promessa.
“Foi graças às minhas companheiras que eu consegui. Como lhe disse quando cheguei a Gaia eu já estava muito cansada e com muitas dores e a partir daí foi um sacrifício muito grande. Andávamos uma média de 40 a 45 quilómetros por dia, foi esgotante”, recorda.
Para conseguir chegar ao fim, Graça Loureiro pediu a Nossa Senhora que lhe desse força “ e a verdade é que inexplicavelmente consegui lá chegar”.
Desistir foi algo que lhe passou várias vezes pela cabeça. “Disse muitas vezes às minhas companheiras que não ia aguentar e que ia telefonar ao meu marido para me vir buscar tal era o meu desespero. E isso só não aconteceu porque elas não me deixaram desistir. Diziam-me que se elas conseguiram eu também ia conseguir e de facto consegui”.
A saída para a estrada era feita de madrugada, por volta das 4 da manhã. “As primeiras pessoas com quem nos cruzávamos era com os padeiros que andavam a distribuir o pão. Chegamos a comprar alguns bolos para comermos. Era de madrugada que se andava melhor porque depois, durante o dia, o movimento dos carros e dos camiões era horrível”.
O pior da peregrinação foi sem sombra de dúvida o cansaço físico e a dores. “Dores nas pernas, nos pés e na cabeça. Cheguei inclusive a ter náuseas e a vomitar. Olhe para ter uma ideia, havia momentos em que eu não via nem a estrada nem os carros, nem nada. Mas pronto lá ia um dia atrás do outro e fui buscar forças onde nunca pensei que elas existissem”, conta.
A visita da filha e do marido em Águeda foi outro dos momentos que Graça Loureiro não esquece. “Foi no dia da mãe. Nós estávamos a chegar a Águeda e recebi um telefonema do meu marido e da minha filha a dizer que tinham chegado a Águeda mas os peregrinos eram tantos que era impossível descobrirem onde eu estava. Foi um miminho que eles me deram muito bom. Levaram uma mesa e fizemos um almoço de dia da mãe, nunca mais me vou esquecer desse dia. Parece que me deu mais força para continuar”, recorda.
A chegada ao santuário foi uma emoção enorme. “Lembro-me que nos agarramos umas às outras a chorar. Foi uma emoção nem sei bem como explicar, só entende isto que eu estou a dizer quem já viveu o memento. Foi uma grande alegria e parece que tudo passou naquele momento”.
Graça Loureiro regressou a casa depois de terminadas as cerimónias em Fátima. Os dias que se seguiram não foram fáceis. As mazelas deixadas pelos mais de 300 quilómetros de caminho ainda custaram a passar. “Estive mais de 15 dias de cama com problemas nas pernas e nos pés, fiz uma flebite e foi um bocado complicado mas felizmente passou”.

Voltar a Fátima a pé não está nos planos de Graça. Tem a certeza que não iria aguentar.

 

Fátima é o coração do mundo!

Uma operação complicada ao coração a que se seguiram vários dias em coma, foi o que motivou Maria Barbosa a ir a pé a Fátima pedir a Nossa Senhora pela saúde da mãe. Acompanhada de mais duas irmãs, partiu de Amarante em 1997.
A chuva que caiu intensamente no primeiro dia tornou tudo mais difícil. Os pés ficaram logo numa lástima e o resto do caminho foi feito com chinelos e ligaduras a proteger as muitas bolhas nos pés.
“Tinham-me aconselhado a levar ténis porque diziam que era o melhor calçado mas a chuva que apanhamos logo no primeiro dia fez com que ganhasse muitas bolhas e acabei por ter que comprar uns chinelos com os quais fiz o resto do caminho”.
Maria Barbosa e as irmãs juntaram-se depois a um grupo grande de peregrinos que vinha de Paredes, “era um grupo com cerca de 200 pessoas. Os responsáveis por esse grupo estavam encarregues de nos arranjar o local para dormir e comer. Quando nós chegávamos já tínhamos tudo pronto ”, recorda.
Dormir era onde calhava, às vezes em locais onde não havia grandes condições. “Lembro-me que uma noite ficamos num matadouro desativado. Era um edifício que nem janelas tinha. Eu tinha um certo receio mas felizmente correu tudo bem”.
Os sete dias que levou a chegar a Fátima não foram fáceis, caminhavam entre 40 a 50 quilómetros por dia. “Foi doloroso mas também lhe posso garantir que foi uma das experiências mais bonitas da min-ha vida. Para mim Fátima é o coração do Mundo”.
Chegar ao santuário “é a coisa mais bonita que temos”, é uma “emoção enorme que sinceramente não lhe consigo explicar. É um consolo e uma paz tão grande que só quem vai é que sente. Lembro-me que ao chegar me arrepiei”.
Depois de chegar a Fátima no dia 12 de maio, Maria Barbosa cumpriu a sua promessa e regressou a casa.
“Não fiquei para as cerimónias porque tinha os pés em muito mau estado. Regressei de carro e as semanas que se seguiram foram para recuperar. Além dos pés em feridas, tinha as pernas muito inchadas e ainda demorou algum tempo para que tudo voltasse ao normal”, recorda.

Apesar de todas as desconfianças e ceticismos a verdade é que Fátima se transformou num altar. Um altar onde não vão apenas aqueles que nada têm a perder, mas também as elites sociais. A Fátima vai todo o tipo de pessoas, por variadíssimas razões e até sem razão nenhuma.

Dia 13 de Maio não será diferente. Estima-se que milhares de pessoas assistam à cerimónia de canonização dos beatos Francisco e Jacinto, presidida pelo Papa Francisco no centenário das aparições.

Acerca de

Cidália Aldeia

Chefe de Redação