Em 12 Abril, 2017 Por Em Podcasts, Rubricas - Artigos, Terra, Rio e Mar

Doçaria tradicional de Lanhelas , um saber que passa de sogras para noras

 

 

Manda a tradição que as heranças passem das mães para as filhas, ou das avós para as netas, mantendo-se na família pelo maior período de tempo possível. É assim com as jóias, objetos, com os saberes e com as receitas, muitas vezes mais valiosas do que os cordões ou brincos deixados pelas mulheres da família.
São segredos guardados a sete chaves, inconfessáveis, que vão atravessando gerações e gerações sem nunca sair da família. Sempre foi assim e assim continua…

Mas na freguesia de Lanhelas, no concelho de Caminha, existe uma família que, fugindo um pouco à regra, quebrou parte desta tradição e, em vez de serem as mães a passar os ensinamentos às filhas, têm sido as sogras que os passam às noras. Curiosos? Acreditamos que sim.
O Terra Rio e Mar desta edição convida-o a conhecer um pouco melhor a Doçaria Tradicional de Lanhelas, verdadeiras iguarias que se vendem nas romarias do Alto Minho.

Roscas, biscoitos, cavacas, papudos, grades e bolos brancos, juntam-se ao sortido da páscoa, ao pão de ló e a um sem fim de outras especialidades que são confeccionadas pelas mãos habilidosas da D. Otília Cunha e da nora, Fátima Gonçalves, na Fábrica de Doces Tradicionais de Lanhelas.
As receitas são exatamente as mesmas que usaram a avó e a mãe de Salvador Cunha, o marido da D. Otília que, na eminência de ver acabada a tradição familiar, lá conseguiu convencer a mulher a continuar com o negócio dos doces.
Isso mesmo nos contou Otília Cunha enquanto cortava com mão certeira e com a ajuda de uma “rapinha”, a massa para as roscas, “a rainha da casa” por ser o doce que mais saída tem na fábrica de Lanhelas. São aos milhares as dúzias que por ano são enviadas para todo o país e também para o estrangeiro. “Onde quer que haja um emigrante minhoto, os doces de Lanhelas estão presentes, garante a nora, Maria de Fátima.

Falar com esta dupla não foi fácil. Não que elas não quisessem falar com o Jornal C mas porque por estes dias e até à véspera da Páscoa, todo o tempo é pouco para dar vazão às encomendas.
Não há horas para comer nem para descansar, só há horas para acordar porque as entregas são muitas e têm que ser feitas à hora combinada.
Mas apesar do pouco tempo conseguimos uma visita que fizemos em companhia dos alunos da escola EB1 de Âncora Lage.

Mas vamos à história deste “negócio de noras” que já conta com mais de 130 anos e que hoje já é o único do género numa freguesia que em tempos idos teve tradição na doçaria.

“A minha sogra já era nora, eu sou nora e agora a Fátima, que é a minha nora, também trabalha aqui na fábrica comigo. Em 1975 foi editado um livro em que o meu sogro já calculava que a fábrica teria naquela altura mais de 100 anos. Foi uma tradição que nasceu aqui na freguesia de Lanhelas, precisamente nesta casa e foi iniciada pela família do Aníbal da Prima que era o meu sogro. Porque estes nome? Porque uma tia do meu sogro era conhecida pela tia Prima e então ficou o Aníbal da Prima. Mas o negócio já vinha dos antepassados do meu sogro, julgo que da mãe e da tia”.

Otília Cunha, natural da freguesia de Loivo concelho de Vila Nova de Cerveira, veio para Lanhelas por via do casamento.
Sem grande ligação à confecção dos doces, começou a ajudar a sogra nas horas de maior aperto e assim foi aprendendo a arte.

“Quando eu casei vim viver para a casa dos meus sogros e lembro-me que quando eles iam descansar depois do almoço antes de começarem a trabalhar outra vez, eu vinha caladinha por aqui abaixo e punha-me a fazer como eles faziam e foi assim que eu fui aprendendo. Depois disso, ou seja há mais ou menos 28 anos, ainda cheguei a trabalhar aqui a tempo inteiro com os meus sogros durante dois anos, mas depois deixei para me dedicar a outro projeto”, recorda.

Com o passar dos anos o Sr. Aníbal e a esposa deixaram de trabalhar e, como as filhas nunca mostraram interesse em continuar o negócio, coube à nora regressar e dar continuidade à tradição da família.

“É engraçado que o meu sogro estava-me sempre a desafiar para eu vir para aqui e eu dizia-lhe que não, que já tinha muito com que me entreter . Mas o que verdade é que a roda da vida se encarregou de me pôs aqui de novo e cá estou. O que aconteceu foi que as minhas cunhadas não quiseram continuar com isto e o meu marido, com pena de ver o negócio e a tradição dos pais acabar, lá me convenceu a mim e à nora a continuar. Recomeçamos há 7 anos e não estou arrependida” confessa.

Quanto à Fátima, a mais recente nora deste negócio, estava bem longe de imaginar que o seu futuro profissional iria passar pela confecção dos doces tradicionais de Lanhelas que conhecia bem, mas só de ver a vender nas feiras e romarias onde ia com a mãe.
Natural da freguesia de Arga de Baixo, concelho de Caminha, também veio viver para Lanhelas pela via do casamento.O que sabe desta arte aprendeu com a sogra Otília.

“Gosto do que faço até porque não fazemos sempre a mesma coisa. Todas as semanas fazemos coisas diferentes”.

 

Ovos, farinha, açúcar e fermento são os ingredientes base a que se juntam outros normalmente utilizados no acabamento final, como é o caso, por exemplo, do coco, o chocolate, entre outros. Produzida com base em receitas antigas, a doçaria tradicional de Lanhelas é toda confecionada à mão.

“A única máquina que aqui temos é mesmo esta batedeira grande para bater as massas, de resto é tudo feito com as nossas mãos”, garante.

As encomendas vão para todos os cantos do mundo, desde os Estados Unidos, passando pela a América Latina, e Europa.

“Ainda há pouco tempo fizemos uma encomenda para a América, já temos feito para levarem para o Brasil e claro para e Europa, principalmente Suíça e França onde estão muitos emigrantes desta zona. Não são encomendas grandes mas vão para todo o lado”, revela com orgulho.

Até estarem definitivamente confecionados, os doces passam por diversos processos. Na visita que fizemos à fábrica tivemos oportunidade de assistir à confeção das roscas e dos bolos gema, também conhecidos como bolos brancos.
As massas são distintas, principalmente na sua textura. A das roscas é mais dura enquanto que a dos bolos é mais líquida. Depois da massa feita, no caso das roscas, é estendida numa mesa com a ajuda de um rolo da massa. Depois de estendida é cortada em pequenas tiras que são depois amassadas e moldadas em pequenas argolas e colocadas nas “latas” ou seja nos tabuleiros para irem ao forno.

No caso dos bolos é necessário recorrer ao saco de pasteleiro que pesa nada mais nada menos do que sete quilos.
Depois de cozidos a uma temperatura de 270 graus, quer os bolos quer as roscas levam um banho de açúcar a ferver, o que lhes dá aquele aspeto esbranquiçado depois de seco. Depois são embalados em pequenos sacos e vendidos nas feiras e romarias e também nalguns comércios.

Com o negócio a correr bem, resta agora que a tradição não se perca e que venham mais noras para dar continuidade a esta tradição familiar que também tem a mão masculina através dos filhos de Otília Cunha.
Na fábrica, os antigos formos a lenha foram substituídos por fornos elétricos mais modernos, de resto uma das poucas inovações. É que à exceção das instalações e algumas alterações por força da lei, tudo se mantém como há mais de 130 anos, principalmente as receitas e os métodos de confeção.

A pequena e discreta ruela da freguesia de Lanhelas, (Caminho da Ramalhosa) onde está situada a fábrica tem por estes dias um movimento invulgar.
É que estamos na Páscoa e por isso, manda a tradição que à mesa os doces ocupem um lugar de destaque. E se ainda não conhece estas iguarias, não sabe o que está a perder porque os doces de Lanhelas são, como diz o povo, de comer e chorar por mais.
Quem já conhece, sabe que não estamos a exagerar…

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